Letras e fotogramas

Até que a morte do líder os separe: HQ A morte de Stalin

Por Alysson Oliveira em 08/08/2017
 
O escritor Fabien Nury e o ilustrador Thierry Robin foram muitos feliz na escolha do tema para os quadrinhos A MORTE DE STÁLIN (Trad. Paulo Werneck; cores: Robin e Lorien Aureyre), um fato um tanto obscuro da história, envolvendo uma das figuras mais importantes do século passado. Mais do que Stálin em si, o que interessa à dupla são os eixos da história se movendo e as intrigas políticas pessoais que seguem às horas da morte do “pai do povo”.
 
Há, obviamente, um enfoque político na obra dos franceses, mas é pela chave satírica que esse se dá, o que a faz extrapolar no espaço e tempo – indo além da União Soviética de 2 de março de 1953, quando Stálin morreu, e sua morte foi declarada dois dias depois. É nesse período que explodem disputas, erros e uma tragicomédia (com momentos constrangedores) pela disputa do poder.
 
Figuras-chave do episódio, como Nikita Khrushchev, Lavrenty Beria, Geórgiy Malenkov, Nikolai Bulganin, além dos filhos Vasily e Svetlana Stálin, dão o ar da graça nas páginas desenhadas por Robin que carrega nos traços para ressaltar o que há de mais grotesco em cada um – especialmente políticos – com a possibilidade de ascensão ao poder, ou da perda dos privilégios e proteção.
 
Visualmente, a HQ é rica em detalhes, e poderosa em seu enfoque que transita entre o pessoal e uma epopeia de erros. A parte mais bonita e que bem resume todo o livro está no começo do segundo capítulo, no qual a página da esquerda mostra detalhes do corpo de Stálin sendo preparado para o funeral, e na seguinte, o caixão vermelho e luxuoso é mostrado em plongée. O próprio Nury credita a ideia toda a Robin, e define como “uma ironia visual discreta mas [...] esplêndida”. E a cena dá um momento de protagonismo a Stálin, de quem tanto se fala no livro, mas que, obviamente, pouco aparece.
 
Há liberdades ficcionais aqui – especialmente no bem-sacado prólogo, que traz a causa mortis (dentro do universo ficcional da HQ) de Stálin – mas dado o pouco que realmente se sabe (a história oficial, como de qualquer país, é muito maquiada, filtrada), as coisas podem ter acontecido de várias maneiras – até como Nury e Robin imaginaram.

Ninguém nasce escritora: Um anjo em minha mesa, de Jane Campion

Por Alysson Oliveira em 07/08/2017
Em UM ANJO EM MINHA MESA, Jane Campion mergulha com coragem e profundidade numa porção de temas e questões que já estavam presentes em suas obras anteriores, mas que, aqui, finalmente se materializam com maturidade, fazendo parecer que até então, por ótimos que fossem seus filmes, era um ensaio. A vida da escritora neozelandesa Janet Frame serve com a bússola a essa investigação do papel da mulher (especialmente da mulher artista) numa periferia do capitalismo.
 
Campion, que assina o roteiro com Laura Jones, a partir de um trio de biografias de Frame, coloca ao centro uma mulher se tornando escritora – o que ecoa, de certa forma ampliando, a célebre frase de Simone de Beauvoir - aqui: “Ninguém nasce escritora, torna-se escritora”. O processo de aprendizagem, formação de subjetividade e de encontrar seu lugar no mundo foi doloroso para Frame, nascida em Dunedin, em 1924, e viveu lá até sua morte, em 2004.
 
Com fotografia assinada pelo inglês Stuart Dryburgh (O Piano, A Grande Muralha), Campion trabalha com cores saturadas, o que dá um brilho e destaque especial à cabeleira vermelho-fogo de Frame desde a infância. Numa das cenas mais bonitas, uma amiguinha pergunta se pode tocar nos cabelos, e ela, claro, deixa.  A paisagem neozelandesa também se destaca criando um ambiente que ora oprime, ora liberta.
 
A vida da escritora é contada desde sua infância, e uma das primeiras imagens do filme é uma bebê deitada no sol quando a mãe num vestido colorido vem em sua direção. Nesse momento, a câmera se torna subjetiva, e a mulher vem “em nossa direção”. Dessa forma, Campion deixa claro: essa não é apenas a história da vida de Frame, mas é a história da vida de Frame contada por ela mesma. É um ponto importante aqui, pois a diretora dá direito de voz a uma voz que foi sufocada por anos.
 
Frame foi erroneamente diagnosticada com esquizofrenia, e internada numa clínica, onde recebeu eletrochoques. Ela publicou seu primeiro livro, uma coletânea de contos, em 1951, quando ainda estava internada, e é de se imaginar o quanto a escrita não a ajudou a colocar suas ideias no lugar e sobreviver a essa calvário.
 
A personagem é interpretada por Alexia Keogh, Karen Fergusson e Kerry Fox, em cada momento de sua vida, e, fora a semelhança física, o trio de atrizes é capaz de compor um retrato coeso de uma mente brilhante sufocada, em diversos momentos, por adversidades. Cada experiência conta, de uma maneira ou de outra, na sedimentação da subjetividade da escritora que servirá de material para seus textos.
 
Campion encontra em Frame e sua obra uma parceira – especialmente nos temas – para discutir o papel da mulher na sociedade – um das ansiedades de sua filmografia – e todas as imposições que vêm com isso. A questão é arrebentar as amarras, e se encontrar, se fazer mulher, e, aqui, no caso, escritora também. 

O Édipo de Sam Shepard

Por Alysson Oliveira em 07/08/2017
Talvez 2017 seja o ano em que autores de língua inglesa reescrevam clássicos gregos. Colm Tóibín (House of No Names), Natalie Haynes (The Children of Jocasta), David Vann (Bright Air Black), Kamila Shamsie (Home Fires) partem de tragédias gregas criando uma ponta entre passado clássico e o presente, e reverberando aqui o que foi dito lá. Em sua última peça (originalmente encenada na Irlanda, em 2013), Sam Shepard faz uma espécie de experiência pós-moderna com Édipo em A PARTICLE OF DREAD (OEDIPUS VARIATIONS), lançada em forma de livro este ano.
 
A dualidade é o que marca o texto, que tem como cenários a Grécia Antiga e o deserto da Califórnia. Édipo também é Otto, assim como Jocasta é Jocelyn, e Tirésias é Tio Del. A trama mantém-se fiel, à medida do possível, ao original, na qual uma profecia diz que Édipo matará o pai, e se casará com a mãe. Tentando evitar isso, o pai, Laio, tenta se livrar da criança, e o que vem depois é mais do que conhecido.
 
Mas é a questão da identidade e o destino que ganha mais força aqui. Quando Édipo tem dúvidas existencialistas sobre quem ele é, Jocasta lhe responde: “Seu tormento não conhece limites! [...] Aprenda a amar a tinta negra a sombra de tinta negra da morte tanto quanto você ama a luz do alvorecer”.
 
Shepard, porém, não está amarrado à trama original, como o próprio título indica, são “Variações” sobre um tema, então, o dramaturgo tem espaço para criar sobre as possibilidades – flertando especialmente com as tramas de detetive e o gore – dá a sensação de haver sangue para todo lado. A particle of dread pode não atingir o mesmo potencial dos melhores textos de Shepard. Mas uma peça de Sam Shepard é sempre uma peça de Sam Sherpad, e vale muito.
 

Sweetie, de Jane Campion: O lado selvagem do ser

Por Alysson Oliveira em 31/07/2017
 
As protagonistas dos longas de Jane Campion são mulheres vivendo em situações limítrofes que em algum momento irão se dissolver e as levar para “passear no lado selvagem”, para citar Lou Reed. O que varia é a intensidade da selvageria de cada um e aquela que elas irão enfrentar, mas, em algum momento, a família burguesa não será mais capaz de conter tudo aquilo que essas mulheres acumularam por anos – seja de frustrações, sufocamentos, sublimações.
 
SWEETIE, segundo longa da diretora (e primeiro dela a ser lançado em cinema), talvez seja o mais radical nesse quesito do passeio pelo lado selvagem. As protagonistas são uma dupla de irmãs vivendo uma relação conturbada de amor e ódio. Kay (Karen Colston) consulta uma vidente que diz que o amor de sua vida trará uma interrogação no seu rosto. Pouco depois vê Louis (Tom Lycos), em cujo rosto um cacho de cabelo forma uma ponto de interrogação com a pinta que tem acima da sobrancelha. O amor chegou para ela!
 
Junto do amor retorna também sua irmã Dawn (Geneviève Lemon) – também conhecida como Sweetie. O primeiro contato entre as duas acontece quando Kay encontra sua casa invadida, e dentro dela, em sua cama, sua irmã e o produtor musical/namorado dela. Sweetie é uma aspirante a cantora e atriz.
 
A tensão entre as duas – que parece algo antigo e que nunca será capaz de ser resolvido – só acirra, e o pai (Jon Darling) delas vem para tentar uma saída para tanto problemas. Mas a disputa se acirra, e uma vive para infernizar a outra. Cada um tem os seus problemas, mas todos parecem convergir a Sweetie, que se comporta como uma criança grande tão vulnerável quanto insensata.
 
Campion, que assina o roteiro com Gerard Lee, tem um olhar carinhoso para cada uma das pessoas-problemas desse filme. Sem fazer julgamento, apenas acompanha a derrocada da falsa serenidade dessas vidas conturbadas pela (re)entrada de Sweetie. Há uma certa selvageria também na maneira de filmar, que não se contenta com enquadramentos convencionais, e das imagens estranhas nasce um reenquadramento das próprias personagens.
 
A dinâmica familiar nunca é suave, é sempre aos trancos e barrancos porque tudo irradia de Sweetie, e não teria como ser de outra forma. O lado selvagem dessa protagonista explode na reta final do longa. É um momento repleto de rebeldia, mas também melancolia. É um instinto selvagem de sobrevivência que jamais poderá ser domado.

Two Friends, de Jane Campion

Por Alysson Oliveira em 24/07/2017
O primeiro filme de Jane Campion, TWO FRIENDS (1986), poderia ser classificado como um cruzamento entre Sofia Coppola e Mike Leigh. Da primeira, as dores do crescimento, jovens moças enfrentando experiências que as amadurecerão. Do inglês, a textura social de uma classe média baixa e trabalhadora. Feito para televisão australiana, mas lançado em cinema na década de 90, depois de o sucesso de O Piano, o longa traz em si os temas e ansiedads que permearão a obra da cineasta.

Campion trabalha com um roteiro original da grande escritora australiana Helen Garner, que, na década de 1970, foi professora numa escola secundária e demitida depois de responder aos alunos suas perguntas sobre sexualidade. Possível dessa experiência com jovens, a autora tirou o material para esse drama que tem ao centro a dissolução da amizade de duas adolescentes, que mudarão de escola.

Kelly (Kris Bidenko) e Louise (Emma Coles) moram no subúrbio de Sidney, e são amigas desde sempre. Estudam na mesma escola, saem juntas para paquerar, passam a noite uma na casa da outra. Agora, se preparam para entrar numa prestigiosa escola, na qual as aulas usam uniformes e participam de um coral madrigal. O padrasto de uma delas, no entanto, proíbe a menina de se matricular: “essas garotas estão na idade de estudar rock and roll, não madrigais”, decreta ele, tachando, não sem razão, a escola de elitista. O mundo das meninas desaba.

A entrada ao mundo adulto na obra de Campion é doloroso para as mulheres, e isso não acontece necessariamente na adolescência, pode ser tardio – e hoje, podemos (re)colocar Two Friends em perspectiva. A menina de O Piano, que é a tradutora da mãe, Isabel Archer, em Retrato de uma mulher; a garota envolvida com um culto religioso, em Fogo Sagrado; a professora na mira de um assassino, em Em Carne Viva; e, por fim, a jovem apaixonada pelo poeta moribundo, em Brilho de uma paixão. Em diferentes épocas e contextos, as personagens de Campion precisam lidar com um mundo que limita suas escolhas, mas não sua  percepção dele. É daí que nasce a rebeldia – nem sempre compreendida.

Two Friends trabalha o tempo de maneira fragmentada. Primeiro vemos que a amizade irá terminar, mas, só depois como e porquê. Nesse sentido, o filme termina com uma nota de otimismo momentâneo. Como se dissesse “um problema de cada vez”. E talvez esse mesmo seja o mantra das heroínas da diretora.

"Um Pai de Cinema": Vivendo por inércia

Por Alysson Oliveira em 21/07/2017
 “Eu quero ser protagonista de minha própria vida”, diz uma personagem num momento climático do romance – na verdade está mais para um conto longo ou novela – UM PAI DE CINEMA, do chileno Antonio Skármeta (Trad. Luís Carlos Cabral), e que Selton Mello acaba de adaptar para o cinema. A frase dela, no entanto, resume bem o sentimento de todas as figuras que transitam pelas páginas do livro – especialmente o narrador-“protagonista” Jacques, um jovem professor numa pequena aldeia frustrado com absolutamente tudo em sua vida.
 
Todos na trama são de certa forma coadjuvantes em busca de um protagonista ou protagonismo deles mesmos que nunca aparece, por isso transitam de um lado para o outro, vivem praticamente por inércia. Jacques se formou na capital como professor, e no mesmo trem que volta para casa, seu pai vai embora para e pretende voltar para sua terra natal, a França. A vida do rapaz, sem muitos alicerces, desmorona. Nada o agrada, os alunos o desanimam; a sua virgindade o consome; e o lugar onde mora o sufoca. Mas ainda assim, ele praticamente não tem iniciativa para mudar nada disso.
 
Acompanhamos seu cotidiano em capítulos curtos e uma prosa direta e poética. Sabemos bastante sobre esse jovem, mas muito pouco sobre as outras pessoas, e tudo vem filtrado pelo seu olhar, o que se transforma na maior contenção da narrativa. Talvez seja a visão de macho latino inconsciente ou propositadamente (o que faria do livro algo sintomático) trazida à tona pelo escritor, mas os personagens são quase destituídos de nuance. Todas as mulheres são ou tolas ou mesquinhas (a algumas o narrador guarda algo ainda pior), enquanto todos os homens (ah, esses coitados sofredores!) são mártires e heróis, pois mais discutível que seja o comportamento deles em algum momento.
 
Skármeta sabe como criar um sentido de comunidade, e paisagens fortes, especialmente com o cenário ditando o comportamento e atitudes de seus personagens. “Moro perto do moinho. Às vezes o vento cobre meu rosto de farinha”, diz o narrador logo no primeiro parágrafo. Imagens como essa se repetem, seduzem, e correm o risco de alienar o leitor encobrindo (ou invertendo) a dinâmica de dominação e sufocamento que está realmente acontecendo.

De canção em canção: Na forma da música

Por Alysson Oliveira em 19/07/2017
 
 
“A forma de uma obra se transformou no conteúdo;
e o que consumimos em tais obras é a própria forma.”
“The Aesthetics of Singularity”, Fredric Jameson, 2015
 
 
No Planeta Terrence Malick, os meteoritos que caem nunca são os mesmos, mas são compostos da mesma matéria, o nosso presente. Se nosso tempo é caótico, fragmentado e incapaz de ser historicizado, não se deve exigir uma narrativa ao modo clássico que um investigador do presente. A forma de seus filmes se tornarão cada vez mais etérea, menos palpável, mais estilhaçada.
 
Em DE CANÇÃO EM CANÇÃO, Malick está um tom abaixo da ambição de CAVALEIRO DE COPAS – lá era o estilhaçamento completo da atualidade, era uma timeline de Facebook, na qual as peças não se juntam, mas tentam dar a dimensão da totalidade (clique aqui para ler mais). Aqui, a tentativa de mapeamento é mais organizada comparativamente – o que não quer dizer que também não seja uma tentativa vã, simplesmente porque historicamente é impossível.
 
A singularidade do presente, a expressão jamesoniana, que pousa no filme de Malick são as performances musicais – cada uma é única. Cada show é um só, mas, ao mesmo tempo, é igual a todos os outros que o artista já fez. O tempo é o presente, é o tempo de uma performance, e os artistas e suas obras são mercadorias a serem consumidas. No mundo de hoje, aliás, quem não é uma mercadoria a ser consumida?
 
Do quarteto de personagens centrais desse filme, apenas Cook (Michael Fassbender), um magnata da música, parece ter consciência disso. Ou talvez, ele nem a tenha, mas, ainda assim, é capaz de ganhar dinheiro com a música. Seu embate é com as visões mais românticas da arte – do compositor BV (Ryan Gosling) e da aspirante a compositora Faye (Rooney Mara). O último vértice é a garçonete Rhonda (Natalie Portman), que não está diretamente ligada à música.
 
Parte do filme foi rodada em 2012, no festival Austin City Limits, o que ajuda a conferir a tal da “singularidade” do filme. Na volatilidade do presente, numa apresentação musical, talvez mais do que em qualquer outra manifestação artística (possivelmente numa instalação também), o que conta a experiência do show, mais do que o show em si – daí a câmera quase etérea de Malick (a direção de fotografia é, novamente, assinada por Emmanuel Lubezki) que não consegue parar de se mover, criando algo fantasmagórico e também fluido.
 
Essa mesma fluidez materializa a fluidez do capital no cenário musical do Texas – metonímia do presente –, onde estão os personagens. A música se torna o mediador cifrado das relações fazendo as vezes do dinheiro. A única pessoa ciente disso é Cook, uma figura mefistotélica que parece usar Faye para sua diversão. BV, por outro lado, está perdido numa espécie de visão romântica da arte – em contraposição a algo mais mundano e pragmático do rival, que tenta, a todo custo, a o trazer para o mundo real.
 
Se as relações humanas são mediadas pela música, a incapacidade de boa parte dos personagens lidar com esse mediador, condena suas tentativas de aproximação ao fracasso, por mais que eles se esforcem. A deformação emocional dessas pessoas encontra ressonância na tela do cinema quando closes são feitos com uma grande angular, criando outra espécie de fantasmagoria.
 
Poucos investigam o presente de forma tão incisiva com Malick. Seus filmes recentes, por mais falhas que possam ter, depuram na forma a essência do nosso presente – retalhado, incapaz de ligar pontos, incapaz de ordenar a história. O que chega até nós são os fragmentos dos meteoritos – ou seja, pedaços dos pedaços. O que conta, novamente, é mais a experiência do filme do que o filme em si.

A perda da inocência

Por Alysson Oliveira em 03/07/2017


¿Quién puede matar a un niño?, pergunta o título original de OS MENINOS, do espanhol Narciso Ibáñez Serrador, e o filme não enrola para dar a resposta. O longa começa com imagens de arquivos históricos de momentos como holocausto nazista, guerra indo-paquistanês, guerra do Vietnã etc, e estampando a tela com o número de crianças mortas em cada um desses eventos. São imagens em preto e branco devastadoras, enquanto, ao fundo, um desafinado coral de crianças canta uma cantiga ingênua que, se não é a canção de ninar de O Bebê de Rosemary, é bem parecida.

Ibáñez Serrador, adaptando o romance de Juan José Plans, cria um conto gótico solar (olha o paradoxo!) numa ilha ibérica onde as crianças mataram praticamente todos os adultos. Do que se trata? Vingança de classe? Anos de descaso e opressão com a vida infantil criou uma espécie de consciência de classe neles que se uniram para revidar e salvar suas vidas? Um casal de ingleses – Tom (Lewis Fiander) e Evelyn (Prunella Ransome, que, em certa medida, lembra Mia Farrow – vai visitar a ilha, onde ele morou por algum tempo anos atrás. Eles encontram um cenário desolador – mas nem se dão conta disso, acham que todo mundo está do outro lado da ilha, em alguma fiesta. ¡Santa ingenuidad!

O calor é constante e opressor, mas logo encontram refúgio, num bar onde a assadeira giratória de frango está ligada e rodando há tempos, e os frangos torrados. O que está acontecendo nessa ilha? O que acontece quando o ícone da ingenuidade perde a sua inocência? O filme sagazmente poupa de mostrar o que e como aconteceu. Quando chegamos à ilha, com os ingleses, a matança já está acontecendo.

O filme, lançado num DVD com imagem excelente pela Versátil – no pack de Terror 3 -, é, obviamente, desconfortável – e não teria como ser diferente, sendo tão explícito como é. Talvez por isso não seja tão conhecido. Crianças com armas, crianças ao lado de um mulher morta e nua, crianças matando... não é o tipo de tema que costuma passar na televisão. O desconforto é ainda maior porque não há nenhuma “desculpa” sobrenatural – como uma possessão demoníaca – para explicar o comportamento dos niños e niñas. A violência e maldade são mostradas da forma mais naturalista possível.

Lançado em meados dos anos de 1970, Os Meninos é um questionamento sobre a erupção da violência. E também sobre a inerência do mal – trazendo aquele velho questionamento o ser humano pode nascer “do bem ou mal” ou a sociedade o corrompe? Dado o prólogo do filme, a história terá um papel fundamental para moldar essa subjetividade. Ibáñez Serrador não divide as pessoas em exclusivamente boas ou más, porém destaca as nuances que se esmaecem diante de momentos de horror histórico/social.


sexo, mentira e sulfite a4

Por Alysson Oliveira em 23/06/2017
A série da Amazon I LOVE DICK é baseada no livro homônimo de Chris Kraus (clique aqui para ler mais), e é basicamente tudo aquilo que uma obra de audiovisual baseada em uma outra literária gostaria de ser. As criadoras do seriado, Sarah Gubbins e Jill Soloway, fazem exatamente aquilo que deve, ou deveria, ser feito: leram o livro, apreenderam sua essência, jogaram-no fora, e fizeram sua própria obra. Algo raro, que poucos sabem fazer (Coppola com sua adaptação de Heart of Darkness, que resultou em Apocalypse Now é dos exemplos mais bem-sucedido). O resultado é algo reverente mas completamente novo.
 
A trama original, basicamente, é sobre a paixão e o desejo obsessivos da autora Chris Kraus sobre Dick, um professor amigo de seu marido, Sylvere. O casal, então, passa a escrever cartas para esse sujeito. Basicamente é isso, mas é bem mais do que isso, porque há também uma discussão sobre arte, sobre filosofia e teoria crítica, além do papel da mulher nisso tudo. As criadoras da série mantém esse ponto de partida e as discussões centrais, mas além de trazer para o presente – distante do longínquo 1994 – cria uma gama de novas personagens, que ampliam as possibilidades e tornam a trama menos claustrofóbica do que centrada apenas no trio de protagonistas.
 
Chris, uma cineasta experimental, é interpretada por Kathryn Hahn, uma grande atriz que até agora só havia feito papeis coadjuvantes, mas mostra sagacidade e sensibilidade ao criar uma personagem complexa, que transita entre o desejo, a obsessão, a culpa e a autodescoberta. Seu marido (Griffin Dunne) e o próprio Dick (Kevin Bacon) são pálidos diante dela - personagens menos interessantes, mas isso não chega a ser um problema, porque as demais figuras femininas, que complementam a trama, são ótimas. Depois de conhecer Dick, Chris fica obcecada por ele, e começa a escrever cartas no computador e as imprimir. Seu marido, eventualmente, também faz isso. É um jogo, mas também pode ser um projeto artístico, ou só uma forma de passar o tempo ou sublimar o desejo.
 
Algumas das melhores cenas pertencem a Roberta Colindrez, no papel de Devon, uma espécie de faz-tudo da faculdade, que cuida da casa e conforto dos professores visitantes, e também aspirante a artista. Outras cenas ótimas são de India Menuez, como Toby, PhD em história da arte, que estuda a representação do corpo da mulher – bem, sua tese de doutorado tem a ver com sexo anal em filmes pornográficos, e sua exposição rende um dos melhores momentos de toda a série.
 
A questão central, e I Love Dick deixa isso claro logo de cara, seria algo como: quem define o que é arte? A resposta: homens brancos heterossexuais de meia-idade. Nesse sentido, Dick é o protótipo do definidor de arte, e há uma cena muito reveladora, quando Chris quer mostrar seu filme para ele, o sujeito mal assiste a poucos minutos, e diz que aquilo não lhe interessa. Ali, ao lado deles, há uma obra dele (ele artista plástico e professor): um mero tijolo. Nada mais do que isso.
 
Ao todo, são oito episódios (todos disponíveis), e a direção é assinada pela própria Soloway, Andrea Arnold, Kimberly Peirce e Jim Frohna (que também assina a fotografia). Pierce (com 1 ep) e Arnold (com 4 ep) são responsáveis pelos melhores capítulos do programa, elas fundem humor, discussão de política de gênero, alta/baixa cultura, filosofia e teoria crítica. É uma combinação inusitada, que, falando assim, soa pretenciosa, mas não é – pelo contrário, são discussões bem francas. Há um momento, por exemplo, pouco depois de ser esnobada por Dick, Chris comenta sobre sua frustração em relação à obra cinematográfica de Maya Deren: “Ela é supostamente a cineasta mais importante de todos os tempos”, diz a Devon, “e, para ser sincera, ela é muito chata. Impenetrável. Não tem como entrar, e eu tenho vontade de arrancar meus olhos... Eu gosto de Spielberg”. [Nota minha: Não há problema em gostar ou desgostar de nenhum dos dois].
 
Que discussão! Especialmente porque, pouco antes, ao falar de cineastas femininas importantes, ela citou para Dick, Sally Potter, Jane Campion e Chantal Akerman. O que está em disputa aqui – e a série está muito consciente disso – é da construção de um cânone. Quem diz o que pode entrar ou não são os mesmos homens brancos que definem o que é arte – até quando esse cânone (que começa a se fortalecer) tem a ver com cineastas femininas e/ou feministas. Há vários momentos que se pautam por esse debate, e, dessa forma, o resultado é sempre instigante, mas também ácido – especialmente na investigação dos impulsos artísticos e do desejo que movem uma mulher contemporânea.

A deusa das pequenas e grandes coisas

Por Alysson Oliveira em 22/06/2017
“Como contar uma história estilhaçada? Lentamente se tornando todo mundo. Não. Lentamente se tornando tudo”, lê, em um diário, um personagem de THE MINISTRY OF UTMOST HAPPINESS (no Brasil, O Ministério da Felicidade Absoluta, a ser lançado na próxima semana). Em seu segundo romance (que foi gestado em 20 anos), a indiana Arundhati Roy segue essa proposição, para contar uma trama fragmentada que vai e volta o tempo e espaço e dá conta de forma poética e incisiva do presente da Índia – e, por tabela, do mundo contemporâneo.
 
O resultado é uma sinfonia caótica de pequenos pedacinhos que montam uma constelação de tramas e personagens de forma abrangente, peculiar e sagaz. Possivelmente, nem há um protagonista aqui, mas uma personagem se destaca logo no início. Ela é Anjum, uma Hijra, pessoas transgêneras e intersexuais cujo destino é dar prazer aos outros sem receber nada em troca. Anjum, cuja vida começou com Aftab, um garoto desejado e amado pelos pais, com 40 e poucos anos vai viver num cemitério, “como uma árvore”, se define, distante do Khwabgah, onde vivem as outras hijras, conhecidas como o 3o gênero, donas de um papel importante – apesar de ainda marginalizadas – na cultura indiana. Porém, sua morada no cemitério não dura muito, até que ela constrói uma pequena casa ao lado, e, aos poucos novos cômodos, e recebe pessoas excluídas e renegadas, por um aluguel baixo. O local ganha o nome de Jannat (paraíso), e sua posição dentro da narrativa acaba fornecendo o título ao romance.
 
Outra personagem feminina, o outro polo da trama, é a ilustradora Tilo, que, em Kashmir (Caxemira), reencontra um antigo amante, Musa, que perdeu a mulher e a filha numa rebelião perdeu a mulher e a filha pequena. Na região, ao norte do subcontinente, divida entre Índia e Paquistão, é palco de constantes conflitos desde o fim da ocupação britânica. Em seu segmento dentro do romance, Tilo irá se deparar com os horrores da ocupação indiana, especialmente as atrocidades do exército.
 
O primeiro romance da autora, The God of The Small Things, rendeu-lhe o Booker Prize, em 1997, e acusação de obscenidade no estado onde ela nasceu, Kerala, além da reputação como uma romancista séria, entre outras coisas. O livro lidou de forma franca com sexualidade e política – muitas vezes, interconectando os temas. Seu estilo beira uma espécie de selvageria meditada, com idas e vindas no tempo, e personagens marcantes.
 
The ministry of utmost happiness não é muito diferente nesse sentido, mas, de certa forma, parece mais visceral, menos ponderado em sua forma do que o anterior. Seu retrato de duas décadas de história da Índia parece menos amarrados, mais solto, e mais direto quando se trata de abordar a política no país. Ao recusar uma narrativa clássica, sequencial, a autora parece buscar ciclos de violência e desejo que se formam de maneira não linear, e devastam a vida de pessoas em determinados períodos, com altos e baixos.
 
Ao contrário de The God of the small things, The ministry of utmost happiness não é um romance que seduz rápida e facilmente, é um livro que pede atenção, concentração e manda seguir em frente mesmo quando alguma coisa não faça muito sentido. A parte político-histórica, para quem não está familiarizado com o tema em relação à Índia, é bastante árdua e, às vezes, quase desanimadora, mas Roy tem diversas recompensas para quem não abandonar o livro. O seu panorama de hijras, mulheres e homens é vasto e a investigação da alma humana recompensadora.
 
O transito entre pequenas tramas pessoais e grandes movimentos históricos ajuda na compreensão de um todo – porque as duas coisas estão conectadas, e disso suas personagens jamais poderão escapar, como bem diz uma hijra a Anjum: “Os motins estão dentro de nós. A guerra está dentro de nós. Indo-Paquistanês está dentro de nós. Isso nunca vai se acalmar. Não pode”. Como boa investigadora de seres humanos e seus desejos e conflitos, Roy sabe somos frutos de um espaço e um tempo, e disso, não temos como fugir.