Celulóide Digital

Mais salas, mais filmes, viva a diversidade!

Por Neusa Barbosa em 17/11/2011
O Palhaço, de Selton Mello, é o sétimo filme brasileiro lançado neste ano a ultrapassar a marca do 1 milhão de espectadores. E realizando a façanha de emplacar o primeiro lugar no ranking geral das bilheterias do País na segunda semana de exibição – o que é indicador seguro de que o boca a boca foi bom.
 
O público tem abraçado esta comédia singela e bem-intencionada, que saudavelmente se desvia de muitos dos cansativos clichês televisivos que embalam outras comédias campeãs de bilheteria em 2011 – dando nome aos bois, Cilada.com (campeão nacional do ano, com 3,2 milhões de espectadores), De Pernas pro Ar (a vice, com 3,1 milhões) e Qualquer Gato Vira-Lata (2,1 milhão).
 
Não quero aqui brigar com o público. Se existem esses milhões de pessoas que se divertem com estas comédias, sou a favor, está tudo bem. Só acho muito mais legal que em 2011 pelo menos duas comédias nacionais tenham saído dessa formulinha ditatorial que combina atores globais com dramaturgia precária. E esses dois foram O Palhaço e também O Homem do Futuro (visto por 1,2 milhão de pessoas), em que o roteiro brinca com viagem no tempo de uma forma bem legal.
 
Por trás de todos esses sucessos, reina a indispensável presença do ator que magnetizam o público. Selton Mello e Wagner Moura são dois desses que são mágica de bilheteria. É entrarem num projeto que o público se liga. Ponto para eles que procurem projetos que ousem um pouco mais, melhorando as opções que são ofertadas a todos nós. Dieta de uma comida só ninguém aguenta, nem merece...
 
Num ano bom desses, em que o cinema brasileiro repete o bom desempenho de 2003, embora sem igualar 2010 – que teve o fenômeno Tropa de Elite 2, com 11 milhões de espectadores -, só dá para lamentar que continue se repetindo o fenômeno da ocupação de metade de todo o circuito brasileiro, com seu total de 2.200 salas (insuficiente para o País, por certo), por um único blockbuster – nesta sexta, Saga Crepúsculo Amanhecer Parte 1 desembarca em cerca de 1.100 salas.
 
Diante dessa tomada, o que vai sobrar para O Palhaço – que detinha 262 salas até esta semana e ia muito bem? Vai encurtar sua carreira? Deixar de cumprir seu potencial, como já aconteceu com vários filmes brasileiros (aliás, nem só brasileiros) ? Isto é bom, justo, conveniente, saudável ? Se é, para quem?
 
Já é hora de o mercado exibidor, distribuidor e produtor de cinema, críticos e espectadores no Brasil reverem este modelo. E cada um fazer a sua parte.

Mostra 2011 - um balanço

Por Neusa Barbosa em 04/11/2011
Está terminando a 35ª edição da Mostra. Mesmo num formato ligeiramente mais enxuto (250 filmes!), o festival mostrou mais uma vez sua mesma energia na descoberta de produções que passam infelizmente longe dos nossos circuitos comerciais – mais padronizados, impossível. A característica mais marcante de nossos cineplexes, infelizmente, é o cheiro dessa monolítica e inevitável pipoca.
 
Eu não sou melhor do que ninguém, mas tenho um paladar que necessita de novidades – na gastronomia e mais ainda no cinema. Mesmo frequentando anualmente diversos festivais, no Brasil e fora dele, espero a Mostra com ansiedade. As descobertas da Mostra me alimentam. Entre elas, este ano, revelou-se a pujança do cinema russo. Filmes como Elena, de Andrey Zyagyntsev (de O Retorno); Alexander Mindadze e seu inquieto Sábado Inocente; a retrospectiva do rebelde Aleksei German (de quem visitei Vinte Dias sem Guerra e Krushyalov, meu carro!, provavelmente o filme mais louco que vi na Mostra). Ainda tenho anotado para ver na repescagem Movimento Reverso, de Andrey Stempkovsky (atração da próxima quarta).  
 
O georgiano-armênio Sergei Paradjanov foi outra redescoberta. Seus planos, um mais belo e inquietante do que o outro nos perseguem – tomara que futuramente alimentando nossos sonhos – em filmes como A Cor da Romã. Que mundo era aquele que habitava aquela imaginação prodigiosa que, impedida de se materializar em filmes, reproduziu-se em suas belas colagens, muitas das quais podem ser vistas ainda na exibição do MIS, até 20 de novembro ?
 
Os documentários foram um ponto alto nesta edição. Meu favorito de corpo e alma foi A Maleta Mexicana, de Trisha Ziff, que aborda um tema muito caro para mim, a Guerra Civil Espanhola, e a espantosa redescoberta do trabalho de três fotógrafos que a imortalizaram – Robert Capa, Gerda Taro e David Seymour (Chim).  Mas não posso deixar de anotar no meu caderno de favoritos a dose dupla de alta qualidade do veterano alemão Werner Herzog nos belos A Caverna dos Sonhos Esquecidos (em que demonstra uma ótima utilização do 3D) e Happy People – a Year in the Taiga (com codireção de outro russo, Dimitry Vasyukov). E também Alexander Sokurov – Questão de Cinema, em que Anne Imbert oferece uma verdadeira aula magna do diretor russo (presente nesta Mostra com seu vigoroso Fausto). Sem esquecer a série Mafrouza, da francesa Emmanuele Demoris, fã do nosso Jorge Bodanzky.
 
A retrospectiva Elia Kazan – pena que não pode ficar na repescagem – foi outra oportunidade de ouro de olhar para a dualidade humana, na obra maior de um cineasta polêmico, indelevelmente marcado pela delação no macarthismo. Filmes magníficos como Terra de um Sonho Distante (America, America), Um rosto na multidão, Uma rua chamada pecado, O justiceiro, só podem nos fazer pensar nas duas coisas.
 
Da longa série de clássicos restaurados, não esqueço das imagens impecáveis de Despair, um dos filmes mais originais de Rainer Werner Fassbinder, um dos alemães que fizeram minha cabeça no cinema dos anos 80 (com Herzog e Wim Wenders).
 
Muito se fala que o humanismo está em baixa no mundo e que os nossos melhores valores estão perdidos. Não no cinema, felizmente. Filmes como os calorosos O garoto da bicicleta, dos belgas irmãos Dardenne; As neves do Kilimandjaro, do francês Robert Guédiguian; e Era uma vez na Anatólia, do turco Nuri Bilge Ceylan, só demonstram que os cineastas de todas as latitudes continuam humanos, muito humanos, para a salvação da espécie.
 
O cinema italiano mostrou força no trabalho de dois veteranos, no hilariante Habemus Papam, de Nanni Moretti, e no inventivo e delicado Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio. A Grécia pode andar arruinada, mas seu cinema é capaz de nos propor instigantes esfinges, como Attenberg, de Athina Rachel Tsangari.
 
O cinema brasileiro pulsou na tela com a paixão visceral de Lavínia (Camila Pitanga), uma das mais belas personagens femininas do cinema e da literatura brasileiros em Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, o filme de Beto Brant e Renato Ciasca enraizado no livro de Marçal Aquino. Enigmático e belo em seu poético P&B, igualmente Sudoeste, de Eduardo Nunes, promessa do novo cinema nacional. E o documentário Raul – O princípio, o fim e o meio, de Walter Carvalho, ressuscita com verdade humana um mito brasileiro, Raul Seixas, que não morreu porque pessoas não morrem, ficam encantadas, como diria o mineiro Guimarães Rosa. Eduardo Coutinho também não negou fogo no delicado As canções.
 
Cinema latino – palmas para dois argentinos, o despojado Las Acacias, de Pablo Giorgelli; e Um mundo misterioso, de Rodrigo Moreno. E, apesar de algumas falhas, também para a sátira política mexicana Acorazado, do estreante Álvaro Curiel de Icaza.
 
A Mostra também marcou pontos ao engajar-se fundo na luta contra os imperdoáveis atentados à liberdade de expressão no Irã, contando com a presença mais do que abalizada de Mohsen Makhmalbaf – um lutador contra ditaduras desde menino, quando enfrentou os desvarios do regime do xá Reza Pahlevi, que o levou à prisão. Green Days, de sua filha, Hana Makhmalbaf, é, aliás, um libelo para incendiar as consciências a apoiar de todas as formas protestos e pressões contra o atual governo ditatorial (e ilegítimo) do Irã. A situação de Jafar Panahi, preso e impedido de filmar por 20 anos, vista no doloroso Isto não é um filme, é inaceitável.
 
Alguns problemas, para serem corrigidos nas próximas edições: projeção digital (este ano, com muitos problemas); legendas (muitos erros imperdoáveis, tornando ainda mais necessário recorrer ao conhecimento que se tivesse de línguas estrangeiras).
 
A direção da Mostra também poderia pensar em uma nova fórmula de votação dos filmes a serem submetidos ao júri – por que não um modelo misto, em que metade dos filmes viesse da votação popular, como acontece agora, e outra parte de uma votação dos críticos?
 
Finalmente, os convidados nota dez desta edição: Jan Harlan, o adorável cunhado de Stanley Kubrick, incansável divulgador de sua obra; e ainda mais o dedicado Atom Egoyan, que não perdeu um dia sequer para descobrir tudo que pode da cultura brasileira em suas andanças e conversas por São Paulo.
 
Como diria Leon Cakoff: "Voltem sempre, Jan e Atom!". E que a Mostra, sob o signo de Leon, com a força de Renata, siga em frente.

As pontes da Mostra, entre Nelson Rodrigues e "Iracema"

Por Neusa Barbosa em 01/11/2011
A Mostra de São Paulo é, acima de tudo, um local de encontros e descobertas. Muitas, inesperadas.
 
Está sendo assim nesta 35a. edição com o cineasta canadense Atom Egoyan, que vem se mostrando um aplicado desbravador da cidade de São Paulo e da cultura brasileira. Além de fuçar ruas, livrarias, galerias de arte, museus e obviamente cinemas, ele se interessou em saber quem seria o maior dramaturgo brasileiro – o que o levou ao encontro da eleição natural de Nelson Rodrigues. Resultado: está levando na bagagem de volta uma tradução em inglês de algumas das principais peças do autor de Vestido de Noiva, Senhora dos Afogados, O beijo no asfalto e outros clássicos do teatro nacional, inspirando igualmente filmes como A Falecida, de Leon Hirzman, Toda Nudez será Castigada e O Casamento, de Arnaldo Jabor. Quem sabe Egoyan, que é diretor de teatro e de óperas, uma hora destas não monta (ou filma) um texto do Nelson...
 
Na mão contrária, veio a diretora francesa Emmanuele Demoris – autora da série de documentários Mafrouza, dissecando o cotidiano e os personagens de uma favela egípcia. Grande fã do filme Iracema – Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky, ela queria muito conhecer o diretor paulistano – e conseguiu. O motivo: os pais da diretora moraram no Brasil e apresentaram o filme a Emmanuele, um fato que marcou definitivamente sua visão da vida e do cinema.
 
Nada como o cinema para erguer essas pontes entre as pessoas. Por isso, festivais como a Mostra são tão fundamentais para todos.