Letras e fotogramas

Potere operaio no romance de Nanni Balestrini

Por Alysson Oliveira em 28/06/2016
“Sindicalistas, burocratas do Partido Comunista, falsos Marxistas-Leninistas, policiais e fascistas todos têm uma característica em comum. Têm muito medo da luta dos trabalhadores, da habilidade dos trabalhadores dizerem aos seus chefes e aos servos dos seus chefes para irem para o inferno, e organizarem sua luta autonomamente, dentro e fora da fábrica”, argumenta o narrador de WE WANT EVERYTHING, romance do italiano Nanni Balestrini (Trad. Matt Holden).
 
O livro, originalmente de 1971, e que acaba de sair pela Verso, é um retrato do levante de um jovem operário numa Itália assolada por uma crise e ausência de oportunidades. Narrado em primeira pessoa, por um narrador sem nome, o livro é uma combinação de despertar de consciência de classe, com diário de uma greve e manifesto. A primeira parte acompanha o protagonista em busca de emprego até se dar conta das condições precárias em que trabalha.
 
Ele migra para o norte do país, onde espera trabalhar numa montadora, até que consegue – num processo de seleção bizarro, no qual todos são contratados – emprego na FIAT. O protagonista não tem muita noção do mundo e da dinâmica da exploração. Num dos episódios, ele se acidenta levemente, mas finge ser algo mais grave para conseguir uns dias em casa. Durante sua licença, não sabe o que fazer. Percebe que seu trabalho tomou toda sua vida. Isso se chama alienação. Mas não é preciso dar nomes, conforme diz Rachel Kushner numa introdução escrita para essa edição: “a experiência viva da exploração, [que] é demonstrada aqui sem abstrações teóricas: é um relato oral da vida de uma pessoa; e isso é tudo”.
 
O diário da greve – segunda parte do romance – é inspirado nas greves de 1969 que aconteceram nas montadoras italianas, e construído de forma narrativa com cadência e tensão. O relato em primeira pessoa dá lugar, de tempos em tempos, a uma espécie de “camera eye” adotando um tom documental que registra os acontecimentos com precisão e riqueza de detalhes.
 
Ballestrini, que além de romancista, é poeta e participou da fundação do Gruppo 63 (um movimento de literário de vanguarda), e também artista plástico. Sua colagem Potere Operaio, de 1972, que também ilustra a edição da Verso, remete ao grupo político de extrema-esquerda do qual ele fez parte – ao lado de Antonio Negri e Valerio Morucci, entre outros. Seu romance, belo e poderoso, se alinha diretamente à sua ideologia. É um livro repleto de ideias, mas que também pulsa com vida e empolgação. É, ao mesmo tempo, uma história que jamais deixa de ser atual – ao menos enquanto houve exploradores e explorados.

Morte Súbita, de Álvaro Enrigue

Por Alysson Oliveira em 22/06/2016
 
Resenha alguma talvez seja capaz de fazer justiça a SUDDEN DEATH, do mexicano Álvaro Enrigue (Trad. Sérgio Mollina). Sinopses serão incapazes de dar conta do que está entre as capas deste livro. A única coisa que deveria ser dita: leia, e leia imediatamente. Mas, enfim, em frente vou: aqui temos uma espécie de “romance histórico” que pouco liga para a história enquanto encadeamento de fatos cronológicos – aliás, cronologia é o que menos interessa ao autor.
 
Uma forma talvez divertida, mas pouco proveitosa de ser ler o livro é usando a internet para checar fatos históricos citados na narrativa – mas também deve acabar com metade do prazer da leitura, porque a graça está exatamente no absurdo ser completamente plausível, como por exemplo, quatro bolas de tênis recheadas com longas tranças de Ana Bolena. Verdade ou invencionice? Importa?
 
O narrador diz que não sabe do que se trata este livro. “Só sei que escrevi furioso porque os maus sempre vencem. Talvez todos os livros sejam escritos só porque os maus jogam com vantagem, e isto é insuportável”. Existe uma disputa de tênis que serve como fio condutor da narrativa, e na quadra estão o poeta espanhol Quevedo e o pintor italiano Caravaggio. Os capítulos são alternados, e quando não é sobre a partida, vale tudo: desde a colonização do México até o trono inglês e o trágico destino de Ana Bolena.
 
A estrutura é construída como uma partida de tênis, que reverbera em diversos níveis e lugares - não apenas Caravaggio x Quevedo, como também Arte x Religião, Romance Histórico x Ficção total, Império Asteca x Império Europeu. É uma dialética que figura, a certa altura, os oprimidos e opressores, os explorados e exploradores, e traz em si um algo a formação da identidade do México e de sua cultura. O mais curioso é que o autor parece mostrar que não existe um fim para isso, é uma história longa e que persiste.
 
Mas o jogo final mesmo, aquele que provavelmente importa, é entre Enrigue e seus leitores. Devem existir inconsistências – ou até personagens mal desenvolvidos – mas o que importa é o convite do escritor para que seu público entre com ele na quadra, e se preste a jogar com ele (e não contra ele), o resultado é que termina em empate, e todos se divertem. 

Precisamos falar sobre o novo romance de Lionel Shriver

Por Alysson Oliveira em 07/06/2016
Em THE MANDIBLES: A FAMILY, 2029-2047, Lionel Shriver combina duas tendências comuns da literatura: uma mais clássica (as sagas familiares), outra mais contemporânea (a distopia) tudo isso pelo prisma da economia. Situada num futuro próximo, a trama acompanha a queda de um clã milionário em meio a uma grande crise financeira, política, social e, por fim, moral que assola os EUA de 2029.
 
Obviamente não é por acaso que a autora escolheu o ano de 2029 para situar a primeira parte do romance, na qual os EUA são governados pelo primeiro Lat (é assim que os descendentes de latinos são chamados), que acaba tomando medidas drásticas, entre elas confiscar todo o ouro da população, uma vez que o dólar está totalmente desvalorizado no mundo inteiro, exatamente um século depois da Grande Depressão.
 
“O dinheiro é emocional”, diz um dos personagens, um economista. “Porque todo valor é subjetivo, o dinheiro vale o que as pessoas sentem que ele vale. Eles o aceitam em troca de bens e serviços porque eles têm fé nele. Economia está mais próxima da religião do que da ciência”. É exatamente esse deus do dinheiro que vai deixar a todos na mão. Curiosamente, nenhum dos personagens se voltam à religião – essa, estranhamente, parece não existir no mundo pré-apocalíptico que cerca o final da década de 2020.
 
Shriver não é uma escritora com receio de tocar em assuntos espinhosos – basta ler o seu We Need to Talk About Kevin/ Precisamos Falar sobre Kevin – para comprovar. Para ela, os EUA é um país doente, agonizante, assim como suas políticas internas e externas. Se em sua obra a sociedade estava a um passo do seu colapso, aqui, o passo foi dado. O mundo dos Mandibles – um sobrenome não escolhido ao acaso também – é descrito de forma detalhada, minuciosa – alias, o mundo, não; os mundos: o que foi, o que é, e aquele que virá. No começo do romance, eles fazem parte daquele 1%, que com o tempo diminuirá, e essa família fará parte dos enxotados.
 
A cada nova medida do governo, as coisas pioram, os EUA perdem o pouco de poder e credibilidade que tem, e a família-protagonista esmaece cada vez mais. Há um humor cínico em cada cena, e também uma inventividade da autora quase inacreditável, mas plausível que gera cada vez mais caos e paralise.
 
A esperança, como quase sempre, está ou estaria nas novas gerações. 2047 estará logo aí para mostrar o que aconteceu com os Mandibles que eram adolescentes ou crianças em 2029, e como ficou o mundo que os cerca. Tecnologia tem um papel fundamental nos dois momentos, é um passo que não pode ser desdado – somos e seremos reféns de bugigangas eletrônicas mesmo quando praticamente não houver mais mundo.
 
Em 1947, o FMI iniciou suas operações financeiras, e em março do mesmo ano, a França se tornou o primeiro país a pegar dinheiro emprestado. Cem anos depois, em “The Mandibles: A Family, 2029-2047” dinheiro é uma questão nevrálgica (quando não foi na história do mundo?) no Sonho Americano. Não o ter é estar excluído. Simples assim. Por isso, em seu retrato do futuro obscuro – falido por causa dos gastos com, entre outras coisas, sistemas de saúde e obsessão com vigilância – o romance é tão preciso em retratar o nosso presente.