Letras e fotogramas

Blade Runner 2049: Células interligadas

Por Alysson Oliveira em 04/10/2017
O que sonham os androides, se é que os androides sonham, quando sonham? Talvez sonhem em alcançar a humanidade que lhes será negada. Blade Runner 2049 é um Pinóquio pós-industrial no qual máquinas nos lembram o que é ser humano num dado momento da história.
 
Trabalhando com roteiro assinado por Hampton Fancher (roteirista do original) e Michael Green (Deuses Americanos, Logan), o canadense Dennis Villeneuve não deixa pesar o sobre os ombros do seu filme a mitologia do original. Por isso é capaz de criar um longa que fica a par com o de Riddley Scott, de 1982, e faz uma bela homenagem à obra de Philip K. Dick, sem que seja uma adaptação propriamente dita (embora alguns dos interesses e ansiedades do escritor estejam todos na tela). Aqui, novamente, a trama transita entre o noir e a ficção científica.
 
K (Ryan Gosling) é um policial de Los Angeles que trabalha “aposentando” androides que aspiram à humanidade. Logo na primeira cena, no entanto, após exterminar um sujeito que tem uma fazenda de proteínas surge uma complicação. Descobre-se que uma androide deu uma criança à luz – o que pode causar uma nova rebelião, elevando o status dos humanoides.
 
A questão central aqui é a discussão daquilo que nos caracteriza como humanos: a capacidade de reproduzir. Ficção científica, no cinema e na literatura, é o gênero das grandes ideias, o gênero que extrapola os limites da realidade e, ainda assim, se mantém no real, no plausível. Toda vez que K termina uma missão, ele passa por uma interrogatório, tendo que responder perguntas com rapidez. Nenhuma faz muito sentido, mas as palavras que ele mais repete são “células” e “interligadas”. Tudo isso para investigar se sua porção robô e sua porção humana estão em equilíbrio. E sempre estão – até o dia em que não, e o mundo sai dos eixos.
 
Blade Runner 2049 é um filme de ação, mas também de questionamentos e investigações. Está longe de ser um filme filosófico – que Deus o abençoe! – mas é sobre questionamentos e incertezas. Deckard vai aparecer com bem mais de uma hora de projeção, e a figura de Harrison Ford é, ao mesmo tempo, imponente e abatida – vivendo num mundo de resíduos daquilo que conheceu, coberto por uma areia talvez contaminada e estátuas fantasmagóricas que formam um caminho lembrando o passado grandioso de um mundo que se deixou levar por suas ambições. Um mundo onde nem humanos nem Pinóquios parecem ter vez. Um mundo fadado ao fracasso.

Jane Fonda e Robert Redford brilham em "Nossas Noites"

Por Alysson Oliveira em 30/09/2017
Louis Waters prepara o seu jantar, senta-se à mesa, come, lava a louça, liga a televisão, vai fazer as palavras cruzadas do jornal (ops, já tinha feito mais cedo), como faz todas as noites. Em sua primeira cena OUR SOULS AT NIGHT/ NOSSAS NOITES, lançado hoje na Netflix, é capaz de transmitir toda a sensação de uma rotina antiga que é interrompida pela campainha. Quem toca é Addie Moore (Jane Fonda), vizinha da casa da frente há alguns anos, mas eles mal se conhecem.
 
Ela tem um pedido inusitado: será que ele poderia ir à casa dela todas as noites para dormirem juntos? Não tem nada de sexual, nem romântico na proposta. É um arranjo prático. Ambos são viúvos há anos, e a solidão bate cada vez mais forte à noite. Ele estranha, mas acaba aceitando o convite. Nas primeiras visitas, entra pela porta dos fundos, até que ela se recusa a abrir a porta e ele tem que entrar pela frente. Afinal, eles não estão fazendo nada de errado, não têm nada a esconder.
 
Dirigido pelo indiano Ritesh Batra (The Lunchbox), Nossas Noites é um filme exatamente sobre arranjos práticos num momento da vida em que cada minuto conta mais. Dessas noites, com muita conversa antes de se deitar e também na cama, Louis e Addie podem revisitar seus passados, especialmente os erros e traumas que tiraram suas vidas do prumo. É um exercício de perda de pudor – mais do que tirar as roupas um na frente do outro, o que, eventualmente, acabará acontecendo – porque os dois têm feridas profundas e não cicatrizadas, e talvez seja a última chance de ficar em paz consigo mesmos.
 
Jane e Redford repetem a parceria de O Cavaleiro Elétrico (1979), Descalços no Parque (1967) e A Caçada Humana (1966), e suas atuações são o que há de mais bonito nessa adaptação do romance póstumo de Kent Haruf. A dimensão humana que cada um traz ao seu personagem é capaz de superar a direção um tanto opaca de Batra. Mas que, por isso mesmo, dá chance à dupla de brilhar. Há também o belga Matthias Schoenaerts, como filho de Addie, e Judy Greer, como filha de Louis. Mas, dos coadjuvantes, quem se destaca é o pequeno Iain Armitage, como o neto de 7 anos, que é deixado na casa da avó e acaba ajudando a cimentar a relação dela com o vizinho.
 
Sem o elenco inspirado, o filme poderia cair facilmente numa telenovela, mas as delicadas interpretações evitam isso. E, mais do que a química, o prazer de Redford e Jane de contracenar um com o outro é palpável na tela, e capaz de elevar o filme a uma dimensão maior do que o diretor é capaz de alcançar.

Longas jornadas noites adentro

Por Alysson Oliveira em 25/09/2017
Addie Moore faz uma proposta inesperada ao seu vizinho, Louis Waters, e depois de muito hesitar, faz uma proposta: “Eu gostaria de saber se você consideraria vir à minha casa às vezes para dormir comigo. [...] Quero dizer somos os dois solitários. Estamos sozinhos por muito tempo. Por muitos anos. Estou solitária. Gostaria de saber se você viria e passaria a noite comigo. E conversássemos”. Ela, do alto de muitas décadas de vida e viúva, faz essa proposta a ele, que está nas mesmas condições.
 
Assim começa OUR SOULS AT NIGHT (no Brasil, NOSSAS NOITES, lançado pela Cia das Letras, com tradução de Sonia Moreira), romance postumamente publicado que Kent Haruf escreveu pouco antes de morrer, aos 71 anos, em 2014, por isso não é de se duvidar que as ansiedades e aflições de seus personagens são as mesmas que ele enfrentava com a idade.
 
Seu romance é delicado e preciso em sua percepção de uma sociedade na qual as expectativas de vida é cada vez mais alta, mas que essa mesma sociedade não sabe muito bem o que fazer a uma parcela da população que atinge certa idade. É como se esperassem que vivessem sob algum código do passado, da época de sua criação e juventude, negando-lhe alguns dos direitos que os mais jovens têm.
 
O relacionamento de Addie e Louis, a princípio, pelo menos, não tem nada de romântico. É praticamente um arranjo prático, mas que escandaliza a pequena cidade onde moram no Colorado. Logo a história chega aos ouvidos do filho dela, e se transforma num conflito. É quando o mundo real irrompe e atrapalha o idílio entre o casal de protagonistas.
Com uma prosa, ao mesmo tempo, direta mas também poética, Haruf dá conta de laços que unem seus personagens de forma terna, mas também transgressora. Não se espera que eles reencontrem o amor – ou algo parecido – a essa altura de suas vidas, mas eles infringem esses limites, e encontram consolo um no outro.
 
Recentemente, a obra foi adaptada para o cinema, com Jane Fonda e Robert Redford nos papeis centrais, com direção de Ritesh Batra (The Lunchbox), previsto para estrear no Netflix na próxima sexta-feira.

Erguendo mundos para os esfacelar

Por Alysson Oliveira em 07/09/2017
Um dos elementos mais importantes e fascinantes de livros e filmes de ficção-científica e fantasia é a construção de um mundo próprio. Pode ser bem parecido com o nosso, mas pode também ser o nosso de maneira cifrada – nesse sentido, é capaz que seja ainda mais semelhante àquele em que vivemos. É um elemento básico para a narrativa, mas não fácil de atingir, pois é preciso coerência e coesão internas, tudo estar muito bem armado para que o leitor acredite naquele mundo. Não são muitos escritores e escritoras que conseguem tal feito à perfeição. Em seu THE FIFTH SEASON, a norte-americana N. K. Jemisin faz isso de maneira insuperável, é brilhante. Ergue um mundo com pontos de contato com o nosso, cria geografia, fauna, flora e habitantes – para, ao mesmo tempo, destruir esse mundo. Ela pode se dar a esse luxo.
 
A terra onde a trama se passa é chamada Stillness (há até um mapa no começo do livro) – o nome é irônico, pois o que mais há nesse lugar é um fluxo de transformações, nem sempre positivas. De tempos em tempos, o lugar enfrenta apocalipses das mais variadas magnitudes, e há até um apêndice no final do romance recontando cronologicamente cada uma dessas destruições. Dessa forma, a realidade da civilização e das pessoas do lugar é efêmera, não é possível fazer grandes planos pois o lugar onde mora vai ser varrido do mapa a qualquer momento. Gerações vivem debaixo desse véu da incerteza.
 
Cada um dos desastres é chamado de Season, e o próximo, acredita-se, será o mais devastador, varrendo até a história da História. Dessa forma o passado e presente da protagonista, Essun, professora de uma escola primária, são incertos. Sua vida é marcada pela tragédia, quando marido matou o filho e fugiu com a filha, que também parece ter matado. Essun quer encontrar sua filha, mas também quer vingança, e o poder sobrenatural que ela tem é a sua arma. Jemisin fratura sua trama em três personagens – as outras duas são Syen e Damaya – , cujas histórias se sobrepõem até o momento em que deverão se encontrar.
 
A diversidade de ponto de vistas permite uma visão mais abrangente de Stillness, sua história, pessoas e eventuais destruições. Jemisin escreve com segurança e sem floreios. Sua força está na criação das personagens e desse mundo, tudo englobado numa lógica interna que não engessa o livro, mas traz-lhe coerência. A autora toca em temas difíceis sem fazer de seu romance um panfleto, mas, sim, uma possibilidade de figuração do nosso presente, e especialmente dos afrodescendentes, quando aborda questões como genocídio e eugenia. Há alguns momentos em que The Fifth Season lembra Octavia Butler – especialmente quando se busca uma conexão entre as narrativas de escravidão e a questão racial no presente.
 
The Fifth Season – previsto para ser lançado no Brasil ainda esse ano – é o primeiro romance da trilogia The Broken Earth. E ganhou o Hugo, um dos principais prêmios do gênero, no ano passado. Sua sequência, The Obelisk Gate, levou o mesmo troféu nesse ano, em agosto passado. E o último romance da série, The Stone Sky, lançado há poucos dias, também, por motivos óbvios, já desponta como favorito para a premiação no próximo ano.

Até que a morte do líder os separe: HQ A morte de Stalin

Por Alysson Oliveira em 08/08/2017
 
O escritor Fabien Nury e o ilustrador Thierry Robin foram muitos feliz na escolha do tema para os quadrinhos A MORTE DE STÁLIN (Trad. Paulo Werneck; cores: Robin e Lorien Aureyre), um fato um tanto obscuro da história, envolvendo uma das figuras mais importantes do século passado. Mais do que Stálin em si, o que interessa à dupla são os eixos da história se movendo e as intrigas políticas pessoais que seguem às horas da morte do “pai do povo”.
 
Há, obviamente, um enfoque político na obra dos franceses, mas é pela chave satírica que esse se dá, o que a faz extrapolar no espaço e tempo – indo além da União Soviética de 2 de março de 1953, quando Stálin morreu, e sua morte foi declarada dois dias depois. É nesse período que explodem disputas, erros e uma tragicomédia (com momentos constrangedores) pela disputa do poder.
 
Figuras-chave do episódio, como Nikita Khrushchev, Lavrenty Beria, Geórgiy Malenkov, Nikolai Bulganin, além dos filhos Vasily e Svetlana Stálin, dão o ar da graça nas páginas desenhadas por Robin que carrega nos traços para ressaltar o que há de mais grotesco em cada um – especialmente políticos – com a possibilidade de ascensão ao poder, ou da perda dos privilégios e proteção.
 
Visualmente, a HQ é rica em detalhes, e poderosa em seu enfoque que transita entre o pessoal e uma epopeia de erros. A parte mais bonita e que bem resume todo o livro está no começo do segundo capítulo, no qual a página da esquerda mostra detalhes do corpo de Stálin sendo preparado para o funeral, e na seguinte, o caixão vermelho e luxuoso é mostrado em plongée. O próprio Nury credita a ideia toda a Robin, e define como “uma ironia visual discreta mas [...] esplêndida”. E a cena dá um momento de protagonismo a Stálin, de quem tanto se fala no livro, mas que, obviamente, pouco aparece.
 
Há liberdades ficcionais aqui – especialmente no bem-sacado prólogo, que traz a causa mortis (dentro do universo ficcional da HQ) de Stálin – mas dado o pouco que realmente se sabe (a história oficial, como de qualquer país, é muito maquiada, filtrada), as coisas podem ter acontecido de várias maneiras – até como Nury e Robin imaginaram.

Ninguém nasce escritora: Um anjo em minha mesa, de Jane Campion

Por Alysson Oliveira em 07/08/2017
Em UM ANJO EM MINHA MESA, Jane Campion mergulha com coragem e profundidade numa porção de temas e questões que já estavam presentes em suas obras anteriores, mas que, aqui, finalmente se materializam com maturidade, fazendo parecer que até então, por ótimos que fossem seus filmes, era um ensaio. A vida da escritora neozelandesa Janet Frame serve com a bússola a essa investigação do papel da mulher (especialmente da mulher artista) numa periferia do capitalismo.
 
Campion, que assina o roteiro com Laura Jones, a partir de um trio de biografias de Frame, coloca ao centro uma mulher se tornando escritora – o que ecoa, de certa forma ampliando, a célebre frase de Simone de Beauvoir - aqui: “Ninguém nasce escritora, torna-se escritora”. O processo de aprendizagem, formação de subjetividade e de encontrar seu lugar no mundo foi doloroso para Frame, nascida em Dunedin, em 1924, e viveu lá até sua morte, em 2004.
 
Com fotografia assinada pelo inglês Stuart Dryburgh (O Piano, A Grande Muralha), Campion trabalha com cores saturadas, o que dá um brilho e destaque especial à cabeleira vermelho-fogo de Frame desde a infância. Numa das cenas mais bonitas, uma amiguinha pergunta se pode tocar nos cabelos, e ela, claro, deixa.  A paisagem neozelandesa também se destaca criando um ambiente que ora oprime, ora liberta.
 
A vida da escritora é contada desde sua infância, e uma das primeiras imagens do filme é uma bebê deitada no sol quando a mãe num vestido colorido vem em sua direção. Nesse momento, a câmera se torna subjetiva, e a mulher vem “em nossa direção”. Dessa forma, Campion deixa claro: essa não é apenas a história da vida de Frame, mas é a história da vida de Frame contada por ela mesma. É um ponto importante aqui, pois a diretora dá direito de voz a uma voz que foi sufocada por anos.
 
Frame foi erroneamente diagnosticada com esquizofrenia, e internada numa clínica, onde recebeu eletrochoques. Ela publicou seu primeiro livro, uma coletânea de contos, em 1951, quando ainda estava internada, e é de se imaginar o quanto a escrita não a ajudou a colocar suas ideias no lugar e sobreviver a essa calvário.
 
A personagem é interpretada por Alexia Keogh, Karen Fergusson e Kerry Fox, em cada momento de sua vida, e, fora a semelhança física, o trio de atrizes é capaz de compor um retrato coeso de uma mente brilhante sufocada, em diversos momentos, por adversidades. Cada experiência conta, de uma maneira ou de outra, na sedimentação da subjetividade da escritora que servirá de material para seus textos.
 
Campion encontra em Frame e sua obra uma parceira – especialmente nos temas – para discutir o papel da mulher na sociedade – um das ansiedades de sua filmografia – e todas as imposições que vêm com isso. A questão é arrebentar as amarras, e se encontrar, se fazer mulher, e, aqui, no caso, escritora também. 

O Édipo de Sam Shepard

Por Alysson Oliveira em 07/08/2017
Talvez 2017 seja o ano em que autores de língua inglesa reescrevam clássicos gregos. Colm Tóibín (House of No Names), Natalie Haynes (The Children of Jocasta), David Vann (Bright Air Black), Kamila Shamsie (Home Fires) partem de tragédias gregas criando uma ponta entre passado clássico e o presente, e reverberando aqui o que foi dito lá. Em sua última peça (originalmente encenada na Irlanda, em 2013), Sam Shepard faz uma espécie de experiência pós-moderna com Édipo em A PARTICLE OF DREAD (OEDIPUS VARIATIONS), lançada em forma de livro este ano.
 
A dualidade é o que marca o texto, que tem como cenários a Grécia Antiga e o deserto da Califórnia. Édipo também é Otto, assim como Jocasta é Jocelyn, e Tirésias é Tio Del. A trama mantém-se fiel, à medida do possível, ao original, na qual uma profecia diz que Édipo matará o pai, e se casará com a mãe. Tentando evitar isso, o pai, Laio, tenta se livrar da criança, e o que vem depois é mais do que conhecido.
 
Mas é a questão da identidade e o destino que ganha mais força aqui. Quando Édipo tem dúvidas existencialistas sobre quem ele é, Jocasta lhe responde: “Seu tormento não conhece limites! [...] Aprenda a amar a tinta negra a sombra de tinta negra da morte tanto quanto você ama a luz do alvorecer”.
 
Shepard, porém, não está amarrado à trama original, como o próprio título indica, são “Variações” sobre um tema, então, o dramaturgo tem espaço para criar sobre as possibilidades – flertando especialmente com as tramas de detetive e o gore – dá a sensação de haver sangue para todo lado. A particle of dread pode não atingir o mesmo potencial dos melhores textos de Shepard. Mas uma peça de Sam Shepard é sempre uma peça de Sam Sherpad, e vale muito.
 

Sweetie, de Jane Campion: O lado selvagem do ser

Por Alysson Oliveira em 31/07/2017
 
As protagonistas dos longas de Jane Campion são mulheres vivendo em situações limítrofes que em algum momento irão se dissolver e as levar para “passear no lado selvagem”, para citar Lou Reed. O que varia é a intensidade da selvageria de cada um e aquela que elas irão enfrentar, mas, em algum momento, a família burguesa não será mais capaz de conter tudo aquilo que essas mulheres acumularam por anos – seja de frustrações, sufocamentos, sublimações.
 
SWEETIE, segundo longa da diretora (e primeiro dela a ser lançado em cinema), talvez seja o mais radical nesse quesito do passeio pelo lado selvagem. As protagonistas são uma dupla de irmãs vivendo uma relação conturbada de amor e ódio. Kay (Karen Colston) consulta uma vidente que diz que o amor de sua vida trará uma interrogação no seu rosto. Pouco depois vê Louis (Tom Lycos), em cujo rosto um cacho de cabelo forma uma ponto de interrogação com a pinta que tem acima da sobrancelha. O amor chegou para ela!
 
Junto do amor retorna também sua irmã Dawn (Geneviève Lemon) – também conhecida como Sweetie. O primeiro contato entre as duas acontece quando Kay encontra sua casa invadida, e dentro dela, em sua cama, sua irmã e o produtor musical/namorado dela. Sweetie é uma aspirante a cantora e atriz.
 
A tensão entre as duas – que parece algo antigo e que nunca será capaz de ser resolvido – só acirra, e o pai (Jon Darling) delas vem para tentar uma saída para tanto problemas. Mas a disputa se acirra, e uma vive para infernizar a outra. Cada um tem os seus problemas, mas todos parecem convergir a Sweetie, que se comporta como uma criança grande tão vulnerável quanto insensata.
 
Campion, que assina o roteiro com Gerard Lee, tem um olhar carinhoso para cada uma das pessoas-problemas desse filme. Sem fazer julgamento, apenas acompanha a derrocada da falsa serenidade dessas vidas conturbadas pela (re)entrada de Sweetie. Há uma certa selvageria também na maneira de filmar, que não se contenta com enquadramentos convencionais, e das imagens estranhas nasce um reenquadramento das próprias personagens.
 
A dinâmica familiar nunca é suave, é sempre aos trancos e barrancos porque tudo irradia de Sweetie, e não teria como ser de outra forma. O lado selvagem dessa protagonista explode na reta final do longa. É um momento repleto de rebeldia, mas também melancolia. É um instinto selvagem de sobrevivência que jamais poderá ser domado.

Two Friends, de Jane Campion

Por Alysson Oliveira em 24/07/2017
O primeiro filme de Jane Campion, TWO FRIENDS (1986), poderia ser classificado como um cruzamento entre Sofia Coppola e Mike Leigh. Da primeira, as dores do crescimento, jovens moças enfrentando experiências que as amadurecerão. Do inglês, a textura social de uma classe média baixa e trabalhadora. Feito para televisão australiana, mas lançado em cinema na década de 90, depois de o sucesso de O Piano, o longa traz em si os temas e ansiedads que permearão a obra da cineasta.

Campion trabalha com um roteiro original da grande escritora australiana Helen Garner, que, na década de 1970, foi professora numa escola secundária e demitida depois de responder aos alunos suas perguntas sobre sexualidade. Possível dessa experiência com jovens, a autora tirou o material para esse drama que tem ao centro a dissolução da amizade de duas adolescentes, que mudarão de escola.

Kelly (Kris Bidenko) e Louise (Emma Coles) moram no subúrbio de Sidney, e são amigas desde sempre. Estudam na mesma escola, saem juntas para paquerar, passam a noite uma na casa da outra. Agora, se preparam para entrar numa prestigiosa escola, na qual as aulas usam uniformes e participam de um coral madrigal. O padrasto de uma delas, no entanto, proíbe a menina de se matricular: “essas garotas estão na idade de estudar rock and roll, não madrigais”, decreta ele, tachando, não sem razão, a escola de elitista. O mundo das meninas desaba.

A entrada ao mundo adulto na obra de Campion é doloroso para as mulheres, e isso não acontece necessariamente na adolescência, pode ser tardio – e hoje, podemos (re)colocar Two Friends em perspectiva. A menina de O Piano, que é a tradutora da mãe, Isabel Archer, em Retrato de uma mulher; a garota envolvida com um culto religioso, em Fogo Sagrado; a professora na mira de um assassino, em Em Carne Viva; e, por fim, a jovem apaixonada pelo poeta moribundo, em Brilho de uma paixão. Em diferentes épocas e contextos, as personagens de Campion precisam lidar com um mundo que limita suas escolhas, mas não sua  percepção dele. É daí que nasce a rebeldia – nem sempre compreendida.

Two Friends trabalha o tempo de maneira fragmentada. Primeiro vemos que a amizade irá terminar, mas, só depois como e porquê. Nesse sentido, o filme termina com uma nota de otimismo momentâneo. Como se dissesse “um problema de cada vez”. E talvez esse mesmo seja o mantra das heroínas da diretora.

"Um Pai de Cinema": Vivendo por inércia

Por Alysson Oliveira em 21/07/2017
 “Eu quero ser protagonista de minha própria vida”, diz uma personagem num momento climático do romance – na verdade está mais para um conto longo ou novela – UM PAI DE CINEMA, do chileno Antonio Skármeta (Trad. Luís Carlos Cabral), e que Selton Mello acaba de adaptar para o cinema. A frase dela, no entanto, resume bem o sentimento de todas as figuras que transitam pelas páginas do livro – especialmente o narrador-“protagonista” Jacques, um jovem professor numa pequena aldeia frustrado com absolutamente tudo em sua vida.
 
Todos na trama são de certa forma coadjuvantes em busca de um protagonista ou protagonismo deles mesmos que nunca aparece, por isso transitam de um lado para o outro, vivem praticamente por inércia. Jacques se formou na capital como professor, e no mesmo trem que volta para casa, seu pai vai embora para e pretende voltar para sua terra natal, a França. A vida do rapaz, sem muitos alicerces, desmorona. Nada o agrada, os alunos o desanimam; a sua virgindade o consome; e o lugar onde mora o sufoca. Mas ainda assim, ele praticamente não tem iniciativa para mudar nada disso.
 
Acompanhamos seu cotidiano em capítulos curtos e uma prosa direta e poética. Sabemos bastante sobre esse jovem, mas muito pouco sobre as outras pessoas, e tudo vem filtrado pelo seu olhar, o que se transforma na maior contenção da narrativa. Talvez seja a visão de macho latino inconsciente ou propositadamente (o que faria do livro algo sintomático) trazida à tona pelo escritor, mas os personagens são quase destituídos de nuance. Todas as mulheres são ou tolas ou mesquinhas (a algumas o narrador guarda algo ainda pior), enquanto todos os homens (ah, esses coitados sofredores!) são mártires e heróis, pois mais discutível que seja o comportamento deles em algum momento.
 
Skármeta sabe como criar um sentido de comunidade, e paisagens fortes, especialmente com o cenário ditando o comportamento e atitudes de seus personagens. “Moro perto do moinho. Às vezes o vento cobre meu rosto de farinha”, diz o narrador logo no primeiro parágrafo. Imagens como essa se repetem, seduzem, e correm o risco de alienar o leitor encobrindo (ou invertendo) a dinâmica de dominação e sufocamento que está realmente acontecendo.