Letras e fotogramas

Com armas sonolentas, romance de Carola Saavedra

Por Alysson Oliveira em 28/06/2018
O quinto romance de Carola Saavedra começa de forma assertiva: “Sempre lhe pareceu que havia uma dissonância entre o que deseja e o que realmente queria.” Isso se refere a uma das protagonistas do livro, a atriz Anna Marianni, mas poderia ser a qualquer figura que habita Com armas sonolentas. As personagens (e a maioria são mulheres) estão presas numa fissura entre o que desejam de verdade e o que querem (o que talvez seja melhor para elas). Conseguir o que quer pode, paradoxalmente, não ser algo bom.
 
As pessoas dizem para Anna que ela é talentosa, mas falta-lhe sorte. Trabalha numa loja chique de roupas, faz pequenas participações em peças pequenas, e até uma ponta num filme (“a próxima Cacilda Becker”, diz seu agente e amigo). A sorte lhe sorri quando consegue entrar numa festa elegante de um festival de cinema no Rio, e conhece um cineasta alemão, com quem, pouco tempo depois está se casando e mudando apara a Alemanha, apesar de desconhecer o idioma. Na Europa, as frustrações se acumulam, até que uma maternidade inesperada é a gota d’água para a vida de Anna desabar.
 
Maternidade é o tema que atravessa a narrativa, e une as personagens num fio delicado de encontros e desencontros. A segunda parte é narrada do por Maike, jovem alemã, que no primeiro dia de faculdade decide repentinamente que irá estudar português. Ela não é feliz em sua vida burguesa, repleta de conforto e amor (um tanto frio e metódico) dos pais. A terceira personagem-central não tem nome, é uma moça de 14 anos que é mandada para o Rio de Janeiro pela mãe para ser empregada de uma família de classe-média em Copacabana.
 
Na medida em que as tramas avançam, não é muito difícil perceber o que unem essas mulheres. O suspense não é o propósito aqui, mas o que interessa a Saavedra é a investigação da causalidade e casualidade que aproximam e afastam as pessoas. Conforme o livro progride também, um forte elemento místico começa vir à tona. Nada soa gratuito, e dentro da lógica interna, tudo faz sentido. Alguns momentos, mais perto do final, lembram David Lynch. É preciso embarcar no delírio de Com armas sonolentas. Mas vale o esforço.
 
Na obra da escritora, o não pertencimento e laços inesperados são recorrentes. Desde seu romance de estreia, Toda Terça, até chegar aqui – que traz uma autora com maturidade e sofisticação. Outra elemento importante na obra de Saavedra: o registro como composição de uma memória. Mas, esta, é claro, é uma narrativa, e como tal é uma construção – seja consciente ou inconscientemente, escolhas são feitas, e coisas (às vezes importantes) são deixadas de fora. Aqui, um personagem compõe um livro – na verdade reescreve um outro que encontro. É um lance sutil de metaficção que não deixa passar batido o sobrenome que a escritora compartilha com Miguel de Cervantes (Saavedra).
 
Se há estranhamentos lynchianos, porém, uma outra força cinematográfica é muito mais presente aqui, para mim. Trata-se de Pedro Almodóvar – não o Almodóvar dos anos 80 e 90, louco, colorido, cínico; mas o Almodóvar dos últimos filmes, melancólico e profundo esmiuçando relações entre mães e filhas (penso mesmo em Volver e Julieta). Saavedra pergunta qual o papel da mulher no presente – na verdade, em diversos presentes. E nessa investigação a classe social e a raça são fatores que pesam. Isso resulta numa obra de profundo questionamento sobre o presente e os avanços e conquista das mulheres nas últimas décadas.
 
O título ver de um verso da sor Juana Inês de la Cruz, religiosa e poeta mexicano-espanhola, também considerada uma das primeiras feministas do continente. O verso “com as armas sonolentas” (do poema “Primeiro sueño”, de 1692) parece traduzir uma ideia de despertar, de um momento de início de luta – as armas ainda estão sonolentas, mas a guerra só está começando. E esse pode ser o destino das personagens aqui: lutar suas próprias guerras - mesmo que não desejem, nem queiram. Não há escapatória. 

Romance "Nix" investiga passado e presente dos EUA

Por Alysson Oliveira em 01/06/2018

Não é preciso muito das quase 700 páginas de Nix, do estreante Nathan Hill, para perceber que se trata de um grande romance – não só pela quantidade de páginas. Há de tudo entre uma capa e outra – desde protestos políticos (fortes e outros tolos), vício em realidade virtual, mercado editorial até chegar em consumismo. É claro que entre uma coisa e outra o autor joga umas obviedades, mas ele faz isso com tanta graça e humor que é difícil não fingir que é novidade.

Nix são, segundo o romance, no folclore Nórdico espíritos que tomam formas distintas e perseguem pessoas por toda a vida. Também são qualquer coisa que você tenha amado e um dia desaparece partindo seu coração. Há os dois tipos na narrativa – ao menos imaginados pelos personagens.

O livro começa com um pequeno incidente que ganha grandes proporções. Uma senhora, veterana dos anos de 1960 (como saberemos depois), joga uma bola de papel na cabeça de um governador, e candidato a candidato à presidência dos EUA. O gesto – talvez pessoal – ganha tons políticos e um grande processo é instaurado, e seu passado destrocado na mídia: ex-hippie, presa por prostituição, e mãe que abandonou o filho em 1988. Este agora é um professor universitário frustrado, que passa horas jogando na internet, e tem mais amigos virtuais do que reais. No trabalho enfrenta a perseguição de uma aluna, que tenta reverter o caso quando ela é acusada de plágio, acusando o professor de abuso emocional.

Hill tem a habilidade de construir dois momentos históricos com tintas precisas, e fazer um trajeto de como os ideias dos anos de 1960 se transformaram nisso em que vivemos. Seu percurso é seguro, carregado na ideia do pop, mas extremamente político – especialmente quando evoca os protestos de Chicago daquela época (também presentes no them, de Joyce Carol Oates, entre outros). Nesse sentindo, The Hill é um romance histórico, sobre a história já concluída (o passado) e aquela que está acontecendo (o presente). O presente é o de 2011, do Occupy Wall Street (há uma cena excelentemente cômica envolvendo um protesto).

Quando Faye reaparece na vida de seu filho, Samuel Andresen-Anderson, ele não há vê há mais de duas décadas, e está sendo cobrado por seu editor por um romance, pelo qual foi pago (comprou uma casa com dinheiro), e até hoje não entregou o livro. Para não perder todo o pouco que tem, ele aceita fazer uma biografia da mãe (o editor avisa, só precisa escrever ¼ o restante já está pronto por uma equipe de ghostwriters, e deverá ser lançado antes da campanha presidencial, para ajudar ao governador), na qual deverá expor toda a “verdade” sobre sua mãe – em outras palavras, destruí-la, porque nada vende mais do que lavagem de roupa suja.

The Nix dá tempo o suficiente para construir o presente e os passados (a infância de Samuel e a juventude de Faye) , e também seus personagens – desde a dupla de mãe e filho, até coadjuvantes, como o colega de Samuel viciado em um jogo virtual que há tempos não sai de casa, e isso tem um desenrolar catastrófico e cômico quando ele decide parar.

A contraposição entre dois momentos do passado (final dos anos de 1960 e dos anos de 1980 e presente) acompanha o movimento da história e a forma como essa interfere na vida das personagens e as molda. Hill desponta como um escritor a se prestar atenção dono de um talento ímpar, e para quem sempre está a procura do Grande Romance Americano, Nix é mais um forte candidato.