Celulóide Digital

Eduardo Coutinho, o velhinho inquieto

Por Neusa Barbosa em 29/10/2010
Eduardo Coutinho é um dos maiores cineastas do País. E nunca vai aceitar o título. Podia acomodar-se num pedestal de quem fez Cabra Marcado para Morrer – talvez o maior documentário da história do cinema brasileiro -, Edifício Master e Jogo de Cena. Mas, se o fizesse, não seria ele.
Coutinho é uma das inteligências mais inquietas do Brasil.Nunca está satisfeito com o que faz.Nunca acha que fez um grande filme. Sempre lembra os detalhes em que podia ter feito melhor. É de uma humildade franciscana, despojado de toda vaidade que não seja profissional. Está sempre atrás de alguma outra coisa, que está sempre adiante.Que nem ele sabe o que é porque, se soubesse, já não teria graça procurar.
Nesta noite de quinta (28-10), o diretor exibiu na Mostra de São Paulo um filme em processo, Um dia na vida – que provavelmente teve sua primeira e única sessão. Porque não é um filme. É uma pesquisa, que aponta para que lado a curiosidade de Coutinho está se dirigindo: a televisão aberta.
O ponto de partida do diretor – querer fazer um filme sobre citações, sobre esse dado da cultura contemporânea de que tudo o que se sabe e se diz vem de outro lugar, é uma reciclagem permanente. Pensou em usar como base os jornais. Sabiamente, seu produtor, o também cineasta João Moreira Salles (diretor do sublime Santiago), aconselhou que se voltasse para a televisão aberta.
Nasceu daí Um dia na vida, que coleta, a partir de 19 horas de programação televisiva, a 1 hora e meia assistida pelos privilegiados espectadores do Cine Livraria Cultura 1. Entre os quais me incluí, felizmente.
Poucas coisas podem dar melhor medida do horror que se perpetra diariamente contra retinas, mentes e corações diariamente neste País – e, como lembrou Coutinho, não só aqui, também nos EUA, na Itália, em toda parte. “A TV é uma máquina de despolitização”, definiu com muito acerto o diretor.
Ele ainda não sabe o que vai fazer com este material – que não pode ser exibido regularmente, por questão de direitos de imagem, que dificilmente seriam concedidos a uma obra com potencial tão crítico e onde aparecem apresentadores-medalhões dos principais programas e telejornais, pastores e outros personagens da telinha. Brotam aí os piores vícios da sociedade brasileira, o lado mais obscuro da condição humana, do voyeurismo pelo grotesco e a violência à implacável dilapidação da imagem da mulher.
Ontem, fui pra casa pensando em todo esse horror, que precisa ser enfrentado, discutido, revisto, redimido. Pela democracia, pela arte, pela inteligência, mas precisa, urgentemente. Tomara que Coutinho siga adiante com esse projeto e traga a todos nós outro de seus filmes essenciais.

As joias de Wim Wenders

Por Neusa Barbosa em 24/10/2010
Wim Wenders abriu neste sábado (23) a seção de depoimentos Os Filmes da Minha Vida da 34ª. Mostra de São Paulo.
 
Foi uma noite mágica para o diretor alemão na Cinemateca paulistana. Na sala Petrobras, acontecia a primeira sessão da Mostra de Até o Fim do Mundo (91), na versão do diretor, com 279 minutos – que reinventa a obra completamente, para quem viu a versão cortada por imposição dos produtores, que tinha 2 horas a menos. A sala BNDES da mesma Cinemateca exibia também a primeira sessão – neste festival – de Asas do Desejo (87), um dos maiores cult da obra do diretor. Um dos filmes da minha vida, sem dúvida.
 
Com tanto clima para se criar uma egotrip do celebrado diretor, o que se viu e ouviu em seu depoimento foi uma aula de inteligência, classe, suavidade e poesia. Um dos mais destacados nomes do chamado Novo Cinema Alemão, ao lado de Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog, Wenders contou memórias de sua infância, quando a avó lhe contava histórias e levava ao cinema (vem daí também o primeiro trauma e a fobia contra filmes de terror, que ele absolutamente não assiste).
 
Como lhe era pedido, Wenders nomeou alguns de seus favoritos. O primeiro deles, A Regra do Jogo, de Jean Renoir; O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman – o diretor que o fez desistir da Medicina, profissão do pai – O Homem do Oeste, de Anthony Mann (que lhe ensinou a gramática do cinema); o média experimental Wavelength, de Michael Snow (1967) ; Tokyo Story, de Yasujiro Ozu (um de seus diretores preferidos); Blow Up, de Michelangelo Antonioni; Sem Destino, de Dennis Hopper; Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch; Stalker e O Espelho, de Andrei Tarkovsky; Playtime, de Jacques Tati; e dois brasileiros, Glauber Rocha (Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro) e Walter Salles (Diários de Motocicleta); além de diretores como Howard Hawks, John Cassavetes, Nicholas Ray, Frederico Fellini, Sam Fuller. Uma lista longa, eclética e que ele deixou claro que não esgotava suas preferências. O que se esgotou foi o tempo e a disponibilidade, pelo adiantado da hora.
 
Wenders, aliás, está concedendo a esta edição da Mostra algumas de suas jóias – como a exposição de fotos que ele abriu no MASP e que é um complemento indispensável a quem aprecia sua obra. As fotos do cineasta (que queria ser pintor) são um resumo do tipo de olhar que ele dedica às paisagens de todo o mundo e ao seu sentido do inesperado, um de seus melhores instintos como artista.
 
Imperdível também é esta sua versão de Até o Fim do Mundo. Como ele mesmo disse na apresentação da primeira sessão, esqueçam a outra versão. Este é o filme verdadeiro e autêntico, como ele o sonhou, cheio de imaginação, sacadas visuais, liberdade narrativa. Só há mais uma sessão prevista, nesta segunda (25), 16h, no Cine Livraria Cultura 2. Quem puder, não deve perder. São quatro horas e meia que passam voando.