Letras e fotogramas

Um romance mexicano colaborativo

Por Alysson Oliveira em 29/01/2016
Não fosse um tremendo livro, THE STORY OF MY TEETH, da mexicana Valeria Luiselli, já seria interessante por sua concepção. Conforme ela conta num posfácio, o romance é resultado de um projeto colaborativo entre ela e trabalhadores da fábrica de suco Jumex nos arredores da Cidade do México. Ela escrevia os capítulos, mandava para eles, que liam e discutiam, e a gravação era mandada de volta para ela em Nova York, e ela mexia no que já foi escrito, e avançava na narrativa. O processo é todo detalhado, mas ela resume numa fórmula: Dickens + mp3 ÷ Balzac + jpge. O romance é composto, então, por histórias contadas pelos trabalhadores e também imagens, tudo isso moldando pelas mãos e imaginação da escritora.
 
Não bastasse tudo isso, ela escreve muito bem. Acho que uma pessoa de 30 anos (a idade dela quando lançou em 2013) não tem o direito de escrever tão bem assim. Imagina. Mas, enfim, ela escreve, e como em seu Rostos na Multidão prossegue com uma investigação sobre a fragmentação dos nossos tempos. Composto originalmente de 6 blocos, o romance narra a história de Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como Highway, um leiloeiro de sucesso no México, que trocou todos os seus dentes estragados por os de Marilyn Monroe, que ele comprou num leilão. Com sua arcada, fez um outro leilão, dizendo que os dentes são de figuras famosas, como Platão, Petrarca e Virginia Woolf.
 
É fácil entender como as pessoas caem no papo do sujeito, porque ele é bom de conversa, e bom de contar história – e isso fica claro ao longo do romance em 1a pessoa. Ele resgata toda sua trajetória desde funcionário de fábrica de sucos (sim, aquela mesma) até o presente com os (supostos) dentes da diva na boca. Luiselli, por sua vez, investiga um esvaziamento da historicidade simbolizado nos lotes que o protagonista leiloa.
 
A edição em inglês é traduzida por Christina MacSweeney, que também compôs um capítulo final, uma cronologia (tomara que a edição brasileira, prevista para sair ainda esse ano também traga), que não está no original mexicano. Conforme diz a autora no posfácio, ela prefere chamar de versão, ao invés de tradução, pois ela mesma revisa e modifica, junto com a tradutora, ressaltando o carácter colaborativo desde a origem deste romance. 

A Euforia de uma antropóloga

Por Alysson Oliveira em 28/01/2016
Deviam ser interessantes os primórdios da antropologia, quando cientistas procuravam e encontravam uma tribo para chamar de sua, e depois apresentariam ao mundo civilizado a “cultura bárbara”. Em EUPHORIA, a escritora americana Lily King se inspira numa figura importante desse período, a antropóloga Margaret Mead, cujo “Coming Age in Samoa”, de 1928, chocou e confrontou os EUA com seus relatos sobre o amadurecimento sexual de adolescentes da ilha de Ta’u. O que a pesquisadora e essa ciência fizeram foi apresentar ao mundo um modo de vida completamente diferente daqueles que conhecia.
 
A protagonista de King é Nell, jovem antropóloga em viagem com o marido, Fen, quando conhecem Bankson, que também é o narrador. Todos são antropólogos, e todos buscam desvendar mistérios de sociedades “primitivas”. Só ela, no entanto, até agora teve algum sucesso cujo livro causou alvoroço não apenas no meio acadêmico. Esses personagens são inspirados em Mead e seu segundo e terceiro marido.
 
Enfim, quando encontram uma tribo, os três acabam confinados ao mesmo ambiente por algum tempo, e surge uma tensão sexual entre eles. Isso é o que parece pautar a narrativa, mas não é o real interesse da autora. Sua investigação é sobre as dinâmicas sociais e individuas que aproximam e afastam as pessoas, e o quanto o trabalho do cientista social é capaz de perceber isso.
 
King, enfim, busca um paralelo entre a literatura e antropologia no sentido de ambos desvendar arranjos sociais – a primeira, na forma –, e a função do escritor e cientista em meio a tudo isso. O trio cria uma tabela chamada de Grid, no qual dividem as pessoas, as sociedades, as civilizações em 4 tipos. É uma classificação mais pragmática do que reveladora ou analítica. A questão é que mais tarde, contado por um velho Bankson, en passant, o mesmo Grid foi usado pelos nazistas visando a eugenia – o que o fez renegar a tabela, e pedir que fosse removido de todos os lugares onde aparecia.
 
Esse relato final de Euphoria revela, então, as verdadeiras intenções de autora ao questionar os critérios e classificações que determinam o que seria civilizado e o que seria primitivo. E suas consequências, desde as pesquisas dos protagonistas nas comunidades até num plano maior com a ascensão dos regimes fascistas.

Pessoas na multidão

Por Alysson Oliveira em 25/01/2016
“Cuidado! Se brinca de fantasma, em um se transforma”, diz a epígrafe atribuída à Cabala de ROSTOS NA MULTIDÃO, da mexicana Valeria Luiselli. Seu romance polifônico, meio pós-moderno e empolgante vai jogar exatamente com isso: com a vida e a morte, e a morte em vida. Composto de segmentos, o livro acompanha uma escritora-narradora que mora na Cidade do México relembrando sua história de quando morava em Nova York, e se dedicou à pesquisa sobre a vida do obscuro poeta mexicano Gilberto Owen, que mora em Nova York. Ao mesmo tempo, a narrativa – todas em 1a pessoa – acompanha o próprio, enquanto ela mesma tenta escrever um romance meio autobiográfico, meio metalinguístico.
 
A descrição de Rostos na Multidão pode fazer parecer um romance intelectualóide, mas se tem uma coisa que a escritora não tem é pedantismo. Pelo contrário, sua prosa é clara e honesta, e seus jogos narrativos se justificam na medida em que sua trama é em si um jogo entre realidade e ficção, mas, acima de tudo, construção de realidades. Quem é Owen? Quem é essa narradora sem nome que tenta organizar tudo? Seria ela Valeria? Mas existe uma outra narradora que, certamente, escreve uma ficção. Seu livro é como bonequinhas russas, só que mexicanas.
 
Enquanto medita sobre a posição da literatura norte-americana em relação à literatura do centro do capitalismo – especialmente em tempos de World Literature –, a escritora evita todos os clichês que se costuma esperar do “gênero”. Seu assunto não são as drogas, nem a pobreza dessa parte do continente. Nem quando se vale de uma fantasia, se aproxima de García Marquez. Seu realismo mágico é diferente.
 
Já próximo do final do livro, Owen fica obcecado com o fato de que está se transformando num fantasma. Todos os dias se pesa, e sempre emagreceu. Ele não está morrendo. Está sumindo. Evaporando. É a cartada final de Luiselli e da narradora-personagem-escritora sobre a fugacidade das relações humanas e da literatura. O ponto em que o poeta efetivamente desaparece pode ser tão meditado quanto aleatório – tal qual o final de uma narrativa.

Romance francês dá voz aos silenciados de O Estrangeiro

Por Alysson Oliveira em 20/01/2016
THE MERSAULT INVESTIGATION (no francês original, “Mersault, contre-enquête”), do jornalista argelino Kamel Daoud, é, geralmente, chamado de uma releitura de O ESTRANGEIRO, de Albert Camus, mas eu acho que a palavra ‘resposta’ é mais honesta. Publicado na França em 2013, o romance dialoga com a obra original ao contar uma história a partir do ponto de vista daqueles que lá são silenciados. Aqui, o narrador/protagonista/foco narrativo é o irmão do personagem chamado apenas de O Árabe no livro original, que irá contar a história de vida de seu irmão e o que aconteceu com sua família depois do assassinato.
 
A estrutura estabelece um diálogo do narrador com o leitor – que se materializa na figura de um estudante com quem ele conversa num bar (algo parecido com o que Moshin Hamid fez em THE RELUCTANT FUNDAMENTALIST). Num fluxo que combina diversos momentos do passado dele e sua família, ele vai e volta no tempo, e resgata numa intertextualidade discreta a narrativa do Estrangeiro. Daoud não faz de seu romance um espelho do de Camus, não, ele cria uma trama própria, mas que, a partir de agora, deve ser impossível reler o original sem ler este.
 
Escrevendo em francês, Daoud toma a língua do colonizador para si, e faz dela o seu instrumento, esmiuçando um passado colonial, e um futuro e um presente de incertezas. No momento em que vivemos – especialmente com a xenofobia crescente – a voz do autor surge com força, levantando questionamentos e clamando uma revisão histórica.
 
Creio que muita atenção se deu ao livro de Houellebecq, SUBMISSÃO, mas acho que esse, sim, é o livro importante, que merece ser lido e entrar para a posteridade. Está previsto para ser lançado no Brasil ainda esse ano.