Letras e fotogramas

O grande épico russo

Por Alysson Oliveira em 02/01/2018
Poucos filmes realmente merecem levar o adjetivo épico – uma palavra tão banalizada no presente. Talvez, entrem na lista O nascimento de uma nação, ... E o vento levou, Ben-hur, Spartacus, Doutor Jivago, e, aquele a que Roger Ebert chamou de “o épico definitivo de todos os tempos”, a versão russa de Guerra e Paz, de Sergey Bondarchuk. Foi preciso um filme de mais de 7 horas – dividido em 4 partes, e pode ser visto como uma série – para captar toda a grandiosidade do romance de Liev Tolstói. O filme foi está disponível em DVD no Brasil.
 
Com orçamento e tempo (foi rodado ao longo de 7 anos), Bondarchuk faz uma obra fiel ao espírito de Tosltói, mas mais do que isso: fiel ao espírito russo do século XIX, que, embora as pessoas, é claro, não soubessem estavam com os dias contados. O diretor - que assina o roteiro com Vasiliy Solovyov – mais do que transitar entre a Guerra e a Paz (campos de batalha x intrigas amorosas em salão de baile) transita entre o pessoal e o político, o movimento da história que invade a vida das pessoas – é bem verdade que essas pessoas aqui são representantes de uma aristocracia, mas, ainda assim...
 
O próprio Bondarchuk assume o personagem mais complexo e complicado aqui, Pierre Bezukhov, um sujeito sem nada de especial, praticamente um covarde que por conta de circunstancias adquire um senso de nobreza de espírito que não se esperava dele. Lyudmila Saveleva é Natasha Rostova, provavelmente a personagem mais graciosamente irritante da literatura, e Vyacheslav Tikhonov, o Princípe Andrei Bolkonsky. Cada uma dessas figuras está ao centro das partes do filme – sendo que um dos segmentos é devotado ao ano de 1812, com a invasão de Napoleão à Rússia.
 
E, num filme tão marcado por personagens masculinos fortes e cenas de guerra imponentes, os mais belos momentos são protagonizados por Lyudmila – que tem formação de bailarina, e não de atriz, e as duas cenas, envolvem de certa forma, a dança. A primeira é sua entrada num grande baile, Natasha não mais que uma adolescente de olhos arregalados e encantada com todas as possibilidades (e erros, especialmente) que a vida tem a lhe oferecer. A segunda, numa hospedaria bastante rudimentar, onde ela faz uma dança folclórica.