Celulóide Digital

A imagem torta dos países

Por Neusa Barbosa em 24/09/2010
Vive acontecendo e agora de novo com o drama romântico Comer, Rezar, Amar – que estreia no Brasil no próximo dia 1 de outubro. Os italianos estão chiando pela imagem anacrônica e às vezes preconceituosa que o filme passa deles – como nas cenas em que a protagonista, Liz (Julia Roberts) aluga um quarto numa velha casa em Roma, em plenos anos 2000, e lhe é oferecida uma chaleira de água quente para tomar seu banho na banheira...
 
Grandes jornais italianos, como o romano La Repubblica e o turinense La Stampa, reclamaram que os romanos são retratados como um bando de pessoas barulhentas, assanhadas e dispostas 24 horas ao dolce far niente – que é como se chama aquele bom e velho ócio, em italiano.
 
Assisti ao filme esta semana e não posso deixar de me solidarizar com os italianos – realmente, a imagem passada dos nossos fratelli é de uma banalidade atroz, até quando o filme pretende retratá-los positivamente (o que até parece pretender). Nós, brasileiros, também somos vítimas preferenciais de uma enxurrada de clichês. Quantos filmes já não vimos em que um bandido anuncia que virá esconder-se no Rio ?
 
Aliás, sobra pros brasileiros também em Comer, Rezar, Amar, até porque o amorzão de Liz acabará sendo Felipe que, apesar de interpretado pelo espanholíssimo Javier Bardem, é um personagem brasileiro. Em que pese minha admiração incondicional por Bardem, um dos grandes atores da atualidade, não pude deixar de me incomodar com o indisfarçável sotaque quando ele arrisca umas palavras em português. Não precisava, né?
 
Uma outra fala chamou mais minha atenção. Nela, Liz dizia que é prática natural e costumeira por aqui que os pais beijem os filhos na boca. De onde tiraram isso, eu não sei.  
 
Os filmes de Hollywood, inclusive este, parecem gostar de nós, latinos, quando nos colocam no posto de pessoas que sabem realmente o que é viver, se divertir, amar, curtir tudo e todos. Aparentemente, a noção é positiva. Mas só aparentemente.

A pisada de bola de Tarantino em Veneza

Por Neusa Barbosa em 01/09/2010
O presidente do júri de Veneza 2010, Quentin Tarantino, perdeu uma ótima oportunidade de marcar uma posição hoje, durante a coletiva que apresentou os jurados por aqui.
 
Quando foi colocado que o cineasta iraniano Jafar Panahi, que já esteve preso este ano em seu país, fez greve de fome e continua impedido pelo governo Ahmadinejad de filmar (!!!!), não teve permissão de vir a Veneza - embora seu novo curta, The Accordion, esteja sendo exibido na programação -, Tarantino não disse simplesmente nada. Afirmou: “Não quero fazer nenhuma declaração política”. E só.
 
Esperem aí – o que leva um diretor consagrado, internacionalmente premiado, que não depende para nada do governo iraniano e está em Veneza num posto desses a não assumir uma posição, pessoal que fosse, num caso de liberdade de expressão de um colega? Ficou feio, muito feio. Pareceu covardia. Shame on you, Quentin!
 
Bem melhor fizeram Abbas Kiarostami, que se colocou publicamente e, ele sim, com risco pessoal – já que é iraniano – quando esteve no festival de Cannes, em maio. E também a atriz francesa Juliette Binoche, que não só derramou lágrimas por Panahi como deu declarações empenhadas por ele, que estava então em greve de fome na prisão. Por causa deles dois e de dezenas de outros artistas que repudiaram publicamente a situação de Panahi na época, ele foi solto. Se depender de Tarantino, a situação dele agora não vai melhorar.
 
O próprio Panahi divulgou uma bela declaração hoje, que circulou em Veneza. Abaixo, a íntegra:
 
Estive no Festival de Veneza dez anos atrás com meu filme O Círculo. Este ano, meu curta The Accordion, que filmei antes de minha prisão, está sendo exibido neste grande festival. Embora eu esteja livre da prisão agora, ainda não estou livre para viajar fora de meu país e freqüentar festivais de cinema. Também fui oficialmente impedido de filmar nos últimos cinco anos. Quando um cineasta não tem permissão para fazer filmes, ele está mentalmente aprisionado. Ele pode não estar confinado a uma pequena cela,mas ele ainda está mentalmente restrito a uma prisão maior.
 
Quero aproveitar a oportunidade para agradecer a todos aqueles que me apoiaram enquanto cineasta, especialmente Alberto Barbera e Marco Müller, que tem desempenhado papeis fundamentais para o sucesso do festival de Veneza.

Gostaria também de agradecerà comunidade internacional de cineastas por seu generoso apoio enquanto estive preso. Embora meu aprisionamento tenha sido uma experiência amarga, rendeu um doce fruto para mim na medida em que me ajudou a perceber que nós cineastas e amantes do cinema de todo o mundo, apesar de todas as nossas diferenças culturais, somos uma comunidade unida falando com uma só voz. Em minhas horas mais desesperadas na prisão, quando estive em greve de fome, continuei a encarar-me como um orgulhoso membro desta comunidade e, portanto, tentei manter minha dignidade Professional e nunca vacilei em minha posição de manter-me sincero diante de mim e de minha profissão. Acredito que todo o apoio que recebi também veio de indivíduos e organizações que crêem fortemente no cinema e no direito de um cineasta à livre expressão. Esperemos que os governos do mundo algum dia compartilhem também desta mesma convicção.
Jafar Panahi
 
 
Dá para negar apoio a alguém assim ?