Letras e fotogramas

Altos e baixos de um romance colombiano

Por Alysson Oliveira em 28/07/2016
Ainda na primeira parte de AS REPUTAÇÕES, do colombiano Juan Gabriel Vasquez, nos é contado que seu protagonista Javier Mallarino, um famoso cartunista, certa vez não tinha nenhuma ideia para uma caricatura, então desenhou-se a si mesmo com uma lâmpada apagada, e o desenho saiu no jornal como de costume. Naquela mesma noite, houve um apagão num bairro pobre e periférico de Bogotá – e muita gente interpretou a ilustração como uma crítica ao governo, parabenizando o desenhista. Ele nunca desmentiu a história. Essa pequena anedota, engraçadinha e tudo mais, começa a dar a devida dimensão do oportunismo e leve mal-caratismo do personagem.
 
O livro começa com Mallarino já no auge de sua carreira, recebendo uma homenagem – ele, um homem avesso a esse tipo de coisas, e sério crítico dos políticos – e se sentindo lisonjeado. Quando, pouco depois, é procurado por uma jovem, entra numa crise por conta de um episódio de seu passado.
 
Vasquez sabe criar tensão, especialmente no incidente que catalisa a trama: um suposto abuso sexual de uma criança evolvendo um político na casa do próprio desenhista. O autor arma bem, cria tensão, e deixa a dúvida. Mas é de se perguntar a que preço. Tudo serve apenas para iniciar uma crise tola no protagonista, um sujeito egocêntrico e um tanto irritante. A vítima é mera coadjuvante – rasa e mal resolvida enquanto personagem – em todo o romance, aliás, como todas as demais personagens femininas. Sem qualquer nuance ou razão de existir.
 
É difícil imaginar um cartunista com tanto poder e prestígio – a ponto de influenciar pesadamente em decisões políticas, e até ser reconhecido na rua – mas, vá lá, aceita-se isso para que possa haver uma trama. Quando a garota – agora uma mulher formada, que não se lembra do episódio – reaparece na vida de Mallarino, ele a ajuda apenas para aliviar seu próprio sentimento de culpa.
 
O romance começa de forma promissora, fica dúbio com o evento central, e, perde de vez o prumo por não saber lidar direito com a trama do abuso. Fica a promessa de um grande romance, resultado em algo mediano, escrito por um autor de talento.

50 anos de Vale das Bonecas: é possível ser campy, kitschy e relevante

Por Alysson Oliveira em 22/07/2016
Qual a vantagem de se escalar o Everest para encontrar o Vale das Bonecas? A escalada é “brutal para se atingir um pico/ que muito poucos já viram. [...] Você fica lá, aguardando/ o jorro de alegria/ que esperava sentir... mas/ ele não vem. [...] Você está só, e/ a sensação de solidão é esmagadora”. Assim Jacqueline Susann descreve o Vale das Bonecas em seu romance hoje cult/camp/clássico-pop que completa 50 anos em 2016.
 
O livro, que já vendeu mais de 30 milhões de cópia e rendeu um filme de sucesso em 1967, mostrou ao mundo o que é transformar um autor em marca. Se hoje há quem aguarde o novo romance de Stephen King, Philip Roth, Don DeLillo, J. K. Rowling, Paulo Coelho, ou qualquer outro autor cujo nome virou uma marca, é graças ao trabalho de marketing que Susann fez nos anos de 1960 – foi ela quem criou o escritor como empreendedor, um termo que a grande literatura certamente rejeita. O que é uma bobagem, afinal, “culture is ordinary”.
 
Execrado por gente de nome na época – Gore Vidal disse que Jacqueline Susann não escrevia datilografava (será que diria isso de um escritor do sexo masculino?) – VALLEY OF THE DOLLS foi ao encontro dos anseios de boa parte dos leitores e talvez especialmente leitoras a espera de uma literatura que materializasse os anseios dos vertiginosos anos de 1960. Um texto da New Yorker, citado na capa nacional da edição da Record (Trad. Domingos Demasi), diz que a autora “compreendia por instinto que seus leitores estavam prontos para o LADO CRU DO AMOR, para uma sexualidade mais aberta e um tipo de história mais duro. Para um romance com lágrimas e sexo oral”.
 
As bonecas do título são os remédios em que o trio de protagonistas – Jennifer, Anne e Neely – , que busca sucesso no showbiz, e, no caminho, se vicia. Simbolicamente essas drogas são as bonecas as quais as meninas não conseguem largar, seus brinquedos preferidos. Essa alusão encerra em si – talvez nem fosse uma crítica consciente de Susann – um dos elementos da sociedade patriarcal em que as personagens estavam inseridas, num momento que se buscavam mudanças drásticas.
 
A pílula contraceptiva foi aprovada nos EUA em 1965 – apenas, incialmente, para as mulheres casadas; para as solteiras apenas em 1972. Esse ato é finalmente o momento em que a mulher se tornou dona de seu corpo. No romance, as pílulas (de todos os tipos) são a chance das personagens irem para outro mundo – distante das determinações masculinas que as cercavam e ditavam as regras.
 
Talvez O Vale das Bonecas deve ser lido mais como o documento de uma época do que como literatura – embora seja extremamente viciante e rápida a sua leitura, como todo best-seller. Por mais que suas protagonistas sonhem em superar seu destino de dona-de-casa, elas são adultas infantilizadas (daí as bonecas).
 
É exagero, muito mesmo, chamar Susann de feminista, mas existe um quê de feminismo, mesmo que inconsciente, em seu romance na medida em que escancara uma cultura na qual o corpo feminino é moeda de troca (a principal que as personagens podem usar para subir na vida).O destino cruel das protagonistas é um aviso, é também, mais uma vez, a explicitação de que a mulher ambiciosa deve (ainda é) punida por sua ambição.
 
Nora Ephron disse que “bons escritores de kitschy nascem, não são feitos. E quanto Jacqueline Susann se senta em frente à sua máquina de escrever em Central Park South, o que sai é kitsch de primeira grandeza”
 (https://www.nytimes.com/books/98/01/04/home/susann-machine.html). E é essa vibe que o filme (https://www.youtube.com/watch?v=dsR5PYTLYBY) de Mark Robson – protagonizado por Barbara Parkins, Patty Duke e Sharon Tate – tão bem traduz. O diretor não teve medo do kitsch e, principalmente, do camp, fazendo uma cena de briga no banheiro feminino (https://www.youtube.com/watch?v=WfyhaXlKNts) que inspira Gilberto Braga até hoje.