Letras e fotogramas

Um extraterrestre meio hippie

Por Alysson Oliveira em 25/02/2016

Parafraseando a famosa frase de Jameson, em CHOCKY, é mais acreditar acreditar que seu filho está possuído por um alienígena do que pensar em mudar o mundo. Matthew tem um amigo imaginário chamado Chocky. No começo, seus pais, não se importam muito, pois a irmãzinha dele também já teve um, e acabou esquecendo. O problema é que Chocky começa a fazer perguntas estranhas, elabloradas demais para a pouca idade do garoto, que também passa a ter um comportamento estranho, com atitudes que não condizem com sua idade.

Nesse romance, publicado em 1968, John Wyndham cria uma fábula sobre a nossa capacidade de conceber uma utopia e os limites de nossa imaginação e avanços. É curioso que o livro esteja na contramão do que foi típico nos anos anteriores nos romances sobre contatos e possessão alienígena: o extraterreste aqui é totalmente do bem – ao contrário de, por exemplo, Os Invasores de Copos/The Body Snatchers, de Jack Finney, publicado em 1954.

Chocky, que é uma criatura de outro planeta, não tem forma – explicitando nossa dificuldade em lidar com o Outro – e seus conselhos ecológicos parece, muitas vezes, em sintonia com a cultura hippie. Wyndham encontra uma forma muito interessante de explicitar o avanço da outra civilização em relação aos terráqueos: na linguagem. Matthew não é capaz de verbalizar ou compreender tudo o que ela diz, e até quando ela o toma, e “fala” por meio dele, o pai do garoto – narrador do romance e voz da razão – não consegue entender algumas palavras, no livro, grafadas como xxxxxxx.

Steven Spielberg comprou, uns anos atrás, os direitos para adaptar o romance – e é algo que faz muito sentido dentro da obra e dos interesses dele (contato extraterreste, a transformação da criança...) – tanto que ele já fez um filme, que, senão inspirado em Chocky, ao menos, influenciado pelo livro: E.T.

Sula, de Toni Morrison

Por Alysson Oliveira em 18/02/2016
 
É curioso que SULA leve o nome da personagem que custa a aparecer no romance, some, e volta só para fazer o mal. Não deve ser por acaso, claro, que a escritora Toni Morrison (que completa 85 anos hoje) a escolheu para ser a protagonista da narrativa, que acompanha cerca de 50 anos num lugar chamado de The Botton – apesar de ficar no topo de uma montanha – lugar dado a um ex-escravo, porque a terra lá nada valia, e levou esse nome porque quando Deus olha para eles, Ele olha para baixo, e os vê antes dos brancos, por estarem num região mais alta. Esse é o argumento dado ao homem para aceitar a terra. 
 
Sula e Nel se tornam amigas na infância, mas não poderiam ser mais diferentes. Seus destinos se cruzam e se afastam ao longo dos anos. Sula vem de uma família repleta de tragédias e figuras estranhas – beiram algo do realismo mágico -, e é neta de uma avó que enriqueceu de forma inexplicável. Já Nel é de uma família de trabalhadores, e assim continuará para sempre.
 
Narrado de forma episódica o romance vai de 1919 até 1965 – ano do assassinato de Malcolm X, da Marcha de Selma a Montgomery, entre outros acontecimentos importantes para o movimento. É claro que Morrison não escolheu esse ano por acaso. O último capítulo começa “Things were so much better in 1965. Or so it seemed.” Talvez o que a autora queira – com as paixões desenfreadas, os esforços para adaptação social de algumas personagens – é criar uma alegoria para os caminhos de um movimento que está para eclodir no fim da narrativa. Acho que nem sempre ela sucede muito – em seu primeiro romance, THE BLUEST EYE, o resultado é bem melhor. Ainda assim, sua prosa precisa – ao mesmo tempo lírica e cortante –, no entanto, é capaz de transcender gênero, ao mesmo tempo que levanta bandeiras.

A duplicidade nos Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende

Por Alysson Oliveira em 15/02/2016

A voz da narradora de OUTROS CANTOS, novo romance da premiada escritora Maria Valéria Rezende, é sedutora. Seduz com suas idas e vindas entre passado e presente num fluxo de memória e observação. Acompanhamos dois momentos da vida dessa mulher chamada Maria.

 

Quatro décadas atrás foi para o Sertão do nordeste, numa pequena cidade para onde ninguém queria ir, para implementar educação para jovens e adultos. Porém, os tramites legais demoram, e ela trava amizade com os moradores e até trabalha com eles. No presente, essa mesma mulher está numa viagem de ônibus para visitar esse mesmo lugar, e puxa, pelo fio da memória, esse passado e outros mais distantes, na Argélia, México.

 

É nesse diálogo entre o onírico e o real que se constitui a trama narrativa de Outros Cantos. Há uma figura que a acompanha desde sua juventude, quando o conheceu no Rio, e deixou-lhe um pequeno souvenir de sua Harley-Davidson. Ao longo dos anos, ela o reencontrou – e sempre deixa um pequeno objeto. No Sertão não foi diferente. Guarda tudo em uma caixinha, e são suas lembranças mais caras. Sobre essa figura, é claro, pairam dúvidas: existe mesmo, sempre é ele, aqueles objetos foram realmente deixados para ela ou apenas perdidos.

 

Enquanto traça essa jornada pessoal – que beira uma amorosa – Maria Valéria paralelamente retrata as mudança nos 40 anos dessa região esquecida no mundo. São pequenos detalhes – como já ocorria em seu premiado QUARENTA DIAS – que dão conta dessas transformações sociais e culturais. Nesse sentido, chega a ser um livro político, seja no trabalho da professora quando jovem com seu idealismo numa região marcada pelos mandos e desmandos de coronéis e afins, ou pela mudança de um presente em transformação.

 

Outros Cantos se constrói, então, pelas dicotomias de tempo, de ponto de vista (de uma mesma narradora), de um lugar. Faz o retrato de um Brasil em transformação, e todas as consequências – positivas e negativas – disso tudo. A prosa de Maria Valeria é certeira, e seu olhar nos torna cúmplices desse retrato.

Um grande romance russo contemporâneo

Por Alysson Oliveira em 11/02/2016
O romance russo THE BIG GREEN TENT, de Ludmila Ulitskaya (Trad. Polly Gannon), é sobre livros e o seu poder libertador e subversivo. Num dos capítulos, uma jovem, ao invés de mandar o dinheiro para os avós, compra um dos últimos pares de bota numa loja em liquidação. O calçado ficou grande, e para seus pés não ficarem dançando lá dentro, arranca todas as folhas de um livro, faz bolinhas para encher as botas. Horas depois, a KGB está em sua casa em busca de material subversivo de seu padrasto. Revira tudo, e depois de horas, não encontra nada. Quando vão embora, o padrasto espantando diz para a família: “Mas havia um exemplar do Arquipélago Gulag debaixo da mesa?!”, algo que certamente acarretaria em sua prisão. Apenas nós, leitores, e a garotas sabemos do destino do livro. Algo que ela fez de errado acabou salvando sua família.
 
Esse é só um dos exemplos dos episódios domésticos, ao longo de quase 600 páginas, que compõem um painel histórico da vida na Rússia Soviética até próximo de seu desmantelamento. Os protagonistas são três amigos de infância – que se intitulam o Trianon – e suas idas e vindas, desde a época da morte de Stalin. Mas, por boa parte, a autora os deixa fora de cena, dando voz a diversas outras figuras de outros extratos sociais, e com destinos variados.
 
Não são apenas os personagens que ganham um tratamento diferenciado aqui. O tratamento que Ludmila dá ao tempo da narrativa é muito peculiar. Um certo capítulo, por exemplo, pode conter a vida inteira de uma personagem – culminando em sua morte. O que não impede a escritora de dissecar outros episódios dessa figura ao longo da narrativa posterior, causando um efeito de desorientação temporal, que parece cristalizar algo parecido com que ela mesma enfrentou nos passado, quando a União Soviética parecia viver num tempo e ritmo próprios.
 
A estrutura panorâmica do livro lhe dá a chance de investigar a vida, os tempos e o destinos de todos os personagens, até os mais coadjuvantes. É como se todos aqui tivessem um momento de protagonismo e a chance de ir até o proscênio e narrar a sua história.

Uma mulher chamada Olive Kitteridge

Por Alysson Oliveira em 10/02/2016

A protagonista que dá título à série OLIVE KITTERIDGE é uma mulher que todos chamariam de difícil. Sem qualquer trava na língua, egoísta e mesquinha, ela seria insuportável, não fosse a tremenda dose de humanidade que a atriz (e produtora do programa) Frances McDormand traz para ela – algo que já estava presente no “romance em contos”, de Elizabeth Strout, que ganhou o Pulitzer para ficção em 2009.

 

Dirigido por Lisa Cholodenko, a série, em 4 episódios, acompanha alguns anos na vida de Olive, professora de matemática, numa pequena comunidade costeira. O primeiro capítulo começa com ela, com um semblante desesperado, estendendo uma toalha numa clareira, ligando um rádio de pilhas, e preparando um revólver com o qual (aparentemente) irá se matar. A trama, então, votará no tempo para contar o que aconteceu nas últimas décadas para chegar até ali.

 

Deixando completamente de lado, ou tocando de leve, em alguns personagens e tramas coadjuvantes do livro, a série traz Olive como o seu fio condutor, como a observadora e juíza solitária para si mesma daqueles que a cercam. O que dita o ritmo aqui é o fluxo da vida com seus altos e baixos, e momentos inesperados – por isso talvez tanto personagem morre sem muito avisar (especialmente no 1o episódio).

 

Frances que comprou o direito de adaptação do livro assim que saiu está (como sempre) magnífica como essa mulher (aparentemente) sem muito amor no coração, mas que, no fundo, é tão perdida na vida quanto todos os outros que a cercam.

O menino é o pai do homem no romance "Aos 7 e aos 40"

Por Alysson Oliveira em 01/02/2016
AOS 7 E AOS 40 é um livro bonito, um livro que se lê rápido – li numa tarde – com sua prosa fluida e honesta, e, por isso mesmo, parece difícil falar dele. O primeiro romance do contista João Anzanello Carrascoza se constrói em duplicidades, como já implicado no título. Em suas páginas verdes – sim, as folhas são verdes e o texto disposto de forma pouco convencional - constrói dois momentos da vida de um personagem sem nome.
 
Como sabemos, o menino é o pai do homem, e experiências da infância irão reverberar no presente, tudo visto pelo prisma de um narrador que parece bastante familiar com essa figura, mas, ao mesmo tempo, mantém um olhar quase documental. Os capítulos se alternam com títulos como Depressa, Devagar; Dia, Noite; Silêncio, Som, e assim por diante - o que me parece criar uma espécie de amarrar para estabelecer a dinâmica de pontos e contrapontos, que não me parece chegar a um dialética.
 
O que mais me agrada é a prosa seca, quase dura, de Carrascoza que materializa na forma uma ambição de seu personagem, a de “ler as pessoas”. O lirismo do texto vem exatamente da sua contenção, de uma narração que não se desvia, que não se seduz por palavras poéticas. Mais do que de forma dicotômica, o autor constrói a narrativa de forma circular, e ao final, tenta juntar das duas pontas do título.