Letras e fotogramas

A dubiedade no romance ganhador do Pulitzer de ficção de 2016

Por Alysson Oliveira em 24/05/2016
 
 
A Guerra do Vietnã é um ponto nevrálgico na história e na produção cultural dos EUA. O que mais existe é a tentativa de uma reconstrução – ou, ao menos, maquiagem – da narrativa histórica, e com isso raramente se dá voz aos vietnamitas. Robert Olen Butler é um dos poucos a fazer isso, na coletânea “A Good Scent From a Strange Moutain”. Por isso mesmo, THE SYMPATHIZER, de Viet Thanh Nguyen, é de extrema importância. Nascido no Vietnã, ele e sua família se mudaram para os EUA em 1975, mas não é isso que realmente importa aqui – o que vale é que ele escreveu um tremendo de um romance que não apenas dá voz aos seus conterrâneos, mas mais do que isso lhes dá um ponto de vista.
 
A bem da verdade, é um ponto de vista fraturado, cindido entre um fascínio hipnotizado com os EUA e sua lealdade à terra natal – e, realmente, haveria outra forma de narrar essa história? O romance tem um tom tragicômico em sua abordagem na incompreensão entre o ocidente e o oriente, e coloca ao centro um dilema moral: qual escolher? Ou mais do que isso, porque escolher?
 
Seu narrador e protagonista, que não tem nome, é um sujeito dividido entre os dois mundos. Filho ilegítimo de uma mãe vietnamita e um padre francês. Criado nos EUA, ele é capaz de falar um inglês sem qualquer sotaque – o que, por momentos, anularia suas origens – e tem uma relação de amor e ódio com o país. Ele é também um espião, um infiltrado que pode, sem nem se dar conta, estar fazendo um jogo duplo.
 
Sua narrativa começa nos dias finais da Guerra, quando ele se torna ajudante de um General – cujo nome próprio, como o dele, nunca é citado -, e com ele vai para os EUA, onde será um espião comunista, para investigar (e tentar impedir) uma contrarrevolução no seu país.
 
É nessa dubiedade que o romance, ganhador do Pulitzer de ficção em abril passado, se constrói. Entre o ser e o não ser, entre o estar aqui e querer estar lá, mas aqui está melhor do que lá, então para que ir para lá? Mas onde é o verdadeiro aqui? Nesse jogo de dubiedades – moldado num humor ácido – Nguyen constrói um retrato não apenas histórico, mas da ideologia da cultura. Os capítulos em que o protagonista trabalha como consultor de um filme sobre a Guerra do Vietnã são alguns dos melhores. Neles, se vê explicitado o movimento das engrenagens culturais capazes de sequestrar a narrativa da História.

James Wood entre o pessoal e o crítico em seu mais novo livro

Por Alysson Oliveira em 09/05/2016
Em THE NEAREST THING TO LIFE, o crítico da New Yorker e Professor de Harvard James Wood combina ensaio memorialístico e crítica literária com um resultado que fala mais ao coração do que à mente – algo que, no fundo, não é ruim. A partir de uma série de palestras que ele apresentou em 2013 na Brandeis University, Wood investiga a relação entre a arte e a vida pessoal.


Acompanho seus textos na revista com atenção, embora o tipo de crítica que ele faz não é bem o tipo que mais me interessa (prefiro aquelas que relacionem literatura e sociedade/história; e o tipo que ele costuma fazer está mais ligado à arte que encerra-se em si mesma), pois, creio, ele tem um dos melhores textos na área, e, no que diz respeito a crítica literária de grande publicações, acho que ele mais acerta do que erra, evitando simples achismos e cotações vazias.


Seu livro – a 5a coletânea de textos – é claro e direto como suas críticas, e, soma-se a isso o fato de que os ensaios foram escritos para serem lidos em voz alta (por ele nas apresentações), o que traz uma boa fluência e leitura prazerosa. O primeiro deles, chamado “Why?”, é sobre o romance como o encapsulamento de uma vida – que não significa que a narrativa irá começar no berço e terminar no leito de morte. Ele advoga no gênero enquanto sua complexidade e capacidade de comprimir uma vida (nem que seja num sentido metafórico). Seus argumentos parecem dialogar com a ideia de Gyögy Lukács quando este diz que o romance é o gênero do “mundo esquecido por Deus”. “A ideia de que qualquer coisa pode ser pensada ou dita dentro de um romance [...] tinha, para mim, uma conexão ironicamente simétrica com os medos reais do Cristianismo oficial fora do romance: que sem Deus, como Dostoievski colocou, “tudo é permitido”” (tradução minha), diz Wood.


Esse talvez é o ensaio mais didático ou que entra mais na questão da forma, enquanto os demais, cada um ao seu modo, são pessoais, e buscam a intersecção da memória e da formação de Wood como leitor (mais do que como crítico e professor). O último deles, “Secular Homelessness”, é o mais ousado, e no qual o crítico se posiciona (tardiamente) no debate quanto a World Literatura, essa cortina de fumaça que define o cânon mundial e indica, aos mais incautos o que ler ou não ler. Ele o faz a partir de um ensaio bastante certeiro da revista n+1, publicado em 2013. E, ainda que não seja tão incisivo quanto a publicação, Wood também não é ingênuo, e discorre sobre o sentido de lar (e o lar das literaturas nacionais no mundo contemporâneo) a partir de obras de Sebald – especialmente Os Emigrantes.


O título, Wood tomou de uma frase da escritora George Elitot, na qual ela diz que a arte é “a coisa mais próxima da vida”. Aqui, Wood investiga com elegância a conexão entre vida e arte, e o quanto uma é capaz de influenciar e explicitar da outra – e vice versa. Talvez esse seja seu livro menos “crítico”, e, por isso mesmo, o mais poético e bonito de se ler.