Letras e fotogramas

Um livro triste e necessário

Por Alysson Oliveira em 29/01/2015
Achei “K”, do Bernardo Kucinski, um livro triste, doloroso, mas, ao mesmo tempo, muito necessário. No romance, o autor acompanha a jornada de seu pai, o K. do título, em busca de uma filha, Ana Rosa Kucinski, que desapareceu durante a ditadura sem deixar qualquer vestígio. Ela era professora de química na Universidade de São Paulo, e de repente parou de ir ao trabalho, não atendia às ligações do pai. Quando ele a procura na USP, descobre que há dias não aparece. Isso é contado por uma colega de trabalho, de forma sussurrada, do lado de fora do prédio.
Em sua jornada K descobre que pouco sabia sobre a vida da filha, e seu envolvimento com política, e até mesmo seu casamento. As revelações sobre a moça são, ao mesmo tempo, uma exposição sobre a situação do Brasil da época.
 
Tentando dar conta da totalidade, o foco narrativo do romance transita entre diversos lados da história (algumas nem diretamente ligadas a K) – dando voz não apenas à moça (numa carta), como também o famoso delegado (e conhecido torturador) Fleury, entre outros. O capítulo do Fleury, aliás, é um dos mais duros da literatura nacional. Composto de pequenos monólogos dele, vemos uma amostra da crueldade de que era capaz com uma tortura psicológica. Outro capítulo difícil: a reunião da congregação da Química, na qual decidirão se a professora será demitida por abandono do trabalho.
 
Essa busca pela totalidade sempre escapa – há sempre um lado que fica faltando, e isso não é um “problema” do romance ou de seu autor, mas mais da espinhosidade do tema, da contenção do fato de ainda não sabermos de tudo o que aconteceu – apesar de intuirmos boa parte do que é desconhecido.
 
Kucinski deixa claro que tudo isso é ficção – embora esse capítulo seja guiado pela ata da reunião -, mas ao mesmo tempo seu pé está fincado na realidade, e em fatos e pesquisas que conhecemos. Conhecemos – mas nem todos nós aparentemente. Vide muitos dos comentários no quando da divulgação do relatório da Comissão da Verdade. São comentários como aqueles que fazem de “K” um livro imprescindível.

Duas cidades e um grande romance

Por Alysson Oliveira em 22/01/2015
The City and The City, já lançado aqui como A Cidade e a Cidade (pela Boitempo), é uma das coisas mais sofisticadas e complexas que se pode ter. China Mieville é um dos grandes escritores do nosso tempo – e nem entro na questão de gênero: SF, weird fiction, que não importa aqui. Ele é grande, e ponto. Ele é um escritor de geografias, de construção e ocupação de espaços – e, nesse sentido, cria universos próprios que são uma versão distorcida, aumentada do nosso próprio. Aqui a geografia são duas cidades que ocupam exatamente o mesmo espaço. Custa um pouco a entender – e nem sei se entendemos mesmo a dinâmica. Beszel é melancólica, decadente, enquanto Ul Qoma é vibrante, repleta de vida e perspectivas. Quando um corpo de uma mulher é encontrada na primeira, um detetive local começa a investigar, e percebe que o assassinato envolve o trânsito entre as duas cidades. Há também um poder pouco conhecido, chamado de Brecha (nome mais sugestivo!), que monitora as ações entre as duas cidades.
Cada pessoa que vive numa delas não pode ver os cidadãos da outra, nem as ruas, nem transitar – é preciso passaporte e visto. Quando eventualmente vê alguém, é preciso “desver” – surge aí o paradoxo como ignorar aquilo que já se tem ciência? Ver alguém é um crime. Acho que é nesse paradoxo que a trama caminha: como lidar com o outro, como aceitar. A narrativa segue mais ou menos os moldes de procedimento policial, e encontre uma trama sórdida de fundo político.
Acho TC&TC tão complexo e bonito quanto Perdido Street Station – meu livro favorito do ano passado. Aqui, o romance é uma mistura de Philip K. Dick com John le Carré, e em si faz uma observação sobre a necessidade de convivência com o outro – ao contrário de algumas de suas obras mais famosas, os personagens não são pós-humanos, alienígenas ou que seja, são todos humanos, o que só faz do livro algo mais contundente.