Letras e fotogramas

Romance "Nix" investiga passado e presente dos EUA

Por Alysson Oliveira em 01/06/2018

Não é preciso muito das quase 700 páginas de Nix, do estreante Nathan Hill, para perceber que se trata de um grande romance – não só pela quantidade de páginas. Há de tudo entre uma capa e outra – desde protestos políticos (fortes e outros tolos), vício em realidade virtual, mercado editorial até chegar em consumismo. É claro que entre uma coisa e outra o autor joga umas obviedades, mas ele faz isso com tanta graça e humor que é difícil não fingir que é novidade.

Nix são, segundo o romance, no folclore Nórdico espíritos que tomam formas distintas e perseguem pessoas por toda a vida. Também são qualquer coisa que você tenha amado e um dia desaparece partindo seu coração. Há os dois tipos na narrativa – ao menos imaginados pelos personagens.

O livro começa com um pequeno incidente que ganha grandes proporções. Uma senhora, veterana dos anos de 1960 (como saberemos depois), joga uma bola de papel na cabeça de um governador, e candidato a candidato à presidência dos EUA. O gesto – talvez pessoal – ganha tons políticos e um grande processo é instaurado, e seu passado destrocado na mídia: ex-hippie, presa por prostituição, e mãe que abandonou o filho em 1988. Este agora é um professor universitário frustrado, que passa horas jogando na internet, e tem mais amigos virtuais do que reais. No trabalho enfrenta a perseguição de uma aluna, que tenta reverter o caso quando ela é acusada de plágio, acusando o professor de abuso emocional.

Hill tem a habilidade de construir dois momentos históricos com tintas precisas, e fazer um trajeto de como os ideias dos anos de 1960 se transformaram nisso em que vivemos. Seu percurso é seguro, carregado na ideia do pop, mas extremamente político – especialmente quando evoca os protestos de Chicago daquela época (também presentes no them, de Joyce Carol Oates, entre outros). Nesse sentindo, The Hill é um romance histórico, sobre a história já concluída (o passado) e aquela que está acontecendo (o presente). O presente é o de 2011, do Occupy Wall Street (há uma cena excelentemente cômica envolvendo um protesto).

Quando Faye reaparece na vida de seu filho, Samuel Andresen-Anderson, ele não há vê há mais de duas décadas, e está sendo cobrado por seu editor por um romance, pelo qual foi pago (comprou uma casa com dinheiro), e até hoje não entregou o livro. Para não perder todo o pouco que tem, ele aceita fazer uma biografia da mãe (o editor avisa, só precisa escrever ¼ o restante já está pronto por uma equipe de ghostwriters, e deverá ser lançado antes da campanha presidencial, para ajudar ao governador), na qual deverá expor toda a “verdade” sobre sua mãe – em outras palavras, destruí-la, porque nada vende mais do que lavagem de roupa suja.

The Nix dá tempo o suficiente para construir o presente e os passados (a infância de Samuel e a juventude de Faye) , e também seus personagens – desde a dupla de mãe e filho, até coadjuvantes, como o colega de Samuel viciado em um jogo virtual que há tempos não sai de casa, e isso tem um desenrolar catastrófico e cômico quando ele decide parar.

A contraposição entre dois momentos do passado (final dos anos de 1960 e dos anos de 1980 e presente) acompanha o movimento da história e a forma como essa interfere na vida das personagens e as molda. Hill desponta como um escritor a se prestar atenção dono de um talento ímpar, e para quem sempre está a procura do Grande Romance Americano, Nix é mais um forte candidato.

“A livraria”: Tentando quebrar o círculo de poder com os livros

Por Alysson Oliveira em 01/03/2018
Florence Green é uma viúva que, no final dos anos de 1950, resolve abrir uma livraria numa pequena cidade costeira da Inglaterra, chamada Hardborough. Para isso, compra um velho casarão decrépito e supostamente assombrado, reformando-o um pouco, e abre sua loja. Penelope Fitzgerald compõe a história de sua protagonista e sua aventura de maneira melancólica, com uma prosa econômica (sem ser telegráfica) que remete ao estilo de uma literatura inglesa antiga.
 
É na economia da descrição de personagens e ação que a autora encontra a força de seu A livraria. É como se a história de Florence fosse tão contida que não demandasse muitas palavras, o que não quer dizer que o romance seja contido. Fitzgerald cria um mundo a partir do microcosmos da vila – ou aquilo que Raymond Williams chama de “comunidade cognoscível”.
 
Florence é a estrangeira ali, mudou-se há cerca de uma década, depois da morte do marido, e com experiência em uma livraria grande. Seu propósito, no entanto, bate de frente com uma mulher rica local, Violet Gamart, que pretendia convencer a prefeitura a abrir um Centro de Artes no casarão. O embate entre as duas é discreto e construído sob uma tensão escondida em falsas gentilezas.
 
Publicado originalmente em 1978, A livraria ressoa especialmente hoje, num momento de obscurantismo ideológico e caça às bruxas, quando a cultura tem se tornado cada vez mais alvo de censura. Os habitantes de Hardborough não liam porque não havia uma livraria (ou biblioteca) na cidade, ou porque não liam não tinha uma livraria lá? Florence ousa quebrar esse círculo vicioso que compõe parte da ignorância que garante a manutenção do poder. O preço, no entanto, pode ser alto.
 
O romance foi adaptado para o cinema pela espanhola Isabel Coixet e ganhou diversos prêmios Goya, entre eles, melhor filme, diretor e roteiro adaptado.

O grande épico russo

Por Alysson Oliveira em 02/01/2018
Poucos filmes realmente merecem levar o adjetivo épico – uma palavra tão banalizada no presente. Talvez, entrem na lista O nascimento de uma nação, ... E o vento levou, Ben-hur, Spartacus, Doutor Jivago, e, aquele a que Roger Ebert chamou de “o épico definitivo de todos os tempos”, a versão russa de Guerra e Paz, de Sergey Bondarchuk. Foi preciso um filme de mais de 7 horas – dividido em 4 partes, e pode ser visto como uma série – para captar toda a grandiosidade do romance de Liev Tolstói. O filme foi está disponível em DVD no Brasil.
 
Com orçamento e tempo (foi rodado ao longo de 7 anos), Bondarchuk faz uma obra fiel ao espírito de Tosltói, mas mais do que isso: fiel ao espírito russo do século XIX, que, embora as pessoas, é claro, não soubessem estavam com os dias contados. O diretor - que assina o roteiro com Vasiliy Solovyov – mais do que transitar entre a Guerra e a Paz (campos de batalha x intrigas amorosas em salão de baile) transita entre o pessoal e o político, o movimento da história que invade a vida das pessoas – é bem verdade que essas pessoas aqui são representantes de uma aristocracia, mas, ainda assim...
 
O próprio Bondarchuk assume o personagem mais complexo e complicado aqui, Pierre Bezukhov, um sujeito sem nada de especial, praticamente um covarde que por conta de circunstancias adquire um senso de nobreza de espírito que não se esperava dele. Lyudmila Saveleva é Natasha Rostova, provavelmente a personagem mais graciosamente irritante da literatura, e Vyacheslav Tikhonov, o Princípe Andrei Bolkonsky. Cada uma dessas figuras está ao centro das partes do filme – sendo que um dos segmentos é devotado ao ano de 1812, com a invasão de Napoleão à Rússia.
 
E, num filme tão marcado por personagens masculinos fortes e cenas de guerra imponentes, os mais belos momentos são protagonizados por Lyudmila – que tem formação de bailarina, e não de atriz, e as duas cenas, envolvem de certa forma, a dança. A primeira é sua entrada num grande baile, Natasha não mais que uma adolescente de olhos arregalados e encantada com todas as possibilidades (e erros, especialmente) que a vida tem a lhe oferecer. A segunda, numa hospedaria bastante rudimentar, onde ela faz uma dança folclórica.

Doutor Jivago: Guerra e Paz – e algumas revoluções entre os dois extremos

Por Alysson Oliveira em 28/12/2017
Completando 60 anos de sua publicação original (na Itália), DOUTOR JIVAGO continua sendo um romance do século XX que parece um romance russo do século XIX. Num certo sentido, Boris Pasternak é um herdeiro de Liev Tolstói e seu Guerra e Paz. A narrativa começa no início do século passado, quando morre a mãe do pequeno Iúri Jivago, que passa aos cuidados do tio, um ex-padre que se torna militante. O livro acaba de sair numa nova tradução direto do russo, assinada por Sonia Branco (prosa) e Aurora Fornoni Bernardini (poesia).
 
A partir daí, Pasternak acompanha 40 anos da vida russa, o que inclui duas guerras, duas revoluções, uma fome gigantesca, um regime de terror, até seu epílogo melancólico nos anos de 1940. Entre uma coisa e outra, o protagonista ainda arruma tempo para ter três amantes e alguns filhos. É um romance repleto de ação, além de elucubrações sobre militância política, ideologia e revolução. Não há uma página no livro sem que aconteça algo, por isso chega a ser espantoso que Nabokov o tenha chamado de aborrecido.
 
Não que o livro seja destituído de problemas. O próprio Jivago é um personagem um tanto frágil, romântico, sonhador e ingênuo em diversos momentos, mas são as figuras femininas que mais espantam em sua simplicidade. Tonia, a primeira mulher do protagonista; Lara, seu grande amor; e as outras menores soam mais como idealizações femininas do que pessoas com densidade de sentimentos e ações.
 
Pasternak, antes de tudo era um poeta, e há passagens de profunda poesia na narrativa – além dos poemas “escritos” por Iúri Jivago publicados na última parte do livro – como essa, ainda no começo do romance:
 
Era um dia seco e gelado do início de novembro. Do céu cinza-chumbo desprendiam-se raras partículas de neve, que pairavam hesitantes no ar antes de tocarem o solo, para em seguida formarem uma poeira cinza e aveludada sobre os buracos do caminho.
 
Famosamente, o livro foi proibido na União Soviética (aparecendo oficialmente lá apenas em 1987, dois anos antes do regime comunista cair), e o autor foi obrigado a declinar o Nobel em literatura que recebeu em 1958, por “sua grande conquista tanto na poesia lírica quanto no campo da grande tradição épica russa”, segundo a justificativa, ligando sua obra poética com Doutor Jivago, e colocando par-a-par com Guerra e Paz, que é o romance que ocorre quando se pensa em “tradição épica russa”. Embora, obviamente, há bastante diferença entre o momento histórico da Rússia na escrita dos dois romances.
 
Em Doutor Jivago, Pasternak não parece condenar o regime comunista especificamente, mas qualquer governo totalitário, cujas ações passam como rolo compressores por cima dos indivíduos. O romance é um documento vivo da Rússia se transformando em URSS. Seus personagens são figuras de um momento de grande transição presos a uma tradição do passado e sem saber o que o futuro lhes reserva. Ainda assim, especialmente na figura de Jivago, Pasternak e seu romance sabem que a Rússia precisava passar por mudanças sociais – por isso mesmo, todo o caminho que a narrativa e seus personagens percorrem ganha tanta força.

Há 50 anos, o inverno eterno chegou para ficar

Por Alysson Oliveira em 04/12/2017
Gelo, a obra-prima da inglesa Anna Kavan (née Helen Emily Woods) completa 50 anos – uma edição comemorativa acaba de ser lançada, pela Penguin americana; no Brasil, o livro está esgotado, mas é possível encontrar em sebos – e se mostra tão atual quanto necessário. Mais do que isso, a autora toca em temas que, nesse meio século, ganharam projeção e se tornaram fundamentais, como catástrofes climáticas e abuso emocional contra mulheres.
 
O cenário de Gelo, como indica o título, é um mundo tomado por neve. Pouco se sabe sobre o cataclismo glacial, mas pouco se sabe como isso se deu – não importa. A trama é narrada por um homem sem nome que se diz soldado e explorador em busca de uma antiga paixão, a quem se refere como “a garota de vidro” com cabelo prateado. Pouco se sabe sobre ela, que é vista apenas como o gélido objeto do desejo dele. Ela é uma personagem vazia, destituída de mais características a não ser aquelas que o narrador atribui a ela.
 
Paredes de gelo estão se fechando, diminuindo cada vez mais o espaço habitável do planeta. O mundo é dominado por guardião poderoso que se torna o rival do narrador pela posse da Garota (ela é tratada assim, embora já seja adulta). Os interesses e desejos dela pouco importam para eles. Na medida em que o romance avança a disputa se torna mais acirrada, assim como os abusos que ela passa a sofrer – primeiro emocionais, e depois sexuais.
 
Gelo é um romance quase surrealista, de uma leitura dolorosa que beira o incompreensível. Não adianta tentar entender, tentar organizar a narrativa, buscar fatos concatenados. A trama é uma sucessão de fragmentos, cristais de gelo, que nem sempre se encaixam, mas uma constante permanece: o achatamento da subjetividade feminina.
 
O escritor Jonathan Lethem, começa sua introdução na edição da Penguin dizendo: “é um livro como a lua é a lua. Só há uma.” E essa é uma característica que diversos comentaristas destacam ao longo desse meio século: Gelo é único. O livro já foi definido, pelo seu editor, Peter Owen, como uma mistura entre Kafka e a série inglesa dos anos de 1960 Os Vingadores, e até isso, por mais bizarro que possa soar, faz sentido. Lethem, novamente, diz que os “primos mais próximos” que ele consegue imaginar para Gelo são o romance Crash (1973), de J. G. Ballard e os filmes Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard, e O ano passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais. Todos mais ou menos contemporâneos, mas o livro de Kavan traz um diferencial: sua percepção sobre a posição da mulher num mundo dominado por homens.
 
A autora morreu em 1968, pouco depois da publicação do livro, que, em inglês, nunca ficou fora de catálogo. Ela foi viciada em heroína, e seu protagonista/narrador usa drogas que o fazem ter alucinações, envolvendo a Garota, violência e pornografia. Publicado pouco antes da Segunda Onda do Feminismo, Gelo conecta a política global da época – a Guerra Fria – com uma espécie de violência contra a mulher. Tudo isso embalado numa prosa experimental – o que não é pouco. O resultado é um romance estranho, quase incompreensível, mas sedutor em sua força e poder.

Blade Runner 2049: Células interligadas

Por Alysson Oliveira em 04/10/2017
O que sonham os androides, se é que os androides sonham, quando sonham? Talvez sonhem em alcançar a humanidade que lhes será negada. Blade Runner 2049 é um Pinóquio pós-industrial no qual máquinas nos lembram o que é ser humano num dado momento da história.
 
Trabalhando com roteiro assinado por Hampton Fancher (roteirista do original) e Michael Green (Deuses Americanos, Logan), o canadense Dennis Villeneuve não deixa pesar o sobre os ombros do seu filme a mitologia do original. Por isso é capaz de criar um longa que fica a par com o de Riddley Scott, de 1982, e faz uma bela homenagem à obra de Philip K. Dick, sem que seja uma adaptação propriamente dita (embora alguns dos interesses e ansiedades do escritor estejam todos na tela). Aqui, novamente, a trama transita entre o noir e a ficção científica.
 
K (Ryan Gosling) é um policial de Los Angeles que trabalha “aposentando” androides que aspiram à humanidade. Logo na primeira cena, no entanto, após exterminar um sujeito que tem uma fazenda de proteínas surge uma complicação. Descobre-se que uma androide deu uma criança à luz – o que pode causar uma nova rebelião, elevando o status dos humanoides.
 
A questão central aqui é a discussão daquilo que nos caracteriza como humanos: a capacidade de reproduzir. Ficção científica, no cinema e na literatura, é o gênero das grandes ideias, o gênero que extrapola os limites da realidade e, ainda assim, se mantém no real, no plausível. Toda vez que K termina uma missão, ele passa por uma interrogatório, tendo que responder perguntas com rapidez. Nenhuma faz muito sentido, mas as palavras que ele mais repete são “células” e “interligadas”. Tudo isso para investigar se sua porção robô e sua porção humana estão em equilíbrio. E sempre estão – até o dia em que não, e o mundo sai dos eixos.
 
Blade Runner 2049 é um filme de ação, mas também de questionamentos e investigações. Está longe de ser um filme filosófico – que Deus o abençoe! – mas é sobre questionamentos e incertezas. Deckard vai aparecer com bem mais de uma hora de projeção, e a figura de Harrison Ford é, ao mesmo tempo, imponente e abatida – vivendo num mundo de resíduos daquilo que conheceu, coberto por uma areia talvez contaminada e estátuas fantasmagóricas que formam um caminho lembrando o passado grandioso de um mundo que se deixou levar por suas ambições. Um mundo onde nem humanos nem Pinóquios parecem ter vez. Um mundo fadado ao fracasso.

Jane Fonda e Robert Redford brilham em "Nossas Noites"

Por Alysson Oliveira em 30/09/2017
Louis Waters prepara o seu jantar, senta-se à mesa, come, lava a louça, liga a televisão, vai fazer as palavras cruzadas do jornal (ops, já tinha feito mais cedo), como faz todas as noites. Em sua primeira cena OUR SOULS AT NIGHT/ NOSSAS NOITES, lançado hoje na Netflix, é capaz de transmitir toda a sensação de uma rotina antiga que é interrompida pela campainha. Quem toca é Addie Moore (Jane Fonda), vizinha da casa da frente há alguns anos, mas eles mal se conhecem.
 
Ela tem um pedido inusitado: será que ele poderia ir à casa dela todas as noites para dormirem juntos? Não tem nada de sexual, nem romântico na proposta. É um arranjo prático. Ambos são viúvos há anos, e a solidão bate cada vez mais forte à noite. Ele estranha, mas acaba aceitando o convite. Nas primeiras visitas, entra pela porta dos fundos, até que ela se recusa a abrir a porta e ele tem que entrar pela frente. Afinal, eles não estão fazendo nada de errado, não têm nada a esconder.
 
Dirigido pelo indiano Ritesh Batra (The Lunchbox), Nossas Noites é um filme exatamente sobre arranjos práticos num momento da vida em que cada minuto conta mais. Dessas noites, com muita conversa antes de se deitar e também na cama, Louis e Addie podem revisitar seus passados, especialmente os erros e traumas que tiraram suas vidas do prumo. É um exercício de perda de pudor – mais do que tirar as roupas um na frente do outro, o que, eventualmente, acabará acontecendo – porque os dois têm feridas profundas e não cicatrizadas, e talvez seja a última chance de ficar em paz consigo mesmos.
 
Jane e Redford repetem a parceria de O Cavaleiro Elétrico (1979), Descalços no Parque (1967) e A Caçada Humana (1966), e suas atuações são o que há de mais bonito nessa adaptação do romance póstumo de Kent Haruf. A dimensão humana que cada um traz ao seu personagem é capaz de superar a direção um tanto opaca de Batra. Mas que, por isso mesmo, dá chance à dupla de brilhar. Há também o belga Matthias Schoenaerts, como filho de Addie, e Judy Greer, como filha de Louis. Mas, dos coadjuvantes, quem se destaca é o pequeno Iain Armitage, como o neto de 7 anos, que é deixado na casa da avó e acaba ajudando a cimentar a relação dela com o vizinho.
 
Sem o elenco inspirado, o filme poderia cair facilmente numa telenovela, mas as delicadas interpretações evitam isso. E, mais do que a química, o prazer de Redford e Jane de contracenar um com o outro é palpável na tela, e capaz de elevar o filme a uma dimensão maior do que o diretor é capaz de alcançar.

Longas jornadas noites adentro

Por Alysson Oliveira em 25/09/2017
Addie Moore faz uma proposta inesperada ao seu vizinho, Louis Waters, e depois de muito hesitar, faz uma proposta: “Eu gostaria de saber se você consideraria vir à minha casa às vezes para dormir comigo. [...] Quero dizer somos os dois solitários. Estamos sozinhos por muito tempo. Por muitos anos. Estou solitária. Gostaria de saber se você viria e passaria a noite comigo. E conversássemos”. Ela, do alto de muitas décadas de vida e viúva, faz essa proposta a ele, que está nas mesmas condições.
 
Assim começa OUR SOULS AT NIGHT (no Brasil, NOSSAS NOITES, lançado pela Cia das Letras, com tradução de Sonia Moreira), romance postumamente publicado que Kent Haruf escreveu pouco antes de morrer, aos 71 anos, em 2014, por isso não é de se duvidar que as ansiedades e aflições de seus personagens são as mesmas que ele enfrentava com a idade.
 
Seu romance é delicado e preciso em sua percepção de uma sociedade na qual as expectativas de vida é cada vez mais alta, mas que essa mesma sociedade não sabe muito bem o que fazer a uma parcela da população que atinge certa idade. É como se esperassem que vivessem sob algum código do passado, da época de sua criação e juventude, negando-lhe alguns dos direitos que os mais jovens têm.
 
O relacionamento de Addie e Louis, a princípio, pelo menos, não tem nada de romântico. É praticamente um arranjo prático, mas que escandaliza a pequena cidade onde moram no Colorado. Logo a história chega aos ouvidos do filho dela, e se transforma num conflito. É quando o mundo real irrompe e atrapalha o idílio entre o casal de protagonistas.
Com uma prosa, ao mesmo tempo, direta mas também poética, Haruf dá conta de laços que unem seus personagens de forma terna, mas também transgressora. Não se espera que eles reencontrem o amor – ou algo parecido – a essa altura de suas vidas, mas eles infringem esses limites, e encontram consolo um no outro.
 
Recentemente, a obra foi adaptada para o cinema, com Jane Fonda e Robert Redford nos papeis centrais, com direção de Ritesh Batra (The Lunchbox), previsto para estrear no Netflix na próxima sexta-feira.

Erguendo mundos para os esfacelar

Por Alysson Oliveira em 07/09/2017
Um dos elementos mais importantes e fascinantes de livros e filmes de ficção-científica e fantasia é a construção de um mundo próprio. Pode ser bem parecido com o nosso, mas pode também ser o nosso de maneira cifrada – nesse sentido, é capaz que seja ainda mais semelhante àquele em que vivemos. É um elemento básico para a narrativa, mas não fácil de atingir, pois é preciso coerência e coesão internas, tudo estar muito bem armado para que o leitor acredite naquele mundo. Não são muitos escritores e escritoras que conseguem tal feito à perfeição. Em seu THE FIFTH SEASON, a norte-americana N. K. Jemisin faz isso de maneira insuperável, é brilhante. Ergue um mundo com pontos de contato com o nosso, cria geografia, fauna, flora e habitantes – para, ao mesmo tempo, destruir esse mundo. Ela pode se dar a esse luxo.
 
A terra onde a trama se passa é chamada Stillness (há até um mapa no começo do livro) – o nome é irônico, pois o que mais há nesse lugar é um fluxo de transformações, nem sempre positivas. De tempos em tempos, o lugar enfrenta apocalipses das mais variadas magnitudes, e há até um apêndice no final do romance recontando cronologicamente cada uma dessas destruições. Dessa forma, a realidade da civilização e das pessoas do lugar é efêmera, não é possível fazer grandes planos pois o lugar onde mora vai ser varrido do mapa a qualquer momento. Gerações vivem debaixo desse véu da incerteza.
 
Cada um dos desastres é chamado de Season, e o próximo, acredita-se, será o mais devastador, varrendo até a história da História. Dessa forma o passado e presente da protagonista, Essun, professora de uma escola primária, são incertos. Sua vida é marcada pela tragédia, quando marido matou o filho e fugiu com a filha, que também parece ter matado. Essun quer encontrar sua filha, mas também quer vingança, e o poder sobrenatural que ela tem é a sua arma. Jemisin fratura sua trama em três personagens – as outras duas são Syen e Damaya – , cujas histórias se sobrepõem até o momento em que deverão se encontrar.
 
A diversidade de ponto de vistas permite uma visão mais abrangente de Stillness, sua história, pessoas e eventuais destruições. Jemisin escreve com segurança e sem floreios. Sua força está na criação das personagens e desse mundo, tudo englobado numa lógica interna que não engessa o livro, mas traz-lhe coerência. A autora toca em temas difíceis sem fazer de seu romance um panfleto, mas, sim, uma possibilidade de figuração do nosso presente, e especialmente dos afrodescendentes, quando aborda questões como genocídio e eugenia. Há alguns momentos em que The Fifth Season lembra Octavia Butler – especialmente quando se busca uma conexão entre as narrativas de escravidão e a questão racial no presente.
 
The Fifth Season – previsto para ser lançado no Brasil ainda esse ano – é o primeiro romance da trilogia The Broken Earth. E ganhou o Hugo, um dos principais prêmios do gênero, no ano passado. Sua sequência, The Obelisk Gate, levou o mesmo troféu nesse ano, em agosto passado. E o último romance da série, The Stone Sky, lançado há poucos dias, também, por motivos óbvios, já desponta como favorito para a premiação no próximo ano.

Até que a morte do líder os separe: HQ A morte de Stalin

Por Alysson Oliveira em 08/08/2017
 
O escritor Fabien Nury e o ilustrador Thierry Robin foram muitos feliz na escolha do tema para os quadrinhos A MORTE DE STÁLIN (Trad. Paulo Werneck; cores: Robin e Lorien Aureyre), um fato um tanto obscuro da história, envolvendo uma das figuras mais importantes do século passado. Mais do que Stálin em si, o que interessa à dupla são os eixos da história se movendo e as intrigas políticas pessoais que seguem às horas da morte do “pai do povo”.
 
Há, obviamente, um enfoque político na obra dos franceses, mas é pela chave satírica que esse se dá, o que a faz extrapolar no espaço e tempo – indo além da União Soviética de 2 de março de 1953, quando Stálin morreu, e sua morte foi declarada dois dias depois. É nesse período que explodem disputas, erros e uma tragicomédia (com momentos constrangedores) pela disputa do poder.
 
Figuras-chave do episódio, como Nikita Khrushchev, Lavrenty Beria, Geórgiy Malenkov, Nikolai Bulganin, além dos filhos Vasily e Svetlana Stálin, dão o ar da graça nas páginas desenhadas por Robin que carrega nos traços para ressaltar o que há de mais grotesco em cada um – especialmente políticos – com a possibilidade de ascensão ao poder, ou da perda dos privilégios e proteção.
 
Visualmente, a HQ é rica em detalhes, e poderosa em seu enfoque que transita entre o pessoal e uma epopeia de erros. A parte mais bonita e que bem resume todo o livro está no começo do segundo capítulo, no qual a página da esquerda mostra detalhes do corpo de Stálin sendo preparado para o funeral, e na seguinte, o caixão vermelho e luxuoso é mostrado em plongée. O próprio Nury credita a ideia toda a Robin, e define como “uma ironia visual discreta mas [...] esplêndida”. E a cena dá um momento de protagonismo a Stálin, de quem tanto se fala no livro, mas que, obviamente, pouco aparece.
 
Há liberdades ficcionais aqui – especialmente no bem-sacado prólogo, que traz a causa mortis (dentro do universo ficcional da HQ) de Stálin – mas dado o pouco que realmente se sabe (a história oficial, como de qualquer país, é muito maquiada, filtrada), as coisas podem ter acontecido de várias maneiras – até como Nury e Robin imaginaram.