Letras e fotogramas

“Benzinho”: Que horas ele volta?

Por Alysson Oliveira em 22/08/2018
Há uma cena, ainda no começo de Benzinho, que é bastante reveladora e sintetiza toda a ideia do filme. A família está jantando amontoada na pequena mesa, da pequena cozinha, mas todos felizes, até que a torneira que pinga começa a jorrar água. A matriarca, Irene (Karine Teles, numa interpretação mais que iluminada), tenta conter a água com as mãos, enquanto o marido, Klaus (Otávio Müller), vai fechar o registro. O restante do longa é essa cena simbolicamente se repetindo: Irene tentando (às vezes conseguindo, às vezes, não) conter jorros e impulsos dela e de pessoas ao seu redor. A água também se revela um elemento importante aqui: simbolicamente, quase sempre, está ligada à maternidade, uma representação do líquido amniótico. Exatamente sobre o que é (entre tantas coisas) o longa de Gustavo Pizzi: sobre a maternidade truncada.
 
A ruptura acontece quando o filho mais velho do casal, Fernando (Konstantinos Sarris), é convidado para jogar handebol na Alemanha. Uma alegria e uma tristeza, especialmente para a mãe. Como lidar com o ninho vazio? Na verdade, não totalmente vazio, pois ainda ficam os outros três filhos – interpretados por Luan Teles e pelos gêmeos Arthur Teles Pizzi e Francisco Teles Pizzi. Há também a irmã de Irene, Sonia (Adriana Esteves, igualmente numa interpretação inspirada), separando-se do marido abusivo (César Troncoso), que se instala na casa de Irene e Klaus.
 
A casa, aliás, é também outro elemento simbólico – está, literalmente, caindo aos pedaços. Numa das primeiras cenas, ainda antes da explosão do encanamento, a fechadura emperra e, durante o filme todo, os personagens entram e saem pela janela do quarto do casal. Ao lado dessa casa onde moram todos, há uma outra, no mesmo terreno. A construção foi interrompida pela falta de dinheiro, no aguardo da possibilidade de concluir a obra. Essa é uma família com sonhos – a finalização da casa nova é o principal deles – mas que, devido a condições sociais, não consegue realizá-los.
 
Nesse sentido, o filme, sagazmente, desfaz a ideia da meritocracia. Será que a vida de Irene não é melhor porque ela não se esforça bastante? Ela e a irmã vivem vendendo marmitas, lençóis e gelinho. Ela estuda para terminar o 2o grau, será que a vida vai melhorar? Klaus tem uma papelaria, onde também vende livros usados, e quer abrir uma livraria – a maior da cidade onde moram, Petrópolis. Se a ideologia da meritocracia funcionasse, todos estariam ricos, mas não estão. Dirigido por Pizzi, a partir de um roteiro escrito por ele e Teles, o filme investiga de maneira sutil processos interrompidos, num país onde tudo parece sempre ser adiado. É a casa que não dá para reformar e desmorona aos poucos; é a construção que não dá para acabar, porque não tem dinheiro. A saída seria o abandono, como Fernando, se mudando para outro país? O filme, obviamente, não traz respostas, mas acompanha uma classe média na corda bamba que, por muito tempo, acreditou que apenas se esforçar bastava.
 
A dupla Pizzi e Teles é sagaz o bastante para jogar o peso do filme no emocional dos seus personagens, sem que, assim, percebam estruturas sociais que os prendem nesse purgatório. O retrato dos personagens, que desvenda um cotidiano de maneira quase casual, é carinhoso e os laços de afeto sobrevivem em meio ao caos. Na verdade, eles sustentam as pessoas. E elas tentam não desabar quando esses laços são esticados até o limite – especificamente quando o filho for embora para a Alemanha.
 
Benzinho é um filme de delicadezas e sentimentos – o que não quer dizer que seja piegas, pelo contrário: sua honestidade é tão brutal que chega a doer. Impossível não chorar e rir (muitas vezes ao mesmo tempo). E traz uma das cenas mais fortes, e, ao mesmo tempo, mais simples que se viu numa tela de cinema esse ano: o ato de se despir de um simples casaco nunca gerou um efeito dramático tão tocante. 

“Dora” e a modernização conservadora

Por Alysson Oliveira em 16/08/2018
No último parágrafo de Dora sem véu, novo romance de Ronaldo Correia de Brito, mencionam-se um Iphone e um MacBook, duas lembranças da tecnologia de ponta diante do que se leu nas mais de 200 páginas anteriores do livro. A expressão “modernização conservadora” aparece uma vez ao longo da narrativa, e parece ser a chave de compreensão dessa história sobre uma socióloga em busca de sua avó que, por conta de um conselho do Padre Cícero, migrou para o Acre.
 
A avó é a Dora do título. A protagonista-narradora é Francisca, socióloga que viaja de caminhão, ao lado do marido, para Juazeiro, tentando recuperar a história da avó, uma dívida que contraiu com o pai, no leito de morte, que lhe contou como abandonou a mãe e três irmãos mais novos, indo para Recife tentar a vida, aos 12 anos. Esse foi um segredo que guardou a vida toda – um peso que o consumiu e transferiu para a filha.
 
As pessoas que passam de pai para filha, de marido para mulher, de homem para mulher são uma das questões centrais. O peso do patriarcado que não só draga mulheres, mas também as mata, é a força gravitacional que prende todas as personagens femininas aqui – sejam elas Francisca, Dora, ou jovem Daiane, que sobreviveu a um aborto e, agora forçada pela mãe, paga promessa vestida de noiva. Logo no inicio do romance, a protagonista trava um diálogo com a mãe da garota, quando ainda estão no caminhão rumo a Juazeiro, sobre o poder que as mulheres deve(riam) ter sobre seus corpos, o que inclui o direito de abortar. É um diálogo repleto de boas intenções, mas literariamente forçado dentro do livro, mais para fazer um argumento e, por isso, soa antinatural. Esse é, no entanto, o único senão dentro da narrativa, que logo encontra seu eixo.
 
Correia de Brito, que é médico, tem um olhar especial para os dramas humanos – tanto os físicos e emocionais, como os sociais. Há um capítulo que se passa num hospital, quando um personagem resgata sua temporada numa enfermaria, relatando diversos dramas, que é tocante em sua composição e forte em seu efeito. As doenças físicas, lembra o livro, estão, muitas vezes, ligadas a mazelas sociais, e só pioram com o descaso com a saúde pública. Ao contrário do diálogo sobre o direito ao aborto, aqui a crítica e denúncia sociais são feitas de maneira sutil e eficiente.
 
Ainda no plano da investigação social, o autor resgata uma história pouco conhecida – ou lembrada – os “campos de concentração”, mais conhecidos como “currais do governo”, no nordeste brasileiro, no século passado. Pobres, obviamente, em sua maioria migrantes, eram colocados num lugar fechado distante da visão dos ricos. Mais um sintoma da modernização conservadora, que dá a chance de modernização de maneira bastante desigual.
 
A visita de Francisca a Juazeiro prova, no entanto, que, como diria Roberto Schwarz, o tempo passou e não passou. Os paralelos entre os currais humanos e a peregrinação abarrotada de gente não são poucos. Dessa maneira, o livro investiga estruturas de poder que permanecem e se fortalecem com o tempo, à medida em que podem ser mantidas de maneiras sutis e ainda mais eficientes. Não passa batido também como essas estruturas podem se repetir de maneiras um tanto homólogas na periferia do capitalismo. “De tempos em tempos, as expressões "extermínio em massa" e "genocídio" reaparecem, como no caso de Alepo. Nos confrontos de brancos e negros nos Estados Unidos, na década de 60, alguém identificou uma tentativa de extermínio”, comenta um personagem.
 
A estrutura, no entanto, que permanece com mais força ao longo da história e da narrativa é a da dominação sobre as mulheres. Francisca, mais do que as outras, consegue, não sem muito esforço, uma certa ascensão social – ao contrário de todas as outras mulheres. “Por que matam mulheres em Pernambuco? Por que matam mulheres no mundo? Quem estabeleceu esse sacrifício?”, pergunta-se a narradora. Dora é um fantasma que persegue sua neta – mas, mais do que uma manifestação pessoal, é uma manifestação social, o retrato de mulheres quase sempre abandonadas pelos pais dos filhos que tentam levar uma vida digna à margem da margem.
 
Correia de Brito, que tem em sua bibliografia o potente Galileia, é um escritor que encontra poesia na dura aridez da vida do nordestino. Sua obra investiga as relações de classe na região, mostrando uma elite extremamente rica diante de uma vasta camada de pobres. Dora sem véu descortina os véus da herança escravocrata e colonial – o que já é um grande feito. 

“O animal cordial”: A hora da esfola

Por Alysson Oliveira em 07/08/2018
Há uma frase bastante famosa do crítico e professor Antonio Candido na qual ele comenta a tal cordialidade brasileira: “quando a Europa diz ‘mata’ o Brasil diz ‘esfola’”. Talvez a roteirista e diretora Gabriela Amaral Almeida não tivesse essa colocação em mente quando criou seu O animal cordial (talvez ela nem conheça a frase) mas é impossível não pensar como seu longa de estreia reverbera isso.
 
A premissa do filme é bastante simples e, por isso mesmo, repleta de possibilidades: restaurante de relativo luxo (mas em crise financeira) é tomado por uma dupla de ladrões pouco antes de fechar num dia de pouco movimento. A situação se torna ainda mais tensa quando se arma um jogo de disputa de pequenos e grandes poderes. A maneira como diretor arma seus personagens e a situação poderia facilmente cair numa caricatura de pessoas e da situação do Brasil contemporâneo, mas ela, segurando o longa com pulso firme, desvia de praticamente todas as armadilhas que arma para si e seu filme.
 
A primeira dessas armadilhas é um retrato de classe que O animal cordial desenha. Seus personagens poderiam ser única e exclusivamente representantes de estratos sociais. O dono Inácio (Murilo Benício) é a pequena burguesia com a corda no pescoço, mas mantendo a pose – espera que uma tal matéria que sairá numa revista trará mais movimento. Um casal (Jiddu Pinheiro e Camila Morgado) representa a elite, escolhendo vinho francês e prato chique, e esnobando a pronúncia da garçonete (Luciana Paes). Por fim, a esfera da esfola mesmo, além da garçonete, o chef (Irandhir Santos) e a sua dupla de ajudantes (Thais Aguiar e Eduardo Gomes). Por fim, um cliente misterioso (Ernani Moraes), que, a certa altura, representará o poder institucionalizado que fica, literalmente, de mãos atadas.
 
Se há tudo isso no filme, Gabriela não cai nos clichês fácies que cada uma dessas figuras poderia estampar – especialmente porque dota cada um de nuances, e o pior deles vêm à tona quando o restaurante é invadido pelos dois ladrões (Humberto Carrão e Diego Avelino). O que se sucede, então, são diferentes níveis e maneiras de opressão. A madame (Morgado) que é ridicularizada pelo namorado (Pinheiro) não pensa duas vezes antes de ridicularizar a garçonete, que também faz fofoca “das pessoas da cozinha” para o patrão, por quem parece ter uma paixão platônica. Aliança de classe seria uma saída para derrotar os bandidos – mas quem está disposto a ceder? Nem que seja o mínimo da dignidade que ainda resta. Ninguém – especialmente como confiar em alguém que já o hostilizou?
 
A dinâmica que se estabelece é a da negociação de poderes – e sempre pode mais quem tem uma arma na mão. Os ladrões tem, e o patrão também. A sedução também pode ser uma arma, mas o sexo, aqui, não tem nada de romântico ou biológico – é disputa de poder mesmo. A cena é impressionante e, obviamente propositalmente, desconfortável. O que se vê na tela é quase um ritual no qual alguém tenta tomar o poder do outro por vias físicas.
 
Até onde vai a cordialidade do brasileiro? Não muito longe, como bem sabemos. Todo mundo surta nesse filme, exceto o chef, que funciona como um centro de consciência onde tudo gravita. Ele tem consciência de classe e de gênero – talvez consciência até demais, por isso é, de certa forma, o personagem mais contido do filme. Cabe a ele dizer: “não faz isso”, tentando recobrar a razão dos personagens um a um. Ele não é o ponto mais forte do filme, e, nem sempre funciona, mas a interpretação do sempre-inspirado Irandhir Santos contorna boa parte dos problemas.
 
Premiada como curtametragista, a diretora não se acanha aqui com o uso do sangue. Mas o sangue que escorre e suja a quase tudo e todos em O animal cordial não é o mesmo, por exemplo, de, digamos, Pulp Fiction ou Jogos Mortais. Não tem nada de pop, é um sangue de uma cisão social de um país consumido por esta. É curioso que andem chamando o filme de terror, quando está mais para um drama ou mesmo uma comédia (de humor negro) satírica, na qual o objeto da sátira é o atual estado da sociedade brasileira. Só jorrando sangue pra resolver mesmo? Ou nem assim?
 
Visceral, como tantos outros adjetivos, é uma palavra que perdeu sua força. Tudo hoje é forte, visceral. Mas O animal cordial é visceral – se não de uma forma, de outra. Gabriela não tem pudores em mostrar entranhas sejam dos seres humanos, de animais ou da sociedade – sejam entranhas reais ou metafóricas.

Um filme chamado ‘Wanda’

Por Alysson Oliveira em 05/08/2018
O ano era 1970, a Segunda Onda do feminismo era, entre tantas coisas, uma luta contra a domesticidade da mulher. O Pessoal é politico, de Carol Hanish, havia sido publicado no ano anterior. Em Wanda, único longa que a atriz Barbara Loden escreveu e dirigiu, um cinema de guerrilha, e, ao mostrar a vida pessoal de uma mulher solitária e sem opções, é também relevantemente político.
 
Loden, que era uma atriz relativamente famosa na Broadway e em Hollywood, era casada com Elia Kazan, na época, e esteve no Clamor do Sexo, como a irmã o personagem de Warren Beatty. Mas ela estava cansada dos papeis de bombshell ou femme fatale, e queria interpretar uma mulher de verdade. A solução foi fazer o seu próprio filme. O resultado é um clássico feminista, que, ao lado de Jeanne Dielmann (feito alguns anos mais tarde) reina absoluto como o grande filme do gênero.
 
Wanda (Loden) é uma mulher solitária que vive num estado de depressão numa região mineira onde todos trabalham nas minas, sem qualquer outra opção. Ela é casada e tem dois filhos, mas não tem vontade de tirar os bobs do cabelo ou sair do sofá. Seu marido pede divórcio, ela aceita. Quando ele alega que ela é negligente com os filhos, ela não contesta; quando o juiz da a guarda das crianças ao marido, ela não faz nada.
 
Rodado em 16mm, com uma fotografia granulada de Nicholas T. Proferes, que também assina a montagem, mais do que um filme sobre a alienação involuntária de uma mulher no pós-Guerra, Wanda é um filme sobre uma pessoa que tenta se libertar das amarras que lhe foram impostas. Mas, como ela nunca teve qualquer experiência de vida, acaba se envolvendo com as pessoas erradas. Na verdade, “pessoas erradas” é uma questão de ponto de vista, pois para ela, o ladrão Norman Dennis (Michael Higgins) é qualquer coisa menos errado. Ela é incapaz de perceber o quão abusivo o sujeito é.
 
O cinema de Loden se aproxima do naturalismo de Cassavetes de Sombras e um registro desesperadamente contido de uma vida que se nulifica toda vez que tenta se libertar. É melancolia de ponta a ponta, representada com intensidade por Loden, tanto como diretora como quanto na frente da câmera. Marguerite Duras chamou o filme de “um milagre”, e disse perceber “uma continuidade distante e permanente entre Barbara Loden e Wanda”.
 
Wanda, apesar de premiado no Festival de Veneza de 1970, foi discretamente ignorado nos EUA – em no restante do mundo – mas acaba de ser relançado lá em cópia restaurada. No Brasil, está disponível em DVD da Lume Filmes. Não existem muitas menções ao filme ao longo dos quase 50 anos que se passaram. Rachel Kushner cita-o de maneira breve em seu romance The Flamethrowers [Os lança-chamas, no Brasil], mas isso é virtualmente tudo, embora, nos últimos anos o filme tenha começado a ganhar um reconhecimento.
 
Talvez, como diz o site da Criterion Films: “O público americano não estava preparado para Wanda, quando estreou.” Não é de se estranhar mesmo. O filme explora como o Sonho americano é negado sistematicamente às mulheres. Se ele é uma grande mentira, ao menos os homens, podiam a viver. As mulheres nem isso. O estudo de personagem que domina a primeira parte do filme – desde a Pensilvânia rural até a protagonista viver uma vida de pequenos roubos com Dennis (em que ela vê, algum propósito na vida – ao contrário de seu marido) – é cru e certeiro.
 
Ao final, Wanda questiona sobre as possibilidades que essa mulher tem ou teria em sua vida. A aventura com o ladrão, que culmina num desfecho sangrento, mudou sua vida? Existe alguma chance de transformação na vida dela? Ou estará fadada à Pensilvânia melancólica, barrenta e granulada onde sempre morou? Loden, sagazmente, não dá respostas, mas o olhar vazio de sua personagem numa imagem que persiste nos créditos finais abre possibilidades: um vazio que a tudo domina ou um vazio pronto para ser preenchido novamente?