Celulóide Digital

Memórias do cinema na Catânia

Por Neusa Barbosa em 27/09/2013
Logo depois do Festival de Veneza, fiz uma pequena viagem à Sicília. Na cidade de Catânia, aos pés do vulcão Etna (ainda ativo!), tive a grata surpresa de descobrir mais um Museu do Cinema bastante curioso e original.
Idealizado pelo mesmo arquiteto do belíssimo Museu do Cinema de Turim, François Confino, o museu catanês tem como cenário o Le Ciminiere, uma antiga fábrica de enxofre que existia desde o século 19, bem ao lado da linha de trem.
 
Em seus vários ambientes, é possível fazer um percurso pela história da sétima arte, através de projetores, moviolas e outros objetos. Conta igualmente com uma acolhedora sala de cinema, dotada de confortáveis poltronas de couro macio (parece a sala das velhas avós da gente). Ali se assiste a um delicioso filme de 15 minutos, que viaja por vários capítulos da história do cinema, de Meliés e Chaplin a Fellini. Detalhe: o apresentador no filme é o ator Lando Buzzanca, o impagável intérprete de Divórcio à Italiana e Seduzida e Abandonada, que é siciliano de Palermo.
 
Saindo desse filme – que emociona até o fundo os amantes do cinema, ainda mais com uma trilha de Nino Rota para Fellini -, o visitante pode explorar diversos ambientes muito comuns: o quintal com o famoso varal de roupas penduradas; uma cozinha; uma sala de jantar; um bar; um quarto de dormir e um banheiro com banheira, todos dotados de pequenas telas, instaladas nas paredes ou dentro dos objetos, passando trechos de filmes de todos os tempos e de todo o mundo.
 
Não falta também o gabinete do “poderoso chefão”, que lembra a famosa trilogia de Francis Ford Coppola.Você tem a sensação de que Marlon Brando vai entrar pela porta a qualquer momento...
 
Algumas salas guardam fotos de bastidores de filmes produzidos na Sicília, caso de O Belo Antônio, de Mauro Bolognini; Stromboli, de Roberto Rossellini; La Terra Trema, de Luchino Visconti; Seduzida e Abandonada, de Pietro Germi.
 
Outras fotos e cartazes resgatam um pouco da curta história da indústria cinematográfica na Catânia, que floresceu especialmente com o estúdio Etna Film, do industrial Alfredo Alonzo, nos anos 1914-15, quando chegou a exportar suas produções épicas e melodramáticas para a Espanha e a América Latina.
 
Enfim, quem passar pela cidade, ganha muito em conhecer este belo museu. De quebra, pode aproveitar para conhecer um outro, que fica nas instalações da mesma antiga fábrica, e que é o Museu do Desembarque na Sicília. Com filmes, mapas, materiais, uniformes, etc., reconstitui as etapas da complexa operação de desembarque das tropas aliadas na ilha em 1943, um episódio decisivo para a vitória contra os nazistas. É igualmente emocionante, ainda mais porque o que ali se relembra é tudo mesmo verdade.
 
Mais informações nos links:
 
http://www.provincia.ct.it/il_territorio/musei/museo_del_cinema/
 
http://www.provincia.ct.it/il_territorio/musei/museo_dello_sbarco_in_sicilia/

Cadeiras, tomadas e ar-condicionado em Veneza

Por Neusa Barbosa em 05/09/2013
Veneza -Jornalistas geralmente criticam as coisas, porque isso é exigido deles, ou por vício profissional mesmo. Mas é bom reconhecer – nesta 70ª edição do vetusto Festival de Veneza, houve alguns progressos na vida dos repórteres e críticos que fazem a cobertura.
 
Pela ordem: o ar-condicionado no imenso Cassino do Lido, que tem um pé direito altíssimo, funcionou bem até demais. Não raro, ficou gelado nos espaços onde os jornalistas trabalham, no terceiro andar. E também nas salas de exibição, como a enorme Darsena, de 1.300 lugares. Uma boa medida, já que o festival sempre acontece no verão.
 
Também, finalmente, os organizadores da Bienal de Veneza ouviram as queixas e protestos de tantos anos e colocaram várias mesas, cadeiras e – aleluia!! – tomadas para o carregamento de notebooks, tablets e celulares. Aquele triste espetáculo de dezenas de críticos sentados no chão este ano foi, felizmente, bem mais raro. Bravo!!!
 
Em compensação, continuam acontecendo inexplicáveis atrasos no começo de muitas sessões, o que tem efeito em cadeia. E nunca se dão explicações. Parece desorganização mesmo. Esse tipo de coisa nunca acontece em Cannes, por exemplo.
 
Os restaurantes do Lido, em geral, continuam insensíveis aos horários impossíveis daqueles que vêm trabalhar no Festival. A maioria deles continua aferrado aos seus horários tradicionais e esnoba essa multidão de novos clientes temporários. Quem chegar fora do horário, simplesmente tem que se contentar em encontrar um sanduíche em algum outro lugar. Por isso, não poucos estrangeiros que passam por aqui vão embora sem um verdadeiro contato com a lendária culinária italiana...
 
Enfim, para o que melhorou, elogios. Antes tarde do que nunca...