Letras e fotogramas

Já não será possível saber mais sobre Holden Caufield

Por Alysson Oliveira em 28/01/2010
“Se você realmente quer saber, a primeira coisa que você quer saber é onde eu nasci.”, Assim começa a saga de Holden Caulfield, o depressivo protagonista de “O Apanhador em Campo de Centeio”. Agora, não será possível saber mais sobre o rapaz – ao menos pela fonte oficial. Morreu hoje o seu criador, o norte-americano J. D. Salinger (Jerome David Salinger), aos 91 anos de idade - completados no último dia 1o. Segundo comunicado oficial divulgado pela Associated Press, ele morreu de causas naturais.
 
Holden pode ser o personagem mais conhecido do autor – que publicou apenas quatro livros, sendo “Apanhador”, seu único romance – mas a galeria de criações inesquecíveis é vasta. Basta pensar nos irmãos Franny e Zooey (e o sua inigualável prece, “Senhor Jesus, tenha pena de nós”), ou toda a família Glass, cujos membros aparecem em diversos contos, entre eles a obra-prima “Um dia perfeito para o peixe banana”, primeiro conto do “Nove Estórias”.
 
A última publicação de Salinger foi em 19 de junho de 1965, um conto na New Yorker, chamado “Hapworth 16, 1924”. Desde então, ele se tornou a celebridade literária mais reclusa do mundo, e pouco se sabe sobre a vida dele nesses mais de 40 anos. No ano passado, o escritor se envolveu numa polêmica quando seu agente entrou na justiça norte-americana tentando impedir a publicação nos Estados Unidos de uma sequência não-autorizada de “Apanhador”, escrita pelo sueco Fredrik Colting, que publicou sob o pseudônimo de John David California.
 
Durante sua vida, Salinger protegeu de todas as formas possíveis seus escritos e autorizou pouquíssimas adaptações para o cinema. Segundo o jornal The New York Times, até Steven Spielberg tentou comprar os diretos de “Apanhador”, mas foi em vão. Resta agora saber se a pessoa que herdar os direitos de sua obra irá manter essas restrições do escritor ou se vendará os direitos de adaptação para o primeiro que aparecer.
 
Ainda assim, alguns filmes, embora não sejam baseados nos trabalhos do escritor, são claramente influenciados pelo seu universo. Um deles é “Os Excêntricos Tenenbaums”, de Wes Anderson, sobre uma família intelectualmente brilhante, mas cheia de problemas emocionais – nada muito diferente da criação de Salinger, a família Glass. Ele, aliás, prometia um longo romance – por longo entenda-se mais de mil páginas – sobre esse clã. Não publicou, no entanto. Ou, como aconteceu com Nabokov há pouco – cujo inacabado “Laura – Morrer é divertido” foi publicado no ano passado – alguém pode encontrar um manuscrito inacabado e decide capitalizar em cima.

10 coisas que aprendi com a versão brasileira de High School Musical

Por Alysson Oliveira em 22/01/2010
Canta, canta, minha gente...
 
Assisti a High School Musical: O Desafio numa sessão para a imprensa hoje e aprendi algumas coisas com o filme:
 
- Wanessa Camargo estudou na High School Brasil. Depois de formada, quando não está cantando, ela usa seu tempo livre (que não é pouco) para dar conselhos pedagógicos, musicais e sentimentais aos alunos da instituição.
 
- Sempre é bom andar por aí com roupas da manga bufante. Nunca se sabe quando te chamarão para substituir a Julieta na pecinha da escola.
 
- Se você é uma atriz com mais de vinte anos, por mais que se esforce, faça caras e poses de ingênua, jamais conseguirá se passar por uma personagem de 16 anos. Já se você é um ator de 18 anos, interpretando um personagem de 17, cercado por outros atores na faixa dos vinte, você vai parecer, no mínimo, deslocado.
 
- Os alunos da High School Brasil são os únicos do mundo que vão felizes e serelepemente saltitando e cantando para o primeiro dia de aula.
 
- Há apenas dois professores na High School Brasil. Nenhum deles, no entanto, dá aula. Mas um único aluno tem que fazer prova de matemática.
 
- Se você é uma patricinha má, seu figurino invariavelmente deve ser cor-de-rosa e também deve incluir um 'look' inspirado em Sula Miranda – com direito a chapéu e tudo.
 
- Ex-atores globais, como a cigana Dara, que andam sumidos da televisão, matriculam seus filhos na High School Brasil.
 
- Se o seu namorado a deixou esperando na porta do cinema, para matar o tempo vá à loja de roupas que patrocina o filme e fique parada na porta. Quem sabe ele aparece.
 
- O protagonista do filme só usa camisetas com gola em formato V. Porém, essas não são nada boas para microfones de lapela. Dá para notar toda vez que ele está usando um.
 
- Todos os alunos de High School Brasil têm o mesmo nome dos atores que os interpretam. Deve ser para não causar confusão. Ou para confundir as fãs mesmo.
 
A lição mais vailosa, no entanto, foi: a teoria da relatividade. Perto de High School Musical – O desafio, Nine parece até um filme de Fellini.

De algum lugar, Fellini deve estar dando gargalhadas

Por Alysson Oliveira em 21/01/2010
Guido - 8 e meio
Guido... o verdadeiro, não aceite imitações, especialmente as musicais
 
De algum lugar, o grande Federico Fellini deve estar rindo, ou melhor, gargalhando, com mais uma tentativa (em vão) de emularem seu estilo, de ‘adaptarem’ a sua obra. O filme em questão é Nine (o título vai em inglês mesmo, o distribuidor não quis traduzir, talvez para evitar alguma confusão com a animação 9 – A salvação, lançada em cinemas no ano passado e já em DVD). Dirigido por Rob Marshall, coreógrafo que virou diretor com o premiado musical Chicago, o novo longa adapta (na falta de palavra melhor)  8 ½ - uma das maiores obras da carreira de Fellini, cheia de grandes obras.
 
Nine era, originalmente, um musical da Brodway, montado no começo dos anos de 1980 e remontado há alguns anos. Na versão original do palco, o protagonista, o cineasta Guido Contini era vivido por Raul Julia, o Gomez da série de filmes A Família Adams. O verdadeiro Guido (cujo sobrenome era Anselmi) foi imortalizado por Marcello Mastroianni. Nem entro no mérito se 8 ½ era biográfico ou não – até porque devia haver muito de Fellini no personagem, sim – mas é um dos melhores filmes sobre cineastas, ou então, sobre crise criativa e pessoal. Aqui, Guido é interpretado por Daniel Day-Lewis com um sotaque italiano pra lá de esquisito.
 
Nine deve estrear no Brasil na próxima semana e os produtores – especialmente a dupla de irmãos Harvey e Bob Weinstein – esperam/acreditam que o filme será um dos finalistas do Oscar nas principais categorias. É bem provável que concorra ao prêmio principal, afinal a tal Academia resolveu que a partir desse ano dez (!) títulos concorram ao prêmio de melhor filme. Como se em um ano Hollywood fosse capaz de produzir 10 filmes que merecessem algum prêmio, enfim...
 
Quando vi Nine ontem na sala de projeção no escritório da Sony não consegui gostar muito do filme – na verdade, exceto por Marion Cotillard, nada mais vale a pena. As músicas me irritaram.O engraçado é que hoje, ouvindo a trilha no computador, eu passei a gostar um pouco mais delas – ainda assim as acho muito fracas. É impossível comentar, no entanto, as coreografias. Marshall, sabe-se lá porquê, não deixa um plano durar mais do que 5 segundos. Eu fico me perguntando, pra que tanto trabalho em bolar coreografias, ensaiar, montar cenários, figurinos e rodar as tomadas se vai ser praticamente impossível ver qualquer coisa direito. Acho que Marshall já havia feito algo similar no premiado Chicago, mas lá, pelo menos, a história era carregada de um cinismo que aqui não há.
 
Marshall pode até tentar, mas nunca chegará perto do talento do coreógrafo e cineasta Bob Fosse- um dos criadores de Chicago e diretor de filmes como Cabaré. Esse, sim, foi capaz de adaptar para o cinema um musical baseado em Fellini (Charity, Meu Amor, baseado em Noites de Cabíria). Mas ele era um cara realmente talentoso – basta dar uma olhada em All That Jazz (disponível em DVD), um dos poucos musicais a ganhar uma Palma de Ouro em Cannes, além de outros prêmios, como Oscar de Melhor Filme.

Fecham-se os olhos que desvendaram com a simplicidade a vida e o amor

Por Alysson Oliveira em 11/01/2010
 
 
Como todo mundo, fui pego de surpresa com a morte do cineasta francês Eric Rohmer. Desde os anos de 1990 eu ouvia falar dele, e lia sobre seus filmes, mas só fui poder vê-los quando o Estação os lançou no finado Top Cine, em São Paulo. Aliás, parece que fizeram tanto sucesso que num período de uns cinco anos, todos chegaram ao cinema – mesmo com um atraso de algumas décadas. O melhor é que praticamente tudo está disponível em DVD.
 
O meu preferido sempre foi Minha noite com ela – mas, há pouco tempo, revendo O Raio Verde (foto), acho que o posto de Rohmer que mais adoro tem que ser dividido entre os dois. Nem entrarei no mérito dos longas das Quatro Estações – porque aí o posto terá de ser dividido entre 6 filmes...
 
O que eu mais gosto nos filmes dele é como tudo é muito simples, como os personagens são tão reais, tão próximos de gente-como-a-gente. E estão em busca de coisas simples – a maioria deles busca alguém para amar e ser amado. Em seus filmes, Rohmer trabalha com miniaturas e por meio delas consegue captar diversas nuances do ser humano. Isso me lembra muito a literatura de Jane Austen, autora de livros como Persuasão e Orgulho e Preconceito. Os personagens dos dois, Rohmer e Austen, são como pequenas bonequinhas de porcelana que eles pintam a mão, cuidando de cada mínimo detalhe e por isso são tão atemporais e poderiam viver em qualquer lugar do mundo.
 
Não é raro ter momentos em que me lembro de Delphine – e até me identifico com ela- a protagonista indecisa de O Raio Verde. Ela nunca sabe muito bem o que quer, e vai de um lado para o outro em busca daquilo que nem sabe o que é. O que ela parece não querer é ser uma conformista, ficar parada. Mas ela é muito indecisa, muito volátil, muda de ideia a toda hora. Muita gente – mas muita mesmo – vai a chamar de chata. Eu a chamo de humana, de real, de palpável. A personagem foi interpretada por Marie Rivière – constante colaboradora do cineasta que nesse filme, especialmente, é creditada como corroteirista.
 
Certamente vou sentir falta dos filmes desse grande cineasta. Há uns três anos, a Cinemateca, em São Paulo, fez uma retrospectiva bastante abrangente – praticamente tudo existe em película, e foram lançados em cinema. Quem sabe alguém não se anima a fazer um novo ciclo que, desta vez, inclua Les amours d'Astrée et de Céladon, inédito em circuito no Brasil. Em tempo, coincidentemente, o cinema HSBC Belas Artes (SP), promove um ciclo com os filmes das Quatro Estações no mês de janeiro. Na semana passada foi Conto de Verão. Agora, em cartaz Conto de Outono, até a próxima quinta. Depois vem Conto de Inverno (de 15 a 21 de janeiro) e Conto de Primavera (de 22 a 28). Mais informações, no e-email cineclubehsbc@cinemabelasartes.com.br