Celulóide Digital

O jardim da tolerância de Makhmalbaf

Por Neusa Barbosa em 25/10/2013
 Há muito que o cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf (Um Instante de Inocência, Gabbeh) mistura vida e obra, processo e resultado, encenação e realismo. Como faz em seu novo filme, o documentário O Jardineiro, que teve uma única e concorrida sessão na Mostra de São Paulo (porque apenas isso foi autorizado por seu distribuidor norte-americano). Makhmalbaf é visto na tela, filmando e conversando com um de seus filhos, Maysam, mostrando-se a si mesmo e ao filho filmando, tendo como objeto uma religião cujos seguidores são perseguidos no Irã – os Baha’i. Aliás, perseguidos há muitos anos, não apenas pelo atual governo.
 
Do que fala realmente o documentário ? A discussão sobre religião é evidente e o filho de Makhmalbaf é o porta-voz da preocupação de que o filme se torne chapa branca, religioso. Porque, mesmo declaradamente agnóstico, o pai encanta-se com a filosofia de pacifismo e tolerância dos Baha’i, que é simbolizada visualmente pelos imensos jardins de uma sede por eles mantida em Haifa, em Israel – em que convivem plantas das espécies mais distintas, cuidadas com delicadeza pelo jardineiro Eona, um guineense.
 
Independente do que se pense sobre os Baha’i, ou as religiões – uma outra passagem na Jerusalém dividida entre judeus, muçulmanos e cristãos é particularmente interessante -, o maior tema de Makhmalbaf é o da tolerância. É visível a preocupação do cineasta com os fundamentalismos que abalam o mundo hoje, os homens-bomba convencidos de que irão direto ao paraíso por fanáticos ideólogos de uma “guerra santa”. Mesmo não sendo religioso, Makhmalbaf se pergunta se a religião não pode, igualmente, ser um instrumento de convencimento da criação da paz – como fazem os Baha’i. E questiona o filho se sua geração não está elegendo outra religião na tecnologia, transformando Steve Jobs e outros em novos deuses.
 
Bastante simples, no fundo, O Jardineiro está propondo uma busca da reinvenção das formas de convivência entre os diferentes, que somos todos uns em relação aos outros. O mundo inteiro hoje parece um tanto perplexo em suas explosões, manifestações, intolerâncias mútuas. Através de sua arte militante, mais uma vez Makhmalbaf, hoje perseguido a ponto de não morar mais no Irã e não ter endereço certo pelo mundo para proteger-se e à sua família, não desiste de procurar um novo diálogo.
 
Seria bom que o filme fosse exibido novamente e discutido.
 
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