Letras e fotogramas

sexo, mentira e sulfite a4

Por Alysson Oliveira em 23/06/2017
A série da Amazon I LOVE DICK é baseada no livro homônimo de Chris Kraus (clique aqui para ler mais), e é basicamente tudo aquilo que uma obra de audiovisual baseada em uma outra literária gostaria de ser. As criadoras do seriado, Sarah Gubbins e Jill Soloway, fazem exatamente aquilo que deve, ou deveria, ser feito: leram o livro, apreenderam sua essência, jogaram-no fora, e fizeram sua própria obra. Algo raro, que poucos sabem fazer (Coppola com sua adaptação de Heart of Darkness, que resultou em Apocalypse Now é dos exemplos mais bem-sucedido). O resultado é algo reverente mas completamente novo.
 
A trama original, basicamente, é sobre a paixão e o desejo obsessivos da autora Chris Kraus sobre Dick, um professor amigo de seu marido, Sylvere. O casal, então, passa a escrever cartas para esse sujeito. Basicamente é isso, mas é bem mais do que isso, porque há também uma discussão sobre arte, sobre filosofia e teoria crítica, além do papel da mulher nisso tudo. As criadoras da série mantém esse ponto de partida e as discussões centrais, mas além de trazer para o presente – distante do longínquo 1994 – cria uma gama de novas personagens, que ampliam as possibilidades e tornam a trama menos claustrofóbica do que centrada apenas no trio de protagonistas.
 
Chris, uma cineasta experimental, é interpretada por Kathryn Hahn, uma grande atriz que até agora só havia feito papeis coadjuvantes, mas mostra sagacidade e sensibilidade ao criar uma personagem complexa, que transita entre o desejo, a obsessão, a culpa e a autodescoberta. Seu marido (Griffin Dunne) e o próprio Dick (Kevin Bacon) são pálidos diante dela - personagens menos interessantes, mas isso não chega a ser um problema, porque as demais figuras femininas, que complementam a trama, são ótimas. Depois de conhecer Dick, Chris fica obcecada por ele, e começa a escrever cartas no computador e as imprimir. Seu marido, eventualmente, também faz isso. É um jogo, mas também pode ser um projeto artístico, ou só uma forma de passar o tempo ou sublimar o desejo.
 
Algumas das melhores cenas pertencem a Roberta Colindrez, no papel de Devon, uma espécie de faz-tudo da faculdade, que cuida da casa e conforto dos professores visitantes, e também aspirante a artista. Outras cenas ótimas são de India Menuez, como Toby, PhD em história da arte, que estuda a representação do corpo da mulher – bem, sua tese de doutorado tem a ver com sexo anal em filmes pornográficos, e sua exposição rende um dos melhores momentos de toda a série.
 
A questão central, e I Love Dick deixa isso claro logo de cara, seria algo como: quem define o que é arte? A resposta: homens brancos heterossexuais de meia-idade. Nesse sentido, Dick é o protótipo do definidor de arte, e há uma cena muito reveladora, quando Chris quer mostrar seu filme para ele, o sujeito mal assiste a poucos minutos, e diz que aquilo não lhe interessa. Ali, ao lado deles, há uma obra dele (ele artista plástico e professor): um mero tijolo. Nada mais do que isso.
 
Ao todo, são oito episódios (todos disponíveis), e a direção é assinada pela própria Soloway, Andrea Arnold, Kimberly Peirce e Jim Frohna (que também assina a fotografia). Pierce (com 1 ep) e Arnold (com 4 ep) são responsáveis pelos melhores capítulos do programa, elas fundem humor, discussão de política de gênero, alta/baixa cultura, filosofia e teoria crítica. É uma combinação inusitada, que, falando assim, soa pretenciosa, mas não é – pelo contrário, são discussões bem francas. Há um momento, por exemplo, pouco depois de ser esnobada por Dick, Chris comenta sobre sua frustração em relação à obra cinematográfica de Maya Deren: “Ela é supostamente a cineasta mais importante de todos os tempos”, diz a Devon, “e, para ser sincera, ela é muito chata. Impenetrável. Não tem como entrar, e eu tenho vontade de arrancar meus olhos... Eu gosto de Spielberg”. [Nota minha: Não há problema em gostar ou desgostar de nenhum dos dois].
 
Que discussão! Especialmente porque, pouco antes, ao falar de cineastas femininas importantes, ela citou para Dick, Sally Potter, Jane Campion e Chantal Akerman. O que está em disputa aqui – e a série está muito consciente disso – é da construção de um cânone. Quem diz o que pode entrar ou não são os mesmos homens brancos que definem o que é arte – até quando esse cânone (que começa a se fortalecer) tem a ver com cineastas femininas e/ou feministas. Há vários momentos que se pautam por esse debate, e, dessa forma, o resultado é sempre instigante, mas também ácido – especialmente na investigação dos impulsos artísticos e do desejo que movem uma mulher contemporânea.

A deusa das pequenas e grandes coisas

Por Alysson Oliveira em 22/06/2017
“Como contar uma história estilhaçada? Lentamente se tornando todo mundo. Não. Lentamente se tornando tudo”, lê, em um diário, um personagem de THE MINISTRY OF UTMOST HAPPINESS (no Brasil, O Ministério da Felicidade Absoluta, a ser lançado na próxima semana). Em seu segundo romance (que foi gestado em 20 anos), a indiana Arundhati Roy segue essa proposição, para contar uma trama fragmentada que vai e volta o tempo e espaço e dá conta de forma poética e incisiva do presente da Índia – e, por tabela, do mundo contemporâneo.
 
O resultado é uma sinfonia caótica de pequenos pedacinhos que montam uma constelação de tramas e personagens de forma abrangente, peculiar e sagaz. Possivelmente, nem há um protagonista aqui, mas uma personagem se destaca logo no início. Ela é Anjum, uma Hijra, pessoas transgêneras e intersexuais cujo destino é dar prazer aos outros sem receber nada em troca. Anjum, cuja vida começou com Aftab, um garoto desejado e amado pelos pais, com 40 e poucos anos vai viver num cemitério, “como uma árvore”, se define, distante do Khwabgah, onde vivem as outras hijras, conhecidas como o 3o gênero, donas de um papel importante – apesar de ainda marginalizadas – na cultura indiana. Porém, sua morada no cemitério não dura muito, até que ela constrói uma pequena casa ao lado, e, aos poucos novos cômodos, e recebe pessoas excluídas e renegadas, por um aluguel baixo. O local ganha o nome de Jannat (paraíso), e sua posição dentro da narrativa acaba fornecendo o título ao romance.
 
Outra personagem feminina, o outro polo da trama, é a ilustradora Tilo, que, em Kashmir (Caxemira), reencontra um antigo amante, Musa, que perdeu a mulher e a filha numa rebelião perdeu a mulher e a filha pequena. Na região, ao norte do subcontinente, divida entre Índia e Paquistão, é palco de constantes conflitos desde o fim da ocupação britânica. Em seu segmento dentro do romance, Tilo irá se deparar com os horrores da ocupação indiana, especialmente as atrocidades do exército.
 
O primeiro romance da autora, The God of The Small Things, rendeu-lhe o Booker Prize, em 1997, e acusação de obscenidade no estado onde ela nasceu, Kerala, além da reputação como uma romancista séria, entre outras coisas. O livro lidou de forma franca com sexualidade e política – muitas vezes, interconectando os temas. Seu estilo beira uma espécie de selvageria meditada, com idas e vindas no tempo, e personagens marcantes.
 
The ministry of utmost happiness não é muito diferente nesse sentido, mas, de certa forma, parece mais visceral, menos ponderado em sua forma do que o anterior. Seu retrato de duas décadas de história da Índia parece menos amarrados, mais solto, e mais direto quando se trata de abordar a política no país. Ao recusar uma narrativa clássica, sequencial, a autora parece buscar ciclos de violência e desejo que se formam de maneira não linear, e devastam a vida de pessoas em determinados períodos, com altos e baixos.
 
Ao contrário de The God of the small things, The ministry of utmost happiness não é um romance que seduz rápida e facilmente, é um livro que pede atenção, concentração e manda seguir em frente mesmo quando alguma coisa não faça muito sentido. A parte político-histórica, para quem não está familiarizado com o tema em relação à Índia, é bastante árdua e, às vezes, quase desanimadora, mas Roy tem diversas recompensas para quem não abandonar o livro. O seu panorama de hijras, mulheres e homens é vasto e a investigação da alma humana recompensadora.
 
O transito entre pequenas tramas pessoais e grandes movimentos históricos ajuda na compreensão de um todo – porque as duas coisas estão conectadas, e disso suas personagens jamais poderão escapar, como bem diz uma hijra a Anjum: “Os motins estão dentro de nós. A guerra está dentro de nós. Indo-Paquistanês está dentro de nós. Isso nunca vai se acalmar. Não pode”. Como boa investigadora de seres humanos e seus desejos e conflitos, Roy sabe somos frutos de um espaço e um tempo, e disso, não temos como fugir.

Laços de afeto manchados de sangue

Por Alysson Oliveira em 21/06/2017
A coletânea de contos TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA, de Marco Severo, não perde tempo em dizer a que veio, e logo na primeira história, “Selvagem”, em cerca de 4 páginas, o tom será estabelecido, algo entre o terno e o macabro, com gotas de sangue – às vezes jorros, às vezes estes são metafóricos também.
 
Ao longo de 20 contos, o autor compõe um panorama do presente doentio que, disfarçado, se mostra feliz e saudável. O protagonista-narrador de “Na casa do cordeiro, o lobo anfitrião”, o texto mais longo da coletânea, parece, à primeira vista, se um sujeito legal e solidário. “Desde que consegui minha carteira de motorista que dou carona nas estradas quando viajo”. O que também causa apreensão ao leito. Pobre personagem! Aos poucos, numa atmosfera e construção que lembra Rubem Fonseca, o texto regride no passado dessa figura, e revela algo assustador.
 
Muitos deles esmiúçam relações entre pais/mãe e filhos/filhas com consequências trágicas (umas maiores, outras menores) para ambos lados da relação – um pai que espanca o filho, outro pai que não dá atenção ao menino – aparentemente, ainda não “‘despertara’ para a paternidade, mas que um dia iria receber o ‘chamado’ inevitável da natureza”. Há também humor. Nasce o filho de um narrador: “No dia seguinte, Olavo Pimentel Luiz de Carvalho vinha ao mundo. [E], por mim, jamais seria médico, nenhuma dessas profissões que enchem o [sujeito] de grana, mas um grande filósofo. Eu só queria isso”.
 
A leitura continua dos textos causa um estranho efeito de uma certa catatonia pelo efeito anestesiador da violência – quase sempre a emocional aqui é tão forte, ou ainda mais forte, do que a física. O efeito acumulativo culmina, é claro, no último texto da coletânea: “A contagem dos dias”, o mais triste de todos.

Cartografia do medo no romance A imensidão íntima dos carneiros

Por Alysson Oliveira em 12/06/2017
 
 
A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, romance de Marcelo Maluf, começa com a seguinte frase: “O medo estava no princípio de tudo”. Mas, ao longo de sua narrativa, o medo não está apenas no princípio, não. O medo é uma força que impulsiona as personagens e a trama, que transita entre o Líbano e o Brasil.
 
Não apenas pela ligação com o Líbano, mas há algo que conecta o livro de Maluf com Milton Hatoum e Raduam Nassar. Talvez esteja mais no jeito de contar uma história, num fluxo regado a som e fúria, mas também sabores e cores, e a dinastia de uma família que atravessa décadas e continentes. Uma espécie de realismo mágico permite que o Marcelo, personagem contemporâneo e narrador, acompanhe seu avô, Assaad, resgatando sua história. Os dois nunca se conheceram, o jovem nasceu em 1974, quando o avô já havia morrido.
 
Há também animais falantes, um carneiro sábio chamado Mustafa, que já foi humano e teve uma família, e, conforme diz a Assaad: “Já desejei o mundo. Vivi como os miseráveis e como os reis. E morri cercado por ladrões e inimigos. Sempre tive medo. [...] A morte pode estar em qualquer lugar, Assaad.”
 
A transição entre o tom realista e o onírico é sutil, e, ao mesmo tempo, poderosa, pois quando elementos do real já não dão mais conta de captar a realidade, a fantasia se embrenha nas fissuras e se expande. Só ela é capaz de acompanhar, por décadas e gerações, o medo que move ou estanca os personagens de Maluf, conforme o último parágrafo do primeiro capítulo: “E é da morte que todos de nossa família têm medo desde sempre. Temos o medo e por isso preservamos tanto nossas vidas a ponto de não vivermos tudo o que poderíamos ter vivido.”

Narciso Negro, ou Pós-Colonialsmo em tecnicolor

Por Alysson Oliveira em 02/06/2017
 
 
O ano de 1947 marca a independência da Índia e também o lançamento de NARCISO NEGRO, da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger, baseado num romance de 1939, de Rumer Godden. De certa forma, o filme não deixa de ser um réquiem para o projeto colonial britânico que se esmaecia na época da produção do longa – filmado inteiramente, diga-se, em estúdio na Inglaterra, e com elenco majoritariamente ocidental, até para personagens indianos, como é o caso da jovem rebelde vivida por Jean Simmons, cujo rosto é levemente bronzeado com uma maquiagem.
 
No filme, cujo cenário é uma região isolada do Himalaia, próximo a Darjeeling, tem como protagonista um grupo de freiras que se mudam para uma antiga construção conhecida como O Castelo – embora de castelo não tenha nada. Elas irão ensinar às crianças locais, com ajuda de uma criança-tradutora. Quem cuida de tudo ali é a Madre Superiora Clodagh (Deborah Kerr), com ajuda de outras três religiosas, sendo que uma quarta passa o tempo em seu quarto, pois está doente. Trata-se da irmã Ruth (Kathleen Byron), cujo estado emocional dará margem a boa parte dos psicologismos baratos que já se usou para interpretar o filme.
 
Uma versão pop de Freud dá conta da repressão do desejo sexual das freiras isoladas numa região insólita e cercada por pessoas com a sexualidade à flor da pele – materializada especialmente na figura do inglês Dean (David Farrar), cujos poucos trajes são alvo de olhares lascivos e doentios da adoentada irmã Ruth. É muito fácil cair na leitura de interpretar as personagens femininas como histéricas, destituindo-as e o filme de uma interpretação social – “são apenas mulheres com o desejo reprimido”. Clodagh, por exemplo, é um mistério – embora alguns flashbacks a retratem como um espírito livre e noiva de um rapaz na juventude. Ela também não era de uma família pobre.
 
Uma das referencias pictóricas da fotografia, assinada por Jack Cardiff, vem dos espaços interiores de Vermeer, que materializam o claustro e os sentimentos reprimidos em tons escuros de marrom, contraponto ao azul, verde e branco do exterior e da natureza. O “castelo” no alto de uma colina impõe austeridade e confere algum tipo de poder, mesmo que involuntariamente, às religiosas.
 
A representação dos nativos, por sua vez. anda sobre um fio tênue entre a complexidade e o clichê, pendendo, em parte do tempo, para o segundo – especialmente com a “brownface” de Simmons.  Há também o jovem general (Sabu) que procura a escola das religiosas, porque quer aprender línguas, matemática etc. Ele é mais velho do que os alunos regulares, mas acaba aceito, e há um discreto romance entre ele e a garota rebelde. Pode o subalterno falar em Narciso Negro? Pode, mas desde que seja num inglês quase impecável.
 
Mas a dupla Powel & Pressburger tem a melhor das intenções, e esse é um filme sobre o fim de uma ideia, é a despedida melancólica do projeto de colonização inglesa para a Índia. A cena final, com a partida das religiosas e a chegada das Monções trazendo uma chuva que a tudo lava, simbolicamente pode representar a vitória do povo indiano – nem que seja temporária.
 
A bela embalagem em tecnicolor e as chuvas parecem uma celebração à resiliência dos indianos que surgem como uma força da natureza diante da opressão imposta pelo ocidente – especialmente aquela simbolizada na religião. O que Narciso Negro tenha a dizer sobre a região do Himalaia, a Índia, talvez não seja muito (filmado inteiramente em estúdio na Inglaterra, com paisagens pintadas), mas há algo inerente à representação do colonizado que o olhar repleto de boas intenções dos diretores não superam os vícios. Ainda assim, é um olhar de tirar o fôlego.