Letras e fotogramas

Em Aquarius, as desilusões perdidas

Por Alysson Oliveira em 31/08/2016
O título AQUARIUS me remente a HAIR (vale lembrar que Sonia Braga esteve na montagem brasileira de 1969), o que me faz lembrar de ideais hippies, de uma utopia, do sonho de um mundo melhor. Acontece que, com nossa vantagem (rá! Palavra mais irônica) histórica sabemos no que o mundo se transformou. Por isso, o filme de Kleber Mendonça Filho é para mim, num primeiro momento, um filme sobre o fracasso das utopias, sobre o vácuo que se forma quando elas deixam de existir. Quando nem as desilusões são capazes de dar conta de um projeto, uma esperança para o futuro.
 
Como se sabe, a grosso modo, no filme a personagem de Sonia, Clara, se recusa a vender o seu apartamento no prédio Aquarius. Ela é a única que ainda resiste – todo o prédio está vazio, e ela também resiste ao delicado sorriso do jovem neto do construtor que quer comprar seu apartamento, interpretado com cinismo e sagacidade por Humberto Carrão, cujo personagem deixa claro “sou formado em business nos Estados Unidos”. Ele sabe o que é bom pra ela, pra nós, pro Brasil.
 
Num de seus ensaios mais famosos, chamado “Cultura e Política, 1964-1969”, Roberto Schwarz diz: “A coexistência do antigo e do novo é um fato geral (e sempre sugestivo) de todas as sociedades capitalistas e muitas outras também. Entretanto para países colonizados e depois subdesenvolvidos, ela é central e tem força de emblema.” Sei lá se o diretor, que também assina o roteiro, leu Schwarz (posso quase jurar que vi uma lombada de “Martinha versus Lucrécia” na estante de Clara), mas relendo e discutindo esse texto ontem pela milésima vez (e preciso ler mais umas mil), me ocorreu que o longa se vale dessa ideia para construir sua narrativa. A tensão, mais que explícita no filme, é entre o arcaico (o prédio antigo, a resistência de Clara, os vinis de que não abre mão) e o moderno (o jovenzinho empreendedor, os prédios espelhados e gigantes de Recife, a música em mp3).
 
Mas mais do que resistir, Clara quer o direito a viver sua desilusão, o direito de amarga o fracasso de uma geração, de um projeto de país. É o direito de viver no vácuo e sair dele quando e como bem entender. O emblema da disputa entre o arcaico e o novo é o emblema da disputa de narrativa que domina Clara. Sua filha sugere vender o apartamento – e a protagonista rebate “vocês cresceram aqui”. É o apego ao passado, é a nostalgia, é também uma leve desculpa de Clara para não ceder. Afinal, o apartamento é dela, ela vende se quiser. Vender ou não, aqui, é mais do que simplesmente vender ou não – é sinônimo de resistência, é sinônimo de tomar sua vida, duas decisões para si.
 
O filme é todo permeado pro fantasmagorias – como já havia em O Som ao Redor – sejam os apartamentos vazios, sejam os pesadelos de Clara. O teatro da experiência histórica, aqui, é assombrado por um projeto demolidor que passará por cima do prédio – mas retém algo do “arcaico” (o que nem sempre é ruim), a construção se chamará Novo Aquarius, seria melhor ainda se fosse Novum Aquarius (Rá!). Esses assombros que permeiam todo o filme ganham ares de realismo – o prédio tomado por evangélicos: realidade ou imaginação? – e questionam nossa consciência do presente.
 
O seu final – me lembrou algo de Erin Brokovich, aliás – reitera a tensão entre o arcaico e moderno. Tudo é corroído ou passível de o ser. Uma das últimas falas de Clara – uma das coisas mais bem sacadas do cinema nacional nos últimos anos – mostra que disputa não acabou, que nem a vitória nem a derrota estão dadas.