Celulóide Digital

O irresistível Carlão Reichenbach

Por Neusa Barbosa em 24/11/2010
Brasília - Num artista, pode-se amar a liberdade com que filma, e isso já é muito. Se, de quebra, ele for uma pessoa de generosidade e ternura exemplares, pode-se chegar a adorá-lo, sem medo e sem culpa. Este é sentimento que me domina quando vejo Carlão Reichenbach por aí.
 
O mais paulistano dos gaúchos (aliás, com todo o respeito, não vejo nada de gaúcho no Carlão), recebeu homenagem no 43º Festival de Brasília com a exibição da cópia restaurada de Lilian M. – Relatório Confidencial – filme lançado em 1975, retalhado na época pela censura da ditadura militar e que voltou a circular íntegro na sua anarquia criativa, misturando melodrama, crítica política (com um personagem calcado em Henning Albert Boilesen, o empresário financiador da repressão) e o mais escrachado humor.
 
Poucos diretores têm a erudição de Carlão, em literatura, filosofia e música. E ele combina tudo isso com o amor sincero e declarado pela chanchada. Por isso, não o incomodou nem um pouco que, anos atrás, um crítico tenha chamado Lilian M. de “chanchada underground”. Para ele isso não é ofensa, é coisa assumida. Tanto que ele lembrou aqui em Brasília que homenageia em todos os seus filmes esse gênero que Oswald de Andrade definia como “o bárbaro em nós”:.
 
Uma receita dessas de ser humano é irrepetível. Sorte nossa que vivemos na mesma época que Carlão. Eu até moro na mesma cidade, na mesma Sampa, e posso encontrar com ele em alguma esquina. O que às vezes, felizmente, acontece.
 
A reação de cumplicidade do público do Teatro Nacional Cláudio Santoro na noite de terça (23), a Lílian M., rindo junto de diálogos incrivelmente saborosos - e alguns tirados de Dale Carnegie a Ruy Barbosa, por incrível que pareça – permite a dúvida: por que não encontram espaço para relançamento nas salas de cinema filmes como esse? Por que não há, a bem da verdade, salas capazes de acolhê-los, em todos os cantos do Brasil? A quem interessa que o sistema dos multiplexes domine o mercado com tamanho absolutismo?
 
Tomare que isso mude. E que daqui a pouco se encontrem brechas neste nosso muito estreito mercado exibidor para que circule, por exemplo, a versão de 2h40 de Garotas do ABC, que Carlão gostaria de remontar.
 
Isso enquanto ele não filme esse projeto novo, O Anjo Desarticulado, sua primeira incursão no misticismo e no êxtase – que bem pode ser um contraponto à atual onda espírita do cinema brasileiro, devota demais com a doutrina, pobre demais como cinema.