Letras e fotogramas

O fim do mundo passa por aqui

Por Alysson Oliveira em 19/11/2013

Há uma imagem bastante forte e bastante divulgada do filme Riocorrente, de Paulo Sacramento– premiado pelo júri da Abraccine na Mostra –, que traz um rio coberto em chamas cruzando São Paulo. Essa cena, que também é o pôster do longa, impressiona não apenas pela qualidade dos efeitos especiais, mas, especialmente, por sua contundência e seu sentido apocalíptico. Já O Rio nos Pertence – também exibido no festival –, de Ricardo Pretti, a imagem simbólica mais marcante é o Rio de Janeiro coberto por uma bruma que a tudo engole e consome.

Num certo sentido ambos são filmes pós-apocalípticos e, como é típico nos melhores representantes do gênero, figuram o mal-estar da contemporaneidade, o esmaecimento de nós mesmos, sujeitos e sujeitas pós-modernos engolidos pela fragmentação e incompreensão. Também, conforme é comum, nenhum dos longas traz o fato em si que desencadeia o “fim do mundo”. Muito além de não importar o ponto de partida, há também nossa incapacidade de compreender, de figurar o começo o fim – ou, pior ainda, já acabou e não percebemos.
O crítico e professor norte-americano Fredric Jameson diz em seu Archeologies of the Future, um estudo sobre utopia e ficções científicas, que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. E é exatamente essa contenção que se materializa nos dois filmes. A incapacidade – não apenas dos longas, não apenas das artes, mas de todos nós – de ir além do mundo em que vivemos e conhecemos.
Riocorrente tem como protagonistas um trio: Renata (Simone Iliescu), o jornalista Marcelo (Roberto Audio) e o ladrão de carros Carlos (Lee Taylor). Todos numa espécie de crise existencial. Acrescenta-se a eles um garoto de rua, chamado de Exu (Vinícius dos Anjos), que fica sob os cuidados de Carlos, com quem pratica pequenos roubos. Cada um deles, a seu modo, tem uma (in)capacidade de lidar com o fim do mundo que parece se aproximar.
Sacramento, que também assina o roteiro, lida com o realismo durante boa parte do filme, porém, a medida em que se aproxima de seu clímax, a realidade parece não bastar, e a fantasia (um tanto doentia) é a saída, enquanto o fogo, uma espécie de catalisador.
Esse é o mesmo caminho que Pretti – também autor do roteiro de seu filme – percorre em O Rio nos Pertence. Marina (Leandra Leal) se ausentou de sua vida por 10 anos. Foi outra pessoa, abandonou amigos e a única irmã (Mariana Ximenes), conheceu novas pessoas, fez novos planos com um americano. A chegada de um postal onde se lê o título do filme é o que a faz voltar ao seu antigo mundo, retomar laços. Aos poucos, a personagem se revela, é construída com sutileza pelo talento da atriz e a sensibilidade do diretor-roteirista.
O Rio do filme passa longe dos dois extremos retratados no cinema – o de cartão postal e o das favelas. É uma cidade etérea, transfigurada, borrada por uma neblina que esconde os contornos e deixa tudo manchado – tal qual o emocional dessa personagem fragmentada como o seu tempo presente. Quem são esses ‘nos’ a quem o Rio pertence? E porque Marina tem tanto medo deles?
Se o capitalismo, que não morre, nunca é escancarado nos filmes, ele ainda é a lógica que dita as regras das vidas dessas pessoas – assim como das nossas, é claro. Ele se faz presente em sua ausência, em sua sombra que paira sobre os personagens, sobre o Brasil, ao qual narrativas não mais explicam. De certa forma, Riocorrente e O Rio nos Pertence são o passo seguinte a O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, exibido na Mostra do ano passado e em circuito no começo do ano.
Podemos ler cada um dos dois filmes como uma ficção-científica, que, citando novamente Jameson, “não nos dá ‘imagens’ do futuro (…) mas desfamiliariza e reestrutura nossa experiência do nosso próprio presente”. Uma outra cena bastante marcante em Riocorrente traz ratos devorando pilhas de um dos maiores jornais de São Paulo. Num outro momento, um banca de jornal é, para usar uma palavra da moda, vandalizada. Sacramento transforma em imagens a descrença quase generalizada nas fontes de informação convencionais – o que não é nada exagerado, basta ver a manchete de capa da Folha de S. Paulo de 8 de novembro que induzia ao erro ao omitir o prefixo ‘ex’ da palavra ex-prefeito.
Como em O Som ao Redor, nesses dois filmes, os finais não apontam caminhos, soluções. Atestam apenas que os seus sujeitos pós-modernos são as figuras de nosso tempo, em suas complexidades e complicações. Dois filmes que ainda têm muito a ser discutidos.
 
Texto originalmente publicado em http://abraccine.wordpress.com/