Celulóide Digital

A lista dos melhores filmes, do ano e da década

Por Neusa Barbosa em 23/12/2010
Fim de ano, hora de balanço. E de sofrimento. Embora 2010, ao que parece, não tenha sido particularmente brilhante – especialmente para a ficção no cinema brasileiro, com honrosas exceções – , é sempre duro fechar uma lista com apenas 10 melhores, como costuma ser a praxe.
 
Enfim, me matei em cima dos lançamentos e fechei esta lista abaixo, já deixando de fora uma série de menções de filmes que acho também extraordinários – mas alguma prioridade a gente tem que dar, então, lá vai:
 
A fita branca, de Michael Haneke  
 
O profeta, de Jacques Audiard  
 
Abutres, de Pablo Trapero  
 
Minha terra, África, de Claire Denis
 
Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Karim Ainouz e Marcelo
Gomes  
 
O sol do meio-dia, de Eliane Caffé  
 
Vincere, de Marco Bellocchio  
 
A estrada, de John Hillcoat  
 
Aproximação, de Amos Gitai  
 
Um homem que grita, de Mahamat Saleh Haroun  
 
 
Lembrados, lembradíssimos: O homem que engarrafava nuvens, de Lírio Ferreira; Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar; Almas à venda, de Sophie Barthes; O grão, de Petrus Cariry; José e Pilar, de José Gonçalves; Tropa de Elite 2, de José Padilha; Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte; Terra deu, terra come, de Rodrigo Siqueira; A Origem, de Christopher Nolan.   
 
 
Pior ainda, me senti na obrigação de me arriscar a também fechar uma lista dos meus preferidos da primeira década do século. Coisa de louco!! Achei 10 muito pouco, cheguei aos 30. Então, vai ficar muita coisa que amo de fora, porque não dá para colocar 1.000 filmes, aí não vale...
 
Falando de década, a responsabilidade aumenta, porque tentei mesmo pensar quais filmes marcaram, sintetizaram o espírito da época, foram inovadores, polêmicos no melhor sentido e... ficaram. Para mim, pelo menos.
 
Ficou assim:
 
A questão humana, de Nicolas Klotz  
Santiago, de João Moreira Salles
Serras da desordem, de Andrea Tonacci  
A criança, de Jean-Pierre e Luc Dardenne  
Fale com ela, de Pedro Almodóvar  
O invasor, de Beto Brant
Amantes constantes, de Philippe Garrell  
O mundo, de Jia Zhang-ke  
Meu nome é Joe, de Ken Loach
Dez, de Abbas Kiarostami
Arca Russa, de Alexander Sokurov
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho
Cidade de Deus, de Fernando Meirelles
Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood
A vida dos outros, de Florian Henckel Von Donnesmarck
Dolls, de Takeshi Kitano
Bom dia, noite, de Marco Bellocchio
Medos privados em lugares públicos, de Alain Resnais
Um filme falado, de Manoel de Oliveira
Não estou lá, de Todd Haynes
Depois da vida, de Hirokazu Kore-eda
Dogville, de Lars von Trier
A última noite, de Robert Altman
Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci
Nossa música, de Jean-Luc Godard
Império dos Sonhos, de David Lynch
Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas
Os catadores e eu, de Agnès Varda
Diários de Motocicleta, de Walter Salles
O homem que não estava lá, de Joel e Ethan Coen
 
Nem bem acabei, já me lembro de Paul Thomas Anderson e de seus essenciais Magnólia e Sangue Negro. Sem contar todos os filmes sensacionais que passaram na Mostra SP (caso da minissérie Carlos, de Olivier Assayas, e do magnífico Mistérios de Lisboa, de Raul Ruiz) e outros festivais, e também no circuito alternativo (como o CCBB-SP, que teve Ozu, Hou Hsiao Hsien e logo terá Michael Powell e Emeric Pressburger).
 
Então, é isso aí. Convido os leitores a comentarem, criticarem e mandarem também as suas listas.
Que o amor pelo cinema nos inspire!

Liberdade para Jafar Panahi

Por Neusa Barbosa em 22/12/2010
Jafar Panahi, o cineasta iraniano, foi preso novamente. Desta vez, condenado a 6 anos de prisão e 20 anos de silêncio artístico, impedido de produzir e dirigir filmes, o que é a sua vida e a sua profissão.
 
É inaceitável o que acontece em termos de liberdade de opinião no Irã. Não podemos nos calar diante deste crime, desta prisão, que lembra os piores momentos da história do mundo, de todas as ditaduras.
 
O autor de filmes como O Círculo (em que deu face à discriminação das destemidas mulheres iranianas, ameaçadas inclusive do primitivo apedrejamento); Fora do Jogo, em que mostrou que as mulheres sequer podem torcer em estádios de futebol naquele país (!); Ouro Carmim, em que revelou poderosas contradições sociais e econômicas num país em que o debate político é sufocado pelo fundamentalismo religioso; O Balão Branco, síntese poética na história de uma criança; este homem não pode ser calado à força, nem mantido prisioneiro, nem impedido de deixar o seu país, nem levado a repetir a greve de fome a que recorreu no primeiro semestre de 2010, quando já havia sido levado à prisão. E isto apenas por fazer parte do movimento de oposição ao atual governo Mahmoud Ahmadinejad, fantoche populista de um conselho de aiatolás reacionários.
 
Se os foros políticos hesitam (e aí o Brasil também pode ser cobrado), pelo menos os foros culturais já estão se mobilizando para que a prisão de Jafar não caia no esquecimento, nem ele seja vítima de uma conspiração do silêncio – fácil de acontecer num mundo em que a mídia é obcecada pelo imediato e a celebridade fútil.
 
O Festival de Berlim, que acontece em fevereiro de 2011, já convidou o cineasta para ser seu jurado. Seu provável impedimento se tornará, então, pedra de toque de uma movimentação internacional pela sua libertação imediata. Todos os outros festivais do mundo poderiam fazer o mundo. Todas as associações de diretores, atores, produtores, roteiristas, técnicos cinematográficos de todo o mundo deveriam pensar em como premiá-lo, lembrá-lo, homenageando-o com retrospectivas e o que mais se puder criar em favor de sua liberdade. Que é, afinal, a liberdade de todos nós.
 
Soltem Jafar já!

Brasília olhou o novo e colheu novos caminhos e um descaminho

Por Neusa Barbosa em 02/12/2010
No final, a 43ª edição do Festival de Brasília acabou sem que a grande novidade prometida rolasse. Mas é inegável que se apontaram alguns caminhos – e pelo menos um descaminho.
Um saudável respiro está no longa Transeunte, em que Eryk Rocha experimenta a ficção com muitas idéias na cabeça e muita fé nas imagens. A fotografia em preto-e-branco e a montagem pulsante garantem que nos interessemos pelo tumulto interior do homem em seu primeiro dia de aposentadoria, querendo saber como reinventar sua vida (Fernando Bezerra).
Este foi, para mim, o melhor e o mais inventivo filme da seleção deste ano, que colocou em circulação novos diretores – alguns muito bons, caso não só de Eryk como do mineiro Sérgio Borges, que venceu os troféus de melhor filme e direção com seu sensível docudrama O Céu sobre os Ombros.
Essa fronteira indecisa entre realidade e ficção alimenta a produção mineira, com três personagens verídicos reencenando, não se sabe ao certo com que grau de fidelidade à realidade, elementos de suas vidas. De todo modo, os três têm biografias que desafiam a imaginação e merecem, só por isso, o Prêmio Especial do Júri que levaram como ‘personagens-atores’.
Esteve nestes dois filmes o melhor deste festival. Os dois trabalhos me parecem os mais capazes de frutificar em outros rumos, outras buscas. Bem ao contrário do pretensioso, formalista e vazio Os Residentes, de Tiago Mata Machado – que pareceu mais preocupado em entupir seu filme de referências intelectuais e cinematográficas do que em deixar uma fresta para que o público, qualquer público, pudesse penetrar. Os quatro prêmios ao filme me pareceram um injustificável excesso.
A Alegria, da dupla carioca Felipe Bragança e Marina Meliande, peca, até certo ponto, pela mesma ânsia de querer visitar todas as famílias cinematográficas às quais os diretores se sentem filiados. Não é um filme destituído de qualidades. Mas o peso das referências compromete o ritmo, em prejuízo da organicidade da história mesma.
Amor?, de João Jardim, tem seu ponto forte na forte empatia que alguns de seus atores despertam para histórias de amores violentos. Mas as histórias não têm todas a mesma força e talvez sejam em número excessivo (8) para este formato de documentário que busca amparo na ficção.
O pernambucano Vigias, de Marcelo Lordello, pagou o preço da inexperiência, bem como da falta de dinheiro e de tempo para extrair o filme que procura, a partir de uma sadia tomada de posição de enxergar o ‘andar de baixo’ da sociedade brasileira. Aliás, Pernambuco vem ficando na vanguarda deste cinema de observação social, com foco numa realidade contraditória e não raro, criminosa – como demonstrou o premiado curtametragista Felipe Peres Calheiros, e seu potente Acercadacana, que teve o mérito de apresentar ao país a luta da agricultora dona Francisca contra uma grande empresa para manter o usucapião de meio hectare.
Acercadacana foi uma exceção no panorama dos curtas, na média, fracos este ano. Outras exceções de qualidade foram Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini, Braxília, de Danyella Proença (apresentando, com muita propriedade, o poeta Nicolas Behr ao resto do Brasil) e A Mula Teimosa e o Controle Remoto, aula do melhor cinema do diretor Hélio Villela Nunes.