Letras e fotogramas

Sweetie, de Jane Campion: O lado selvagem do ser

Por Alysson Oliveira em 31/07/2017
 
As protagonistas dos longas de Jane Campion são mulheres vivendo em situações limítrofes que em algum momento irão se dissolver e as levar para “passear no lado selvagem”, para citar Lou Reed. O que varia é a intensidade da selvageria de cada um e aquela que elas irão enfrentar, mas, em algum momento, a família burguesa não será mais capaz de conter tudo aquilo que essas mulheres acumularam por anos – seja de frustrações, sufocamentos, sublimações.
 
SWEETIE, segundo longa da diretora (e primeiro dela a ser lançado em cinema), talvez seja o mais radical nesse quesito do passeio pelo lado selvagem. As protagonistas são uma dupla de irmãs vivendo uma relação conturbada de amor e ódio. Kay (Karen Colston) consulta uma vidente que diz que o amor de sua vida trará uma interrogação no seu rosto. Pouco depois vê Louis (Tom Lycos), em cujo rosto um cacho de cabelo forma uma ponto de interrogação com a pinta que tem acima da sobrancelha. O amor chegou para ela!
 
Junto do amor retorna também sua irmã Dawn (Geneviève Lemon) – também conhecida como Sweetie. O primeiro contato entre as duas acontece quando Kay encontra sua casa invadida, e dentro dela, em sua cama, sua irmã e o produtor musical/namorado dela. Sweetie é uma aspirante a cantora e atriz.
 
A tensão entre as duas – que parece algo antigo e que nunca será capaz de ser resolvido – só acirra, e o pai (Jon Darling) delas vem para tentar uma saída para tanto problemas. Mas a disputa se acirra, e uma vive para infernizar a outra. Cada um tem os seus problemas, mas todos parecem convergir a Sweetie, que se comporta como uma criança grande tão vulnerável quanto insensata.
 
Campion, que assina o roteiro com Gerard Lee, tem um olhar carinhoso para cada uma das pessoas-problemas desse filme. Sem fazer julgamento, apenas acompanha a derrocada da falsa serenidade dessas vidas conturbadas pela (re)entrada de Sweetie. Há uma certa selvageria também na maneira de filmar, que não se contenta com enquadramentos convencionais, e das imagens estranhas nasce um reenquadramento das próprias personagens.
 
A dinâmica familiar nunca é suave, é sempre aos trancos e barrancos porque tudo irradia de Sweetie, e não teria como ser de outra forma. O lado selvagem dessa protagonista explode na reta final do longa. É um momento repleto de rebeldia, mas também melancolia. É um instinto selvagem de sobrevivência que jamais poderá ser domado.

Two Friends, de Jane Campion

Por Alysson Oliveira em 24/07/2017
O primeiro filme de Jane Campion, TWO FRIENDS (1986), poderia ser classificado como um cruzamento entre Sofia Coppola e Mike Leigh. Da primeira, as dores do crescimento, jovens moças enfrentando experiências que as amadurecerão. Do inglês, a textura social de uma classe média baixa e trabalhadora. Feito para televisão australiana, mas lançado em cinema na década de 90, depois de o sucesso de O Piano, o longa traz em si os temas e ansiedads que permearão a obra da cineasta.

Campion trabalha com um roteiro original da grande escritora australiana Helen Garner, que, na década de 1970, foi professora numa escola secundária e demitida depois de responder aos alunos suas perguntas sobre sexualidade. Possível dessa experiência com jovens, a autora tirou o material para esse drama que tem ao centro a dissolução da amizade de duas adolescentes, que mudarão de escola.

Kelly (Kris Bidenko) e Louise (Emma Coles) moram no subúrbio de Sidney, e são amigas desde sempre. Estudam na mesma escola, saem juntas para paquerar, passam a noite uma na casa da outra. Agora, se preparam para entrar numa prestigiosa escola, na qual as aulas usam uniformes e participam de um coral madrigal. O padrasto de uma delas, no entanto, proíbe a menina de se matricular: “essas garotas estão na idade de estudar rock and roll, não madrigais”, decreta ele, tachando, não sem razão, a escola de elitista. O mundo das meninas desaba.

A entrada ao mundo adulto na obra de Campion é doloroso para as mulheres, e isso não acontece necessariamente na adolescência, pode ser tardio – e hoje, podemos (re)colocar Two Friends em perspectiva. A menina de O Piano, que é a tradutora da mãe, Isabel Archer, em Retrato de uma mulher; a garota envolvida com um culto religioso, em Fogo Sagrado; a professora na mira de um assassino, em Em Carne Viva; e, por fim, a jovem apaixonada pelo poeta moribundo, em Brilho de uma paixão. Em diferentes épocas e contextos, as personagens de Campion precisam lidar com um mundo que limita suas escolhas, mas não sua  percepção dele. É daí que nasce a rebeldia – nem sempre compreendida.

Two Friends trabalha o tempo de maneira fragmentada. Primeiro vemos que a amizade irá terminar, mas, só depois como e porquê. Nesse sentido, o filme termina com uma nota de otimismo momentâneo. Como se dissesse “um problema de cada vez”. E talvez esse mesmo seja o mantra das heroínas da diretora.

"Um Pai de Cinema": Vivendo por inércia

Por Alysson Oliveira em 21/07/2017
 “Eu quero ser protagonista de minha própria vida”, diz uma personagem num momento climático do romance – na verdade está mais para um conto longo ou novela – UM PAI DE CINEMA, do chileno Antonio Skármeta (Trad. Luís Carlos Cabral), e que Selton Mello acaba de adaptar para o cinema. A frase dela, no entanto, resume bem o sentimento de todas as figuras que transitam pelas páginas do livro – especialmente o narrador-“protagonista” Jacques, um jovem professor numa pequena aldeia frustrado com absolutamente tudo em sua vida.
 
Todos na trama são de certa forma coadjuvantes em busca de um protagonista ou protagonismo deles mesmos que nunca aparece, por isso transitam de um lado para o outro, vivem praticamente por inércia. Jacques se formou na capital como professor, e no mesmo trem que volta para casa, seu pai vai embora para e pretende voltar para sua terra natal, a França. A vida do rapaz, sem muitos alicerces, desmorona. Nada o agrada, os alunos o desanimam; a sua virgindade o consome; e o lugar onde mora o sufoca. Mas ainda assim, ele praticamente não tem iniciativa para mudar nada disso.
 
Acompanhamos seu cotidiano em capítulos curtos e uma prosa direta e poética. Sabemos bastante sobre esse jovem, mas muito pouco sobre as outras pessoas, e tudo vem filtrado pelo seu olhar, o que se transforma na maior contenção da narrativa. Talvez seja a visão de macho latino inconsciente ou propositadamente (o que faria do livro algo sintomático) trazida à tona pelo escritor, mas os personagens são quase destituídos de nuance. Todas as mulheres são ou tolas ou mesquinhas (a algumas o narrador guarda algo ainda pior), enquanto todos os homens (ah, esses coitados sofredores!) são mártires e heróis, pois mais discutível que seja o comportamento deles em algum momento.
 
Skármeta sabe como criar um sentido de comunidade, e paisagens fortes, especialmente com o cenário ditando o comportamento e atitudes de seus personagens. “Moro perto do moinho. Às vezes o vento cobre meu rosto de farinha”, diz o narrador logo no primeiro parágrafo. Imagens como essa se repetem, seduzem, e correm o risco de alienar o leitor encobrindo (ou invertendo) a dinâmica de dominação e sufocamento que está realmente acontecendo.

De canção em canção: Na forma da música

Por Alysson Oliveira em 19/07/2017
 
 
“A forma de uma obra se transformou no conteúdo;
e o que consumimos em tais obras é a própria forma.”
“The Aesthetics of Singularity”, Fredric Jameson, 2015
 
 
No Planeta Terrence Malick, os meteoritos que caem nunca são os mesmos, mas são compostos da mesma matéria, o nosso presente. Se nosso tempo é caótico, fragmentado e incapaz de ser historicizado, não se deve exigir uma narrativa ao modo clássico que um investigador do presente. A forma de seus filmes se tornarão cada vez mais etérea, menos palpável, mais estilhaçada.
 
Em DE CANÇÃO EM CANÇÃO, Malick está um tom abaixo da ambição de CAVALEIRO DE COPAS – lá era o estilhaçamento completo da atualidade, era uma timeline de Facebook, na qual as peças não se juntam, mas tentam dar a dimensão da totalidade (clique aqui para ler mais). Aqui, a tentativa de mapeamento é mais organizada comparativamente – o que não quer dizer que também não seja uma tentativa vã, simplesmente porque historicamente é impossível.
 
A singularidade do presente, a expressão jamesoniana, que pousa no filme de Malick são as performances musicais – cada uma é única. Cada show é um só, mas, ao mesmo tempo, é igual a todos os outros que o artista já fez. O tempo é o presente, é o tempo de uma performance, e os artistas e suas obras são mercadorias a serem consumidas. No mundo de hoje, aliás, quem não é uma mercadoria a ser consumida?
 
Do quarteto de personagens centrais desse filme, apenas Cook (Michael Fassbender), um magnata da música, parece ter consciência disso. Ou talvez, ele nem a tenha, mas, ainda assim, é capaz de ganhar dinheiro com a música. Seu embate é com as visões mais românticas da arte – do compositor BV (Ryan Gosling) e da aspirante a compositora Faye (Rooney Mara). O último vértice é a garçonete Rhonda (Natalie Portman), que não está diretamente ligada à música.
 
Parte do filme foi rodada em 2012, no festival Austin City Limits, o que ajuda a conferir a tal da “singularidade” do filme. Na volatilidade do presente, numa apresentação musical, talvez mais do que em qualquer outra manifestação artística (possivelmente numa instalação também), o que conta a experiência do show, mais do que o show em si – daí a câmera quase etérea de Malick (a direção de fotografia é, novamente, assinada por Emmanuel Lubezki) que não consegue parar de se mover, criando algo fantasmagórico e também fluido.
 
Essa mesma fluidez materializa a fluidez do capital no cenário musical do Texas – metonímia do presente –, onde estão os personagens. A música se torna o mediador cifrado das relações fazendo as vezes do dinheiro. A única pessoa ciente disso é Cook, uma figura mefistotélica que parece usar Faye para sua diversão. BV, por outro lado, está perdido numa espécie de visão romântica da arte – em contraposição a algo mais mundano e pragmático do rival, que tenta, a todo custo, a o trazer para o mundo real.
 
Se as relações humanas são mediadas pela música, a incapacidade de boa parte dos personagens lidar com esse mediador, condena suas tentativas de aproximação ao fracasso, por mais que eles se esforcem. A deformação emocional dessas pessoas encontra ressonância na tela do cinema quando closes são feitos com uma grande angular, criando outra espécie de fantasmagoria.
 
Poucos investigam o presente de forma tão incisiva com Malick. Seus filmes recentes, por mais falhas que possam ter, depuram na forma a essência do nosso presente – retalhado, incapaz de ligar pontos, incapaz de ordenar a história. O que chega até nós são os fragmentos dos meteoritos – ou seja, pedaços dos pedaços. O que conta, novamente, é mais a experiência do filme do que o filme em si.

A perda da inocência

Por Alysson Oliveira em 03/07/2017


¿Quién puede matar a un niño?, pergunta o título original de OS MENINOS, do espanhol Narciso Ibáñez Serrador, e o filme não enrola para dar a resposta. O longa começa com imagens de arquivos históricos de momentos como holocausto nazista, guerra indo-paquistanês, guerra do Vietnã etc, e estampando a tela com o número de crianças mortas em cada um desses eventos. São imagens em preto e branco devastadoras, enquanto, ao fundo, um desafinado coral de crianças canta uma cantiga ingênua que, se não é a canção de ninar de O Bebê de Rosemary, é bem parecida.

Ibáñez Serrador, adaptando o romance de Juan José Plans, cria um conto gótico solar (olha o paradoxo!) numa ilha ibérica onde as crianças mataram praticamente todos os adultos. Do que se trata? Vingança de classe? Anos de descaso e opressão com a vida infantil criou uma espécie de consciência de classe neles que se uniram para revidar e salvar suas vidas? Um casal de ingleses – Tom (Lewis Fiander) e Evelyn (Prunella Ransome, que, em certa medida, lembra Mia Farrow – vai visitar a ilha, onde ele morou por algum tempo anos atrás. Eles encontram um cenário desolador – mas nem se dão conta disso, acham que todo mundo está do outro lado da ilha, em alguma fiesta. ¡Santa ingenuidad!

O calor é constante e opressor, mas logo encontram refúgio, num bar onde a assadeira giratória de frango está ligada e rodando há tempos, e os frangos torrados. O que está acontecendo nessa ilha? O que acontece quando o ícone da ingenuidade perde a sua inocência? O filme sagazmente poupa de mostrar o que e como aconteceu. Quando chegamos à ilha, com os ingleses, a matança já está acontecendo.

O filme, lançado num DVD com imagem excelente pela Versátil – no pack de Terror 3 -, é, obviamente, desconfortável – e não teria como ser diferente, sendo tão explícito como é. Talvez por isso não seja tão conhecido. Crianças com armas, crianças ao lado de um mulher morta e nua, crianças matando... não é o tipo de tema que costuma passar na televisão. O desconforto é ainda maior porque não há nenhuma “desculpa” sobrenatural – como uma possessão demoníaca – para explicar o comportamento dos niños e niñas. A violência e maldade são mostradas da forma mais naturalista possível.

Lançado em meados dos anos de 1970, Os Meninos é um questionamento sobre a erupção da violência. E também sobre a inerência do mal – trazendo aquele velho questionamento o ser humano pode nascer “do bem ou mal” ou a sociedade o corrompe? Dado o prólogo do filme, a história terá um papel fundamental para moldar essa subjetividade. Ibáñez Serrador não divide as pessoas em exclusivamente boas ou más, porém destaca as nuances que se esmaecem diante de momentos de horror histórico/social.