Celulóide Digital

O Brasil do mínimo essencial em Veneza

Por Neusa Barbosa, de Veneza em 07/09/2011
Por alguma razão, a discretíssima presença brasileira no Festival de Veneza – dois filmes em mostras paralelas – focaliza o universo dos velhos num ambiente rural. Bem na contramão da ditadura da juventude e dos ambientes urbanos que domina o mundo do entretenimento.
 
Histórias que só existem quando lembradas, de Júlia Murat, é ficção pura, reunindo dois ótimos atores veteranos, Sonia Guedes e Luiz Serra, além de outros esplêndidos amadores, numa pequena cidade do interior fluminense, cuja rotina é rompida pela visita de uma jovem (Lisa Fávero)
 
Girimunho, docudrama de Helvécio Marins e Clarissa Campolina, já embaralha as fronteiras dos dois gêneros, acompanhando duas simpáticas e criativas octagenárias, Bastu e Maria, moradoras de São Romão (MG) e convivendo, com razoável equilíbrio, em suas diferenças dos respectivos netos.
 
É uma presença mínima – que decorre da incompreensível miopia dos curadores do festival mais antigo do mundo em relação à América Latina, não só o Brasil. Ainda assim, os dois brasileiros ocuparam bem seu espaço, em duas mostras que valorizam a experimentação e os novos autores.
 
Girimunho leva sua experiência, inclusive formal, de conceito e linguagem, mais longe. Por isso, é um filme mais exigente, em termos da atenção do espectador, mas que, ao final, oferece maior prazer a quem o atravessa. Bastu, a incrível viúva que fala com o marido morto e resolve dispor de suas coisas para liberar-se de uma presença que já se tornou incômoda, é uma figura que fica na cabeça. Uma personagem de si mesma que, afinal, se redescobre diante desse olhar mágico que é o cinema e atravessou sem problemas as fronteiras para ser compreendida por plateias como estas de Veneza, que não têm a menor ideia de como o grande sertão de que falava Guimarães Rosa é uma entidade viva e permanente.
 
É um Brasil sensível e delicado este que desembarcou em Veneza. Um Brasil na medida dos tantos que somos, tantas faces, tantas idades, tantas vidas. Que bom estar aqui para vê-los em outro contexto.Às vezes a gente esquece o quanto o Brasil é diferente. E o quanto pode ser universal.

Uma pequena Renascença no cinema italiano em Veneza

Por Neusa Barbosa, de Veneza em 06/09/2011
2011 está sendo um bom ano para os grandes festivais. Foi assim em Cannes e Veneza, ao menos em termos da maioria dos filmes, não está ficando atrás. A organização dos dois festivais é que é muito diferente: Cannes dá um banho! Veneza, este ano, está mais caótica do que nunca.
 
As sessões de filmes, inclusive da competição principal pelo Leão de Ouro, batem com coletivas de imprensa e exibições uns dos outros, faltam lugares para os jornalistas se sentarem para escrever com seus notebooks (problema crônico), faltam tomadas para recarregar as baterias dos notebooks (outro problema crônico), sessões atrasam... Hoje cancelaram a primeira sessão do filme-surpresa (o chinês People Mountain People Sea, de Cai Shangjun) porque deu falha geral no sistema de legendas. Lamentável num festival deste tamanho e desta idade (o mais antigo do mundo). Vamos ver se agora à noite a sessão do filme acontece sem problemas, vamos torcer.
 
Mas se é de cinema que se fala, muitas apostas se comprovaram: os novos filmes de George Clooney (Tudo pelo poder), David Cronenberg (A Dangerous Method), Steve McQueen (Shame), Andrea Arnold (O morro dos ventos uivantes) e Emmanuele Crialese (Terraferma)[foto] entusiasmaram.
 
A Itália, politicamente sufocada pela mediocridade de Berlusconi, aliás, parece estar se renovando em seus cineastas, alguns pelo menos. Crialese e o veteraníssimo Ermanno Olmi – fora de competição com o sensível Il Villaggio di Cartone – ambos abordaram a ignomínia da caça aos imigrantes ilegais que por acaso escapam de morrer afogados em suas desesperadas tentativas de entrar na Europa. Acho que dá para ser otimista de que alguma coisa está se renovando no espírito do bom e velho país da Renascença.