Letras e fotogramas

American Honey - disponível na Netflix

Por Alysson Oliveira em 09/01/2017
Magical Mistery Tour
 
Em AMERICAN HONEY, a cineasta inglesa Andrea Arnold (Red Road, Fish Tank, Wuthering Heights) leva seu British Social Realism para o outro lado do Atlântico, e faz uma investigação profunda sobre um extrato da juventude americana. Nas mãos de um outro diretor, ou diretora, haveria um retrato satírico de daqueles jovens chamados de White Trash do meio-oeste. Mas aqui, o olhar é tão carinhoso quando curioso. Quem são essas garotas e garotos? O que o mundo têm a lhes oferecer? As respostas são esboçadas nas quase três horas de duração de um filme que, embora não seja perfeito, é pungente em seu vigor e urgência.
 
Na primeira cena, encontramos Star (Sasha Lane) numa caçamba de lixo procurando comida para ela e duas crianças. Encontram um frango que um dia foi congelado, agora provavelmente passou da data de validade – mas este será o almoço. Não longe dali, passa uma van, com som alto e um bando de adolescentes. Fica claro, para a protagonista, em questão de segundos, que a vida deles é melhor do que a dela. Ela vive com o pai das crianças, que não lhe dá muita atenção – tem nela a babá, a empregada e a parceira sexual que lhe gastariam dinheiro.
 
Esses jovens vivem na estrada, batendo de porta em porta vendendo assinatura de revista (!). Não demora muito, Star é aceita no grupo, levada por um rapaz que é uma espécie de líder carismático, Jake (Shia LaBeouf), por quem ela, claramente, se apaixona. A chefe, no entanto, é Krystal (Riley Keough), uma jovem não muito mais velha do que eles, que não se mistura na van – viaja no seu carro – e puxa o coro com os gritos de incentivos todas as manhãs, antes que eles saíam para o trabalho.
 
Esse é o mundo do empreendedorismo juvenil e ingênuo. Jovens vendendo revistas impressas (!!) para pessoas que nem leem. “Compra para usar como papel higiênico”, argumenta Star a um deles. É um universo pautado por contradições do presente. A cada casa visitada, uma hipocrisia americana é exposta – desde a evangélica com a filha levemente ‘periguete’, até os texanos tentando se aproveitar Star (mas ela não é tonta), a lista é grande.
 
Com fotografia assinada por Robbie Ryan – seu parceiro de todos os longas –, Arnold trabalha, como em todos seus filmes, com uma “janela quadrada” (4:3), o que causa o bem-vindo estranhamento. Aquelas paisagens gigantescas do meio-oeste são fracionadas, e os ambientes fechados se tornam cada vez mais claustrofóbicos. Mas o mais significativo desse aspecto formal é como se, filme após filme, Arndold frisasse o mundo de escolhas limitadas onde suas personagens femininas vivem – e toda sua obra é protagoniza por jovens cujos leques de opções são bastante limitados. Aqui desconhecemos o passado Star – que nome mais bem escolhido -, mas seu presente e futuro são incertos.
 
A trilha sonora (https://www.youtube.com/playlist?list=PLkLimRXN6NKzFXc-iBdhhkUvM6hD7NjRw) é uma constante, e dá o tom à viagem. De Rihana a Razzy Bailye (com seu clássico dos anos de 1970, I hate hate), passando por Lady Antebellum, cuja canção dá título ao filme – envolvendo muito hip-hop.
 
O cinema nem sempre – na verdade quase nunca – tem um olhar carinhoso por espíritos jovens e livres, a tendência é sufoca-los, enquadra-los no sistema. Mas a ideia fora do lugar dos personagens de American Honey é que eles não querer derrubar o sistema, pelo contrário, querem entrar nele sem abrir mão de suas personalidades “rebeldes”. De certa forma, o filme, que estreou no Festival de Cannes (de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri), antecipa a eleição de Donald Trump. A cada nova casa, de um novo possível assinante, parece ter estampado em sua testa Eu voto em Trump. Como sintoma do fracasso dos anos de 1960, American Honey funciona muito bem: a Kombi florida é substituída por uma van moderna; e o lema de paz e amor, por uma espécie de empreendedorismo individual. Mas, o final, quando Razzy Bailye canta os versos “I love love”, soa como uma nota de esperança – assim como vagalumes numa floresta escura.
 
O filme estreou dia 30/12 no Netflix, com o título (bizarro) Docinho da América.