Letras e fotogramas

Da improdutividade e a falta de saúde: o caso de "Para Sempre Alice"

Por Alysson Oliveira em 10/03/2015
Em Para Sempre Alice, há uma cena que passa quase despercebida, mas que é bastante reveladora. Da trama, todo mundo sabe o ponto de partida: linguista brilhante e professora universitária é diagnosticada com Alzheimer e sua vida – qual sua memória – começa a desmoronar. O momento a que me refiro no filme acontece um pouco antes da metade, quando a protagonista precisa contar o que está acontecendo com ela ao chefe do departamento da universidade onde leciona. Depois de alguma hesitação – quando ele mostra para ela o feedback negativo dado pelos alunos no final do semestre sobre as aulas dela – Alice assume a sua condição, e uma das primeiras reações do seu colega é: como ela poderá dar aulas nesse estado? Bem, conclui ele, ela não poderá.
 
A questão que emerge então do filme é: na sociedade em que vivemos só temos valor enquanto somos produtivos?Num mundo competitivo como o acadêmico, Alice desapareceu por não poder mais dar aulas, publicar artigos, participar de congressos. Todo seu trabalho pregresso – que, assume-se é (era?) bastante respeitado – parece evaporar. O grande problema para a maioria das pessoas que a cercam – excetuando sua família – é que não será mais capaz de trabalhar. Não há dúvida de que o trabalho é uma esfera bastante importante da vida social e privada, e, no caso de Alice, seria uma motivação a mais, mas, reduzir toda uma vida a essa questão é reduzir a existência de uma pessoa.
 
Alguns anos atrás, Longe Dela, protagonizado por Julie Christie, trazia uma personagem com a mesma condição. Como ela tinha mais idade do que Alice, a questão era outra: qual era seu lugar na sociedade? A problemática central do filme – inspirado num conto da Nobel canadense Alice Munro – era sobre o casamento, sobre a dissolução da relação entre a personagem e o marido.
 
A produtividade – especialmente para o modelo de sociedade americano – se tornou a questão central do nosso mundo, vide a quantidade de cursos, livros, manuais que falam do universo do trabalho, que explicam como tirar mais proveito do tempo de trabalho etc. Uma pessoa como Alice está condenada – menos por seu problema de saúde e mais por não poder trabalhar. O filme, no entanto, se concentra na relação dela com a família e os cuidados que isso implica. Novamente o trabalho é um problema que interfere: quem poderá abandonar “sua vida” para cuidar da mãe debilitada? Seu marido/professor, médico renomado, se esforça, mas tem ambições concretas demais para deixar tudo de lado. Caberá à filha atriz abrir mão de seus projetos para mudar de Los Angeles para Nova York, e cuidar de Alice.