Letras e fotogramas

As desilusões perdidas de Dana Spiotta

Por Alysson Oliveira em 28/03/2016
O romance EAT THE DOCUMENT, da americana Dana Spiotta, é uma investigação sobre dois momentos da contracultura de seu pais: no começo dos anos de 1970 (a ressaca da década anterior) e no final dos 1990 (o refluxo do neoliberalismo dos anos de 1980). Sua heroína é uma moça que em 1972 muda de identidade (uma estratégia típica de personagens americanos, desde seus fundadores, passando por Gatsby). Pouco sabemos sobre ela quando a narrativa começa – apenas que precisa se reinventar depois de uma ação guerrilheira. Sua primeira ação: tingir o cabelo de loiro.

Na outra ponta da trama, está Jason adolescente atípico do fin de siècle, que sente uma nostalgia pós-moderna de uma era que não viveu: os anos de 1960. Isso se materializa em sua obsessão pela música daquela época, colecionando não apenas álbuns oficiais, mas também bootlegs raros – especialmente dos Beach Boys.

Spiotta investiga as possibilidades dos movimentos políticos e culturais dos dois momentos. No passado (1960s-1970s), havia um senso utópico contra o sistema, havia comunidades e a tentativa de uma união – nem que fosse imaginária. No presente (1990s), a solidão consome as pessoas, diversos grupos de desconhecidos se reúnem numa livraria alternativa para discussões que não servem para nada, que não chegam a lugar algum. A grande diferença está talvez que no passado as pessoas agiam (para o bem e para o mal), e agora apenas discutem (colocando quase nada em prática).

Como é bem simples juntar os pontos, e deduzir os ecos do passado no presente da narrativa, percebe-se que não é o objetivo da autora construir um suspense – por isso, quando a “grande revelação” se dá no final é pouco surpreendente. O que a interessa são os impulsos históricos que estão por trás da ação de seus personagens. O que não está na trama, mas é o rolo compressor que separa os dois extremos é o neoliberalismo dos anos de 1980, que se materializa em sua ausência. O rapaz do presente cheio de desilusões com uma rebeldia ingênua é o resultado de uma força anterior a ele que aniquilou (sem que ele mesmo saiba) suas utopia (ou, ao menos, as possibilidades delas). Spiotta fez, em Eat the Document, um romance as desilusões perdidas, e os sonhos aniquilados.

O discreto modernismo tardio do escritor Tom McCarthy

Por Alysson Oliveira em 23/03/2016
A letra “C” do título do romance de Tom McCarthy (homônimo do diretor de “Spotlight”) pode se referir ao sobrenome do protagonista (Serge Carrefax), ou à cocaína (seu vício), ou ao CQ (do rádio amador da tecnologia que fascina o seu pai), ou, enfim, ao elemento químico Carbono presente em toda matéria orgânica, e também importante quando a trama se desloca para o Egito.
 
Nascido na virada do século XIX para o XX, Serge é filho de uma era, é uma criança que cresce cercada pela modernidade e excentricidade de seu pai – um inventor amador e diretor de escola para surdos (sua mãe é um ex-aluna) – num vilarejo na Inglaterra chamado Versoie. De equipamentos “eletrônicos” (a chegada de um rudimentar tipo de cinema rende uma das melhores cenas do romance) a tradições antigas (o teatrinho dos alunos é revelador) servem para moldar a personalidade inquisidora, inquieta e aventureira do rapaz, que logo irá para a Europa Continental e inclusive à Guerra.
 
McCarthy não é apenas escritor – é também autor de instalações e fundador da International Necronautical Society (uma organização semificcional, que ele criou com filósofo Simon Critchley, “devotada a projetos alucinantes que fariam pela morte aquilo que o Surrealismo fez pelo sexo”). Mas, como escritor, ele é um devoto e seguidor do modernismo.
 
Seu romance é inventivo, e trabalha de forma sutil com a linguagem (existe nele um discreto modernismo tardio), mas seu grande interesse está mesmo no projeto da modernidade enquanto uma espécie de mola propulsora da humanidade. O autor crê nisso em boa parte do tempo, mas há também um discreto cinismo de sua parte, e alguma desconfiança que é muito bem vinda. Com “C”, de 2010, McCarthy se consolidou como um dos escritores experimentais mais importantes da literatura inglesa contemporânea.

A fragmentação do presente no romance de Rachel Cusk

Por Alysson Oliveira em 21/03/2016
OUTLINE, da inglesa Rache Cusk, não poderia ser um romance mais sincronizado com as narrativas do nosso tempo, aquelas que se dão pela disputa. Como indica o título, o romance é composto de pequenos “esboços” do que poderiam ser outros romances centrados em diversos personagens. A protagonista e narradora é uma escritora inglesa em Atenas, onde ministra um curso de escrita criativa.
 
Ao longo dos capítulos, essa mulher se encontra e interage com diversas pessoas – desde o homem da poltrona vizinha no avião até seus alunos. Cada encontro é um capítulo e uma pequena história que pode ser uma biografia ou apenas um episódio da vida desses personagens. É a polifonia de um coro grego que estrutura a narrativa. Aos poucos também descobrimos mais sobre essa protagonista, mas tudo nas entrelinhas.
 
E assim se dá o romance de Cusk sobre a pós-modernidade, na qual narrativas disputam o centro do palco, mas nenhuma é forte o bastante para ser a vencedora. Nem a da narradora/protagonista, cuja própria narrativa é a um fiapo que serve como substrato para as demais. É nessa fragmentação com começo, meio e fim que temos uma visão do presente: período de incertezas e inseguranças.

A cerveja nossa de cada dia num romance português

Por Alysson Oliveira em 16/03/2016
Cerveja é o pão na forma líquida, então Jesus Cristo e seus apóstolos certamente bebiam cerveja. Vinho era bebida de soldados romanos, dos invasores. “Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores [...] mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso que era cerveja, um símbolo do povo”, argumenta um professor num momento climático de JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA, do português Afonso Cruz.
 
É nessa zona de estranhamento que se desenvolve a narrativa do romance, situado numa pequena aldeia do Alentejo, e povoado por tipos exóticos, no limite do realismo fantástico, mas que nunca se concretiza. É aquele tipo de literatura melancólica e dura – que me parece tão comum na produção portuguesa – numa região que parece perdida no tempo. Talvez o romance seja exatamente sobre isso, o fracasso de inclusão da modernidade.
 
A personagem central é Rosa, jovem que cuida da avó com Alzheimer, e sonha ir a Jerusalém, mas como elas não tem dinheiro, e mesmo que o tivessem, a mulher não teria condições de ir, a moça recria – com ajuda de um professor – a Terra Santa numa aldeia ao lado. Isso, que parece ser o acontecimento central do livro, não rende muito, na verdade. É curioso como esse fato que é tão alardeado na capa ocupe tão pouco dentro da narrativa.
 
Cruz escreve bem, mas uma coisa que me incomoda – não só no romance dele, em vários – é a busca exagerada e onipresente pelo exotismo de personagens. As figuras não podem ser apenas comuns, elas precisam de um algo de diferente para marcarem dentro da narrativa. Esse flerte, nunca assumido com o fantástico – especialmente na atmosfera – em alguns momentos, soa meio artificial.
 
Há passagens excelentes – como o “avião” usado para “levar” a avó à Terra Santa – mas que nem sempre se desenvolvem com toda sua potencia. É como se o autor fosse removendo tanto, tanto para fazer algo que beira o minimalismo, que algumas cenas parece me parecem mais o esboço daquilo que realmente poderiam ser.

Políticas da pós-modernidade em Estação Atocha

Por Alysson Oliveira em 14/03/2016
LEAVING THE ATOCHA STATION (no Brasil, “Estação Atocha”; trad. Gianluca Giulando), do americano Ben Lerner, é uma comédia melancólica com um subtexto político sutil sobre um jovem poeta americano, Adam Gordon, vivendo em Madri pouco antes do ataque terrorista de 2004 e as eleições poucos dias depois, das quais Zapatero saiu vitorioso.
 
Vivendo de uma bolsa para aprender espanhol e estudar a poesia do país pós-Franco, o protagonista passa o tempo fumando haxixe, visitando museus e olhando pinturas – sem avançar no seu espanhol ou pesquisa, que, na verdade, foi uma mera desculpa. Mentiroso compulsivo, Adam é uma personagem numa crise emocional profunda, mas com dificuldade de encarar isso, e, dessa forma, se deixa levar pelos outros, por suas próprias mentiras e dúvidas.
 
Sua vida é a materialização do mundo contemporâneo, onde uma espécie de simulacro substitui a experiência real, e apenas se acumulam sensações, em lugares de experiências. Seu vazio está nisso, na sua incapacidade de acessar a fonte primária – simbolizada por seu bloqueio em aprender espanhol e ler as poesias no original, por exemplo. A busca de sentido, para o personagem, passa pela arte e a política – diversas vezes Bush, presidente dos EUA no quando, é lembrado, assim como Franco e a polarização da Espanha naquelas eleições.
 
Lerner é poeta, e esse é seu primeiro romance, e o que é mais importante não é o que diz sobre seu personagem ou a Espanha, mas sobre os Estados Unidos. Não é preciso se deter no superficial e óbvio – o comum desinteresse americano pela cultura alheia é uma dessas coisas, e rende um comentário preciso do personagem num debate sobre “literatura hoje”. Leaving Atocha Station é o The Sun Also Rise do século XXI – com a diferença de que Lerner me parece melhor prosador do que Hemingway, entre outras coisas. Em sua busca vazia pelo preenchimento de seu vazio emocional e político, Adam materializa em si a jornada do herói rumo à perda da inocência.

O realismo fragmentado de Renata Adler

Por Alysson Oliveira em 07/03/2016
No posfácio da reedição de 2013, da New York Review of Books, de SPEEDBOAT, de Renata Adler, Guy Trebay diz que “os anos de 1970 foram a manhã seguinte dos anos de 1960 – a ressaca”. Publicado originalmente em 1976, o romance é a ressaca da ressaca. Composto mais de fragmentos narrados por uma repórter observadora, o livro é uma tentativa de compreender o vazio existencial que se abateu na década posterior àquela dos protestos e do espírito revolucionário – quando se imaginava que o mundo era passível de mudança.
 
Em seu realismo fragmentado, Adler – jornalista experiente que entrou na New Yorker em 1962 – figura as possibilidades do fracasso das utopias do passado. Seus personagens, a maioria sem nome, que figura em algo não muito maior que uma anedota, são pessoas de classe média, acadêmicos, gente de cinema, jornalistas, boêmios, hippies tardios, empresários e afins. Em seus mundinhos, ilustrados por historietas, a maioria cômicas, vemos desmoronar os projeto de um mundo mais igualitário e generoso que possa ter existido nos anos anteriores.
 
A fragmentação na narrativa materializa o aspecto individualista que começa a se fomentar, e irá se decantar na década seguinte. Speedboat é um excelente romance que cristaliza em si a pós-modernidade, que ele mesmo ilustra. Estão em sua narrativa a ausência de historicidade (quando se passam as historinhas? Quando é passado? Presente? Futuro?), a fragmentação, entre outras coisas. É um romance de observação sobre um mundo em ressaca, em transformação, tentando lidar com a frustração das utopias abortadas. É, por fim, um romance melancólico, especialmente se tivermos em mente o que veio na década seguinte.