Celulóide Digital

Uma Mostra com tempero russo e metafísico

Por Neusa Barbosa em 08/10/2012
A Mostra de São Paulo está chegando.
 
É a primeira edição sem Leon Cakoff (no ano passado, ele participou muito das escolhas, até o último momento).
A boa notícia é de que tudo continua, embora a falta de Leon seja impossível de preencher.
 
Por isso mesmo, Renata de Almeida, mulher de Leon e há décadas diretora da Mostra, lado a lado com ele, apostou este ano no impacto de uma retrospectiva completa dos filmes do russo Andrei Tarkovski (1932-1986) – um dos meus cineastas preferidos e que conheci na Mostra – e também de suas raríssimas polaroides, realizadas entre 1979 e 1984, quando ele acabou deixando sua pátria, então URSS.
 
Também é sobre Tarkovski o livro do ano da Mostra, reunindo várias dessas polaroides, em que o cineasta manifestou sua relação metafísica com a imagem, o tempo, a vida.
 
Vai ser uma maravilha rever Stalker, um dos filmes que me intrigaram tanto numa primeira visita e que é um daqueles filmes difíceis até de descrever, porque são puramente sensoriais, emocionais. E Nostalgia, em que a beleza da Itália transforma-se numa presença fantasmagórica. E Solaris, a angústia do astronauta retransformado em homem, apenas homem.
 
Uma grande felicidade na programação deste ano vai ser uma apresentação de boa parte da obra de um bielorrusso da nova geração cujo nome já se deve anotar na agenda. O diretor é Sergei Loznitsa, 48 anos, de quem já vimos o contundente Minha Felicidade (2010) e que trará também seu novo e tchecoviano drama, Na Neblina (2012), seu novíssimo trabalho de ficção, o média O Milagre de Santo Antônio, e vários documentários (seu passado é de documentarista). Ele é um dos convidados confirmados a São Paulo.
 
Outra retrospectiva precoce será a do português Miguel Gomes, de quem a Mostra exibe o novo Tabu (premiado em Berlim) e também o despojado Aquele Querido Mês de Agosto e A Cara que Mereces, além de cinco curtas-metragens.
 
Juntando a nova à velha geração lusitana, claro que não vai faltar o mais recente Manoel de Oliveira, o belo O Gebo e a Sombra, mostrado em Veneza, e que terá sua exibição em São Paulo prestigiada pela estrela Claudia Cardinale.
 
A Mostra nem começou e já está começando a angústia. Vem aí os novos de Abbas Kiarostami, Amos Gitai, Ken Loach, Marco Bellocchio, Marco Bechis e clássicos eternos, como Nosferatu, de Murnau, exibido em sessão especial no Parque do Ibirapuera, no encerramento, dia 2-11. Está na hora de tomar fôlego. Dia 19 de outubro está logo aí.