Letras e fotogramas

“Sob o Sol de Satã”: Tudo de novo sob o sol

Por Alysson Oliveira em 17/01/2011
O romancista francês Georges Bernanos (1888-1948) é mais conhecido pelas adaptações literárias de suas obras. “Diário de um Pároco de Aldeia” (1951) e “Mouchette, A Virgem Possuída” (1967) – ambos de Robert Bresson – e “Sob o Sol de Satã” (1987), de Maurice Piallat, que rendeu à França uma das Palmas de Ouro mais polêmicas do Festival de Cannes. Longe das livrarias brasileiras e raros nos sebos, os livros do escritor, que morou em Barbacena (MG), ganham novas edições publicadas pela É Realizações, que pretende relançar toda a obra.
 
O primeiro da lista é o romance de estreia de Bernanos, “Sob o Sol de Satã” (É Realizações, 320 p, tradução Jorge de Lima, R$53), publicado em 1926. Escritor católico, ele nunca fez de sua obra panfleto de conversão religiosa, nem tampouco transformou personagens em figuras míticas (ou até místicas). Logo em seu primeiro livro acontece um embate entre um padre e o diabo.
 
Um padre de uma pequena aldeia duvida de sua vocação religiosa e enquanto anda por uma estrada encontra o próprio Satã. Donissan é o protagonista, um padre querido na sua região, mas que no fundo é uma figura atormentada – a primeira da coleção de Bernanos de personagens consumidos por conflitos internos.
 
Já no prólogo de “Sob o Sol de Satã” conhecemos Mouchette – que mais tarde será tema de outro livro. Jovem adolescente do campo que engravida de um marquês, acaba o matando e seduzindo um médico para que ele lhe faça um aborto. O corpo, tanto dessa personagem quanto de Donissan, passa por provações. Ele é adepto de práticas condenadas até por seus superiores. Acredita que, talvez, pelo sofrimento da carne possa estar mais perto do Paraíso. Donissan ganha status de um santo vivo na sua aldeia, e, graças a algumas de suas ações, essa posição só tende a ganhar força.
 
Os temas que serão caros à obra de Bernanos começam a ganhar contorno nesse “Sob o Sol de Satã”. O conflito espiritual entre o bem e o mal – o divino e o mundano – são capazes de guia o destino dos homens. Quando os caminhos de Donissan e Mouchette se cruzam, é que o escritor traz para suas páginas um grande embate. Tão grande, que Piallat, em seu filme, parece não ter conseguido o captar muito bem.

“Uma Viagem à Índia”: Navegar sempre será preciso

Por Alysson Oliveira em 04/01/2011
 
Numa época em que o verbo ‘navegar’ adquire outra conotação diferente daquela das Grandes Descobertas dos séculos XV e XVI; e em que as pessoas se contentam em expressar suas opiniões, sentimentos e pensamentos em apenas 140 toques o português, de origem angolana, Gonçalo M. Tavares ousa escrever um livro de mais de 400 páginas em verso – aos moldes de “Os Lusíadas” – mas sem negar a modernidade. “Uma Viagem à Índia” (480 pg; Editora LeYa; R$44,90), lançado no Brasil no final do ano passado, é uma espécie de cruzamento entre Camões e James Joyce, o encontro do clássico com o século XX.
 
Escritor ambicioso, na literatura de língua portuguesa contemporânea, Tavares ocupa um lugar especial. Suas séries de livros são densas e estimulantes, e os títulos, enganadores. “Jerusalém”, seu livro mais conhecido e premiado, não é sobre a cidade, nem sobre um lugar, mas sobre um estado de espírito. O título vem de um salmo bíblico: “Se eu te esquecer, Jerusalém, que paralise a minha destra. Colada fique a minha língua ao céu da boca se eu não te recordar, e se eu não erguer Jerusalém acima de minha alegria”. Em “Uma viagem À Índia”, ele não faz por menos.
 
O livro é divido em dez cantos e tem a disposição de um longo poema, sem nunca ser um poema. Não há qualquer elemento formal, como rimas, estrofes e versos, e a escrita não é bem poética – é crua, direta. Esse esquema formal quer indicar o aspecto épico do livro, mas, no fundo é uma releitura – uma espécie de paródia, não num sentido negativo – de Camões. Essa é a grande ironia do livro:
 
“Por cima da catástrofe, de um ponto de vista aéreo,
o homem é capaz de ironizar,
porém, já debaixo da catástrofe,
debaixo de seus escombros,
a ironia será a última a aparecer
depois da acção instintiva de defesa,
do desespero que ainda emite ordens e tentativas,
e do último grito que assinala o fracasso”
 
O protagonista, Bloom (o mesmo nome do protagonista de “Ulysses”) foge. Foge não apenas de uma cidade, Lisboa, seus amigos e conhecidos, mas foge da chama que o consome: um duplo homicídio. Uma pessoa próxima a ele foi assassinada, e ele a vingou. A trajetória do personagem, passando por diversas cidades e conhecendo pessoas, abre seus olhos para uma espécie de verdade universal: todo mundo é igual, não importa onde.
 
“Uma Viagem à Índia” é uma espécie de romance conceitual, que, ao final, inclusive traz gráficos. É uma leitura desafiadora, quase do tamanho da ambição de Tavares. Se ele nem sempre sucede em suas aspirações – o formato de poema, por exemplo, nem sempre se justifica -, mas, ainda assim, o autor é capaz de mapear alguns dos males do homem contemporâneo com maestria, e mostra que, enquanto existir a humanidade, navegar será o nosso destino.