Letras e fotogramas

2 X Bravura Indômita

Por Alysson Oliveira em 07/02/2011
Cada um tentanto fazer o que o outro faz de melhor
 
Quem faz um bêbado com mais perfeição: Jeff Bridges ou John Wayne? Qual dos dois montam melhor num cavalo? Qual é melhor atirador? John Wayne ganhou um Oscar das mãos de Barbra Streisand por seu trabalho em Bravura Indômita, de 1969. Será que isso se repete mais de 40 anos depois? É pouco provável, mas não por conta da interpretação de Bridges, mas mais porque ele acabou de ganhar o mesmo prêmio no ano passado, por Coração Louco. (Mas que constem nos autos: Bridges é melhor beberrão; e Wayne, melhor montador).
 
Vendo a nova versão de Bravura Indômita, que estreia na próxima sexta, dá pra imaginar o que os irmãos Joel e Ethan Coen devem ter visto no livro original, de Charles Portis, que os atraiu para fazer um novo filme: há sangue (bastante, mas não mais do que em outros filmes deles), também há personagens vivendo no limite do desespero, e, acima de tudo, há aquilo que mais atrai nas filmes da dupla, gente se dando mal.
 
Ao contrário do filme antigo – que está disponível em DVD, e acaba de ser lançado em blu ray, repleto de extras –, no qual reinava um ultrarrealismo em technicolor, na versão 2010, a fotografia (assinada pelo brilhante Roger Deakins) é soturna, carregando nos tons de preto, cinza e marrom. No lugar das planícies verdes e ensolaradas, os campos são secos, cobertos de neve e melancólicos.
 
A trama é praticamente a mesma: garota procura um oficial corajoso, dono de métodos pouco ortodoxos, para encontrar o vagabundo que matou seu pai. A garota foi interpretada por Kim Darby, e era uma espécie de alívio cômico do filme que, com sua ingenuidade, mais parecia uma boba alegre – embora seja uma personagem cativante, especialmente pelo carisma da atriz. Agora, a estreante Hailee Steinfeld encara uma personagem muito mais complexa, e tão dura quanto todos os outros. Não há espaço para inocência – esta foi perdida há muito tempo – e o que sobra é a jornada em busca da vingança.
 
Haillee é uma grande atriz, e sua trajetória em busca de justiça faz lembrar outra personagem: a protagonista de Inverno da Alma, interpretada por Jennifer Lawrence. O que une as duas – em filmes não tão distantes assim – é a ausência da figura paterna, o que as transforma ‘no homem da casa’ – embrutecidas, mas sem perder a doçura, a feminilidade. No novo Bravura Indômita até há espaço para um romance um tanto sutil, que, no antigo, fica enterrado bem nas entrelinhas.
 
Henry Hathaway, diretor do filme de 1969, usa a cor de forma sábia (por isso ganha-se muito vendo o filme num DVD ou BD), mas tem uma visão romântica de toda a situação. Numa das primeiras cenas, três homens são enforcados com seus olhares carregados de dignidade. Já a cena do enforcamento do filme dos irmãos Coen tem outra conotação.
 
A personagem feminina – por mais que Wayne e Bridges sejam creditados como protagonistas – é quem conduz a trama. É ela a heroína em busca de justiça, e não quer que o assassino seja apenas vingado – ele tem de pagar o assassinato onde cometeu o crime. E isso a faz bater de frente com um Texas Ranger que está em busca do mesmo homem, e pretende que seja enforcado no seu estado, onde matou um senador. O personagem é interpretado pelo cantor country Glen Campbell e, na última versão, por Matt Damon –que dão conotações bastante diferentes ao LaBeouf.
 
Cinéfilo que se preze não precisa escolher entre um dos dois filmes. Como qualquer boa obra de arte, Bravura Indômita permite leituras múltiplas e diversas interpretações. Ufa! Até porque é bem difícil escolher entre o beberrão forçado de Wayne, com jeitão de tio bom de papo, e o doido criado por Bridges – aquele cara com quem seria legal sair para caçar e beber.