Letras e fotogramas

Não é fácil ser Deus, uma grande ficção científica russa

Por Alysson Oliveira em 28/05/2015

“Hard to be a God”, de Aleksey German, é um pesadelo do qual eu não queria acordar. Não é um filme ruim – pelo contrário, é genial, por isso queria que durasse mais (3 horas não me bastaram!). Sua parte pesadelo é porque se passa na Idade Média, com tudo aquela “mitologia”, que criamos sobre o período – gente e ambiente sujos, cadáveres em decomposição, lama, doenças etc. Mas o filme não se passa na Terra – está situado no planeta Arkanar, onde um grupo de cientistas terráqueos foram mandados para o estudar – “por ser mais próximo, por ser menor do que outros planetas”. Só podem observar, não podem interferir – daí o título, pois o protagonista, Dom Rumata, não pode fazer nada para que aquelas pessoas se afundem ainda mais, ele é um deus que apenas observa e se aflige. Ainda assim, quando os intelectuais são ameaçados, ele toma partido.


Talvez seja um filme sobre a razão e a cientificidade, mas também é um filme sobre o obscurantismo – e, claro, vai ecoar em nosso tempo. Não temos a peste negra, mas temos outros tipos de pestes causadas pelo sono da razão. Estamos, dentro da narrativa, tão perdidos como Rumata, pois esse mundo lembra o nosso, mas não *é* o nosso.


Baseado num romance dos Strugatsky – os mesmos autores cujo Roadside Picknick serviu de base para STALKER – essa ficção científica traz uma câmera que parece testemunhar as cenas, mas do que enquadrar – personagens olham para as lentes como quem olha para uma mancha na parede, com uma feição inquisitiva, em outros momentos ficam em frente, tapando a visão etc. É o inferno de Dante – como apontou Umberto Eco – e também o último filme do diretor que morreu no processo de montagem.


Sua narrativa barroca pouco explica, só nos joga o meio desse inferno na “Terra”, nossa solução e se “aliar” a Rumata – teríamos outra opção? Ele é o foco narrativo aqui... – e explorar esse universo. German deixou um testamento sobre o mundo e sobre o papel da arte e razão num tempo que essas se esvaziam – mas com esse filme, prova que ainda há fissuras de onde elas podem emergir.