Letras e fotogramas

Nelson Xavier, o Chico Xavier relutante

Por Alysson Oliveira em 25/03/2010
 
Mesmo relutante, o ator Nelson Xavier vai interpretar o médium Chico Xavier novamente. Desta vez será em As mães de Chico, longa que começa a ser rodado no próximo mês. O ator me disse numa entrevista que não queria aceitar o papel, pois tinha medo de ficar rotulado. “Mas como é apenas uma participação, não é o papel principal, e é outra fase da vida do Chico [que não é mostrada em Chico Xavier], quando ele estava mais velho, resolvi aceitar”. O filme acompanha três mães que recebem mensagens de seus filhos mortos.
 
A partir do próximo dia 2, quando o médium completaria 100 anos, Nelson poderá ser visto em cinemas de todo Brasil na sua primeira incursão como Chico Xavier, no filme homônimo de Daniel Filho, que teve sua pré-estreia na última terça, na cidade de Paulínia, onde estão os estúdios onde parte do filme foi rodada.
 
A entrevista na íntegra com mais detalhes sobre o trabalho de Nelson, e como interpretar Chico mudou a vida dele, você lê em breve.  

Essa nossa juventude

Por Alysson Oliveira em 25/03/2010
 
Em 2005, a cineasta Laís Bodanzki dirigiu no teatro Essa nossa juventude. O texto, do norte-americano Kenneth Lonergan, trazia em cena um trio de jovens prestes a ingressar na vida adulta. No próximo mês, a diretora lança seu terceiro longa, As melhores coisas do mundo – que poderia muito bem pegar emprestado o título da peça de Lonergan. (Além de trazer no elenco, em dois papéis coadjuvantes, Gustavo Machado e Paulo Vilhena, que também estavam na peça.)
 
Uma das primeiras coisas que chamam a atenção em As melhores coisas do mundo é como o filme mostra jovens de verdade – em oposição à ‘jovens das novelas e programas de televisão’. Ou seja, adolescentes como aqueles que a gente vê nas portas das escolas, nos metrôs, pelas ruas. Mas também não é só. Laís conta com um elenco estreante que dá um verdadeiro show – especialmente o protagonista Francisco Miguez, e a atriz que interpreta sua melhor amiga, Gabriela Rocha.
 
O roteiro, assinado por Luis Bolognesi – parceiro na vida e de trabalho de Laís – é inspirado numa série de livros de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. É interessante, como as coisas acontecem na escola onde os personagens estudam. Todos, mais cedo ou mais tarde, são vítimas de zombaria dos colegas, ou, como os americanos chamam, o bullying. Uma aluna é zombada porque acham que ela é homossexual. Mais tarde, uma foto de outra menina seminua é enviada de celular a celular. E por aí vai. Nem o protagonista, Mano, passa incólume.
 
Os personagens de As melhores coisas do mundo descobrem – como todo mundo – a duras penas que crescer é um processo complicado e, não poucas vezes, até doloroso. Mas talvez é nisso que reside a beleza da vida, em sofrer, cair, dar a volta por cima, sair do problema fortalecido e tocar em frente.
 
As melhores coisas do mundo tem previsão de estreia para 16 de abril, mas antes disso abrirá o Festival de Melhores Filmes do Ano, no CineSESC, numa sessão para convidados. Tomara que seja um filme que leva muita discussão sobre a nossa juventude, tanto para dentro das escolas como para as famílias.

Uma Aventura de meio século

Por Alysson Oliveira em 04/03/2010
 
Quando exibido no 13º Festival de Cannes, em 1960, A Aventura, de Michelangelo Antonioni, recebeu gargalhadas e vaias na sessão de gala. Diz a lenda que a atriz Monica Vitti saiu antes do filme acabar aos prantos, amparada pelo diretor. Pouco importa, pois alguns dias depois, o longa recebeu o segundo prêmio mais importante do evento – perdendo apenas para seu conterrâneo A doce vida, que também completa 50 anos.
 
Ao longo desse meio século, o filme ganhou notoriedade e fama. A crítica norte-americana Pauline Kael o escolheu como o melhor filme de 1961, e a revista inglesa Sight and Sound o colocou, em 1962, como o segundo filme mais importante da história do cinema – ficando atrás apenas de Cidadão Kane. A aventura ficou na lista dos 10 melhores filmes da publicação por três décadas.
 
A premiação em Cannes e a nacionalidade não são, na verdade, as únicas coisas em comum entre A Aventura e A doce vida. Para o crítico norte-americano Roger Ebert, o filme de Antonioni é ‘o outro lado da moeda’. Os diretores retratam ‘personagens em buscas vãs pelo prazer e terminam ao amanhecer com o vazio e alma pesada’.
 
A aventura é o típico filme em que ‘nada acontece’ – o que quer dizer que tudo acontece nas entrelinhas, naquilo que não se vê, não se fala. Começa com o desaparecimento de uma personagem, Anna (Lea Massari), que parece padecer com o tédio da existência. É rica e namora Sandro (Gabriele Ferzetti), mas está cansada dessa vidinha rica e vazia. Durante um passeio de iate com amigos tão ricos e vazios quanto ela, Anna desaparece.
 
Simples assim, ela some e não deixa nenhum sinal. Por algum tempo a narrativa gira em torno da busca de Anna. Eles andam pela ilha onde ela desapareceu. Sandro conta com a ajuda de Claudia (Monica). Até o pai de Anna é trazido para a ilha, e ele parece, aliás, bastante bravo por ter sido tirado de suas obrigações por conta de um incidente tão banal quanto o desaparecimento da filha.
 
Anna jamais será encontrada, e os personagens são obrigados a tocar em frente suas vidas – tanto que Sandro e Claudia acabam se envolvendo um com o outro. Por conta disso, há sempre uma tensão no ar, tanto sexual, quanto um medo de que a desaparecida retorne e retome o seu lugar, acabando com o romance entre os dois personagens.
 
Apesar do envolvimento amoroso, Sandro e Claudia buscam algo mais do que amor. Aliás, amor deve ser a última coisa que passa pela cabeça deles. Como Anna, eles são personagens à beira do abismo, prestes a desaparecer, deixar de existir, tamanha é a nulidade de suas vidas e o desespero por algum tipo de conexão com outras pessoas. É isso que os une, não o amor.
 
A Aventura inaugura uma série informal de Antonioni conhecida como a Trilogia da Incomunicabilidade, que conta também com A noite (1961) e O eclipse (1962). Melhor do que ninguém, Monica Vitti encarnou as mulheres ‘antonionimente’ alienadas, desconectadas de suas vidas, do seu momento, em busca de algo que as faça perceber porque estão vivas. Ela voltaria a fazer algo parecido em outro filme do diretor, O Deserto Vermelho (1964).
 
Meio século se passou e A Aventura ainda continua um enigma tão fascinante quanto perpétuo. Os tempos mudaram, as indagações existenciais e existencialistas também são outras – mas há algo que jamais será superado: o grande cinema de Antonioni. Há coisas que não necessitam de tradução ou explicações, como o trabalho do diretor nesse longa. Sua composição nos planos, a tensão das imagens (numa das melhores cenas, uma Claudia assustada é devorada por olhares assustadores de um bando de homens), a bela fotografia em preto e branco de Aldo Scavarda, enfim, é tudo aquilo que se espera do cinema – não apenas contar uma história, mas transformar essa história num arrebatamento visual.
 
PS – No ano passado, o Festival de Cannes utilizou uma imagem bastante famosa do filme em seu pôster oficial. O resultado ficou muito bonito.