Letras e fotogramas

Hamlet Redux, no novo romance de Ian McEwan

Por Alysson Oliveira em 26/09/2016
Talvez os romances um tanto macabros do início da carreira de Ian McEwan não dessem notícia de que ele seria, no século XXI, cronista das crises da Europa contemporânea – das narrativas (Atonement), políticas (Saturday), históricas (On Chesil Beach), ambientais (Solar) –, e seu mais novo romance, NUTSHELL, dá conta do presente – da era das imigrações, das fronteiras supostamente fluidas, da contenção de políticas de identidades, da União Europeia (e, por consequência, do Brexit).
 
Narrado por um feto – no final do terceiro trimestre de gestação – ainda sem nome, o romance é uma releitura de Hamlet, o que já é apontado logo na epígrafe. Na sua existência intrauterina, ele acompanha o plano de sua mãe, Trudy, junto com o tio, Claude, de assassinar seu pai, poeta fracassado e editor quebrado, John. A formação do protagonista-narrador-feto é dada por acompanhar diálogos da mãe, programas de rádio e afins. Dotado de senso crítico, perspicácia e sagacidade, esse pequeno ser, embora muitas vezes subordinado aos interesses e possibilidades físicas da mãe, sabe o que quer, mesmo que muitas vezes não saiba como agir, ou nem possa agir como queria.
 
Vivendo no momento em que ele chama de segundo crepúsculo da Era da Razão, o narrador constrói uma trama que transita entre o suspense e uma comédia nervosa e tensa dado algo que patético que existe em toda a situação. Por meio dessa voz, ainda em formação, o escritor comenta o estado do mundo atua. A pergunta nunca se formaliza, mas fica no ar: que mundo é esse em que essa criança nascerá? A resposta pode ser assustadora.
 
Com uma tensão construída em cima de uma linguagem clara, a prosa de McEwan nunca se submete a pirotecnias e malabarismo linguísticos ou formais. Ele segue, aqui, a tradição de um romance realista, mas com um toque insólito desse narrador que, sem qualquer vínculo social consolidado, ele tem a oportunidade de fazer uma crítica mais aguçada.
 
Destituído da opção de não ser, o pequeno Hamlet acompanha a trama que pode resultar na morte do pai que ele conhece apenas pela voz, e pelos comentários jocosos da mãe e do tio. “Minha mãe está envolvida numa trama, e portanto eu também estou, mesmo seu o meu papel poderá ser frustrá-la. Ou se eu, tolo relutante, aceito muito tarde, e então vinga-la.” O personagem segue o fluxo, comenta os acontecimentos, planeja ações, mas, ao fim, só lhe resta uma única opção: nascer. “Liberdade de expressão, não mais livre, democracia liberal não mais o porto óbvio do destino, robôs roubando empregos, a liberdade num combate acirrado com a seguridade, socialismo em desgraça, capitalismo corrupto, destrutivo e em desgraça, sem alternativas no horizonte”. Realmente, quem quer vir para um mundo assim? Mas existe outra opção?

Post morten postmodern: O novo romance de Don DeLillo

Por Alysson Oliveira em 07/09/2016
 
 
Nada mais importante para Don DeLillo do que vivermos na era da Pós-Modernidade. O esvaziamento da História enquanto narrativa (Libra, Mao II, White Noise, Underworld, Falling Man), colapso financeiro (Cosmopolis), políticas de identidade (The Body Artist) etc. Em seu mais novo romance, ZERO K, o nosso presente é investigado tendo a morte (e a luta contra sua inevitabilidade) como o mediador.
 
Em um prédio no meio do nada, no Oriente Médio, onde pacientes terminais são congelados a zero Kelvin para no futuro, quando descoberta a cura para sua doença, serem descongelados, uma espécie de guru diz ao protagonista-narrador: “Aqueles de nós que estão aqui não pertencem a nenhum outro lugar. Nós caímos fora da história. Abandonamos quem somos e onde estávamos para estar aqui”. O que seria o “cair fora da história” nesse mundo de gente rica que pode pagar o congelamento?
 
Ross Lockhart, pai do personagem central, pagará o congelamento de sua jovem segunda esposa, a arqueóloga Artis Martineau. Mas o que ele mesmo fará sem ela ao seu lado?, pergunta ao filho, Jeffrey. É nesse mundo incompleto que vivem os personagens desse romance.
 
Não é um mundo totalmente descabido, nem exagerado. No deserto do Arizona, existe a Alcor Life Extension Foundation, uma espécie de ONG, que mantém, no momento, quase 200 corpos – entre humanos e animais – em criopreservação, a espera de uma cura para a causa mortis, e assim os despertar e resolver o problema, por assim dizer. A questão central, então, que DeLillo coloca aqui é qual o preço de trapacear na ordem natural das coisas.
 
Num segmento central no romance, Jeffrey está em Nova York com sua namorada e o filho adolescente ucraniano que ela adotou. Aqui temos mais um momento tipicamente DeLilliano quando o garoto trava, em sua língua, um diálogo tenso com o motorista do táxi que os leva. E nessa parte da narrativa, dentro do veículo, está um resumo brilhante de tudo que pauta o nosso mundo:  dinheiro, globalização, relações familiares, segurança em aeroporto e excesso de informação.
 
Mais do que medo da morte, os personagens aqui têm medo da vida. O apocalipse, então, seria um alívio, pois morrendo todo mundo junto é menos penoso do que um de cada vez. ZERO K, um dos maiores romances do autor, explora as conexões entre vida e morte, e aquilo que faz de nós humanos no momento em que estamos – especialmente a linguagem, que nos define, aproxima e repele.