Letras e fotogramas

Personal Thor - Neil Gaiman e sua mitologia nórdica

Por Alysson Oliveira em 23/02/2017
Sem querer me gabar, mas talvez eu seja uma espécie de leitor ideal para NORSE MYTHOLOGY. Conheço pouco sobre a mitologia nórdica – até o Thor, conheço apenas dos filmes – então posso me aproximar do livro sem expectativas ou cobranças sobre coisas que “não são bem assim”. O autor deixa claro logo na introdução que se trata de uma releitura ao seu modo, ao seu gosto – combinando versões dos mitos tanto da prosa quanto da poesia do historiador e poeta medieval nórdico Snorri Sturluson. O resultado é fascinante.
 
Gaiman tem um poder de prosa hipnótico incontestável. Suas fantasias e ficções científicas são construídas com as palavras certas, com um trabalho profundo escondido pela (falsa) simplicidade do resultado final. É impossível abrir ao acaso um livro seu e não seguir até o final. Aqui não é diferente. Seus personagens são sedutores. Thor aparece como forte, vaidoso e burro. Um dos melhores diálogos se dá quando Loki conta que um Ogro devolverá o martelo roubado de Thor, mas há um preço: a mão da bela Freya em casamento, e Thor responde:
 
“Ele quer apenas a mão dela? [...] Ela tem duas mãos, afinal de contas, e pode ser persuadida a entregar uma delas sem muita discussão.”
 
E esse humor cínico atravessa todo o livro, composto de pouco mais de uma dúzia de histórias, além de um glossário referente a personagens e lugares, o que ajuda na compreensão da teia de relações entre essas figuras. Há também uma estranha ressonância com o presente, quando Odin, preocupado com o lar dos deuses, sugere a construção de uma muralha para impedir a invasão de estranhos. Loki, por sua vez, é extremamente inteligente, embora perverso e cínico – o que o coloca em inúmeras confusões.
 
Há um tom faceiro nas narrativas, levemente infantojuvenil (o que não é novidade em se tratando de Gaiman) que faz com que o autor se apodere dos mitos e personagens, recrie-os ao seu gosto e ainda deixe espaço para cada leitor fazer sua própria releitura. É, de certa forma, um livro até interativo, o que faz com que a poeira que poderia estar pesando sobre os mitos seja soprada para bem longe.

TONI ERDMANN como diagnóstico do presente

Por Alysson Oliveira em 08/02/2017
TONI ERDMANN talvez seja mais do que um filme. É um acontecimento cinematográfico de tamanha grandiosidade que, com seu humor melancólico, é capaz de dar conta do exato presente. O filme foi escrito e dirigido por uma alemã, Maren Ade, e tem como protagonista uma filha adulta, Ines (Sandra Hüller), que tenta se reaproximar do pai, digamos, excêntrico, Winfried (Peter Simonischek), aliás Toni Erdmann.
 
Na superfície, o que há é essa tensão, que transita entre o bizarro e o melancólico, passando pelo terno em vários momentos. Ade faz um retrato de uma Europa em busca de uma nivelação num mundo cada vez mais assolado por uma crise financeira, social, moral, ética. Isso se materializa com sagacidade e sutileza na personagem de Ines, executiva jovem e de sucesso num universo corporativo cada vez mais corrosivo. Ela é uma mulher bem sucedida numa esfera ainda dominada por homens, o que a faz ter de lidar com sexismos. É preciso forçar um sorriso quando um executivo, a quem ela quer impressionar, pede-lhe para acompanhar sua mulher nas compras.
 
Seu trabalho atual é em Bucareste – para onde seu pai vai atrás dela –, o que dá oportunidade de o filme explorar a realidade sombria pós-Cortina de Ferro. Seu trabalho é chamado de outsourcing, o que nada mais é do que terceirização. E ela está totalmente empenhada nisso. Sua frieza em relação às pessoas afetadas por sua prática assusta ao pai, quando presencia isso. Ela também não se sente nada confortável com a maneira como seu pai lida com a vida – com mentiras e pequenos golpes inofensivos.
 
A vida de Ines é completamente compartimentalizada – em sintonia com a maneira de produção do presente. A esfera do trabalho colide com a pessoal com a chegada do pai. A partir desse choque, o filme pode explorar a maneira como a forma como trabalhamos remolda nosso níveis mais íntimos. O pai vai a Bucareste dizendo que contratou uma filha substituta e agora quer negociar quem pagará o salário dela. Ao escancarar a solidão de Winfried em termos de mercado, ele entra no universo de Ines, no qual tudo é definido em termos econômicos, até as relações pessoais. E só assim, talvez, ela possa compreendê-lo.
 
TONI ERDMANN discute, então, o que é ser humano (ou como ser humano) numa era de capital financeiro global – uma empresa alemã terceirizando empregados na Romênia! – e neoliberalismo. Nesse sentido, não é apenas Winfried que está fazendo um personagem (Toni Erdmann), mas Ines também (na verdade, vamos encarar, somos todos nós) para sobreviver no universo cáustico.
 
Todos aqui estão representando um papel – o que inclui a assistente desesperada para agradar Ines – e a diferença talvez seja a de que Winfried como Toni é a representação mais explícita, e, paradoxalmente, a menos fantasiosa. É sintomático que haja uma cena de nudismo coletivo que, aos poucos, vai frustrando a iniciativa. A incapacidade de nos despir dos personagens que criamos (ou que precisamos criar) para nós mesmos (para vivermos o presente) é o diagnóstico certeiro desse filme.