Celulóide Digital

Censura nunca mais!

Por Neusa Barbosa em 24/07/2011
Nos últimos dias, um tema que julgávamos morto e sepultado na democracia e no Estado de Direito, a censura, voltou tristemente à cena no Rio de Janeiro, quando uma juíza acatou uma indevida ação de um partido político – certamente em busca de notoriedade fácil à custa do moralismo de alguns – e proibiu a exibição de A Serbian Film – Terror sem Limites, do diretor sérvio Srdjan Spasojevic. Não contente com isso, mandou oficial de justiça recolher a cópia do filme, que se encontrava no Cine Odeon, onde ocorreria uma sessão alternativa e de desagravo a um primeiro veto ao filme que ocorrera anteriormente por decisão da Caixa Cultural, retirando-o de um evento ali sediado, o RioFan.  
 
Não assisti ao filme ainda – nem a juíza ou o partido político, segundo informa o distribuidor do filme, Raffaele Petrini. Então, por que censurar ? Todos ouvimos dizer do conteúdo violento, quem sabe extremo da história, que acompanha – ficcionalmente, é bom lembrar – a jornada de pesadelo de um ator, contratado para um trabalho que porá em questão seus limites. Mas a liberdade de expressão, garantida no País pela própria Constituição, deveria ser o único valor a ser assegurado aqui. Que o público veja e julgue se o filme é digno de ser assistido ou não. Público adulto, aliás, já que é aconselhado apenas a maiores de 18 anos.
 
Tomara que a infeliz decisão da juíza seja rapidamente cassada em instâncias superiores. Ninguém quer ver de volta aqueles tempos em que se impedia o público de assistir Je vous salue Marie, de Jean-Luc Godard, O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci ou se impunham ridículas bolinhas pretas como tapa-sexos em algumas cenas de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. A arte existe, afinal, para representar inclusive aquilo que é extremo, polêmico, desagradável e agressivo. É assim que ela estimula as emoções, inclusive a revolta e a indignação, diante de coisas que acontecem no mundo, na vida real, e que a ficção nada mais faz do que simbolizar, como parece ser o caso de A Serbian Film.
 
Que o bom senso prevaleça sobre o falso moralismo que, em nome de proteger crianças (que de nenhum modo assistiriam ao filme, aliás), ressuscita um dos piores fantasmas da falecida ditadura. Que se ponha fim a esse absurdo o quanto antes.

Cinema da Europa do Leste e Dinamarca, achados do Festival Lume

Por Neusa Barbosa em 21/07/2011
Volto a falar do Festival Lume, em São Luís do Maranhão, onde estive por cinco dias. Agora, falo dos filmes. Algumas das mais gratas surpresas da programação vieram da Europa do Leste, mostrando que há vida cinematográfica fora da celebrada Romênia.
 
A mais gratificante dessas surpresas, até aqui, foi uma coprodução entre Estônia, Finlândia e Suécia, As tentações de Santo Antônio (foto), de Veiko Ounpuu. Um filme em preto-e-branco, que nem mesmo as intermitências de sua projeção puderam impedir que ressoasse na sensibilidade de seus privilegiados espectadores, no Teatro Alcione Nazaré.
 
Ao retratar a trajetória de Tony, um gerente de fábrica de meia-idade, o filme persegue o insólito. Não há um plano previsível e a história salta de uma surpresa a outra. O tempo todo se tem a sensação – mas o que vai acontecer agora? Onde é que isto vai dar?
 
O caminho do gerente começa pelo sepultamento de seu pai – cujo cortejo é quase cortado por um carro em alta velocidade, que se espatifa numa praia à frente sem que ninguém se abale com isso. Um cão morto, mãos cortadas num rio, uma passagem por uma delegacia insana, uma garota misteriosa, um jantar numa mansão de vidro, um infernal cabaré e uma igreja abandonada, habitada por um padre que fala como o próprio demo, tudo isso cabe na história. Que resulta numa mistura surrealista, como assinada por uma uma espécie de Buñuel insano, com momentos de Tarkovsky, David Lynch e Jodorovsky.
 
Se não teve a mesma força e originalidade, o drama búlgaro Abrigo, de Dragomir Sholev, sustentou um retrato no mínimo vívido da situação de uma juventude no pós-comunismo, em torno de Rado, garoto de 12 anos que começa a andar com uma dupla de punks e a dormir fora de casa – para desespero dos pais, que não conseguem conversar com ele. A profunda disfuncionalidade deste diálogo impossível, desdobrada na longa cena do jantar, é o mais pungente da história.
 
Tudo que eu amo, do polonês Jacek Borcuch, igualmente apresenta uma história de juventude, no caso, de uma turma de amigos em 1981, quando o governo do general Jaruzelsky impõe o endurecimento do regime por conta da inquietação trazida pelo sindicato Solidariedade. Mesmo que o filme não dê conta, como se propõe, de fazer um retrato de geração nos estertores do comunismo, exala uma sinceridade no delineamento dos quatro personagens principais que se sobrepõe a essa falha.
 
Saindo da Europa do Leste, não há como deixar de elogiar Submarino, do dinamarquês Thomas Vinterberg (do poderoso Festa de Família). O ex-integrante do Dogma consegue aqui uma constância e sobriedade no relato dramático sobre o vínculo de dois irmãos, unidos por uma culpa antiga (e injustificável) e enredados em trajetórias muito perdidas. Há muita tristeza nestas vidas, marcadas pelo crime e as drogas, mas também um sopro de humanidade que respira por trás de tudo e permite que a história fuja de um total niilismo. Em todo caso, há algo de muito podre neste reino da Dinamarca vislumbrado por Vinterberg. 

Festival Lume - desbravando territórios, mas sem perder a ternura

Por Neusa Barbosa em 18/07/2011
No meio de tantos festivais de cinema – consta que no Brasil sejam mais de duzentos – o Festival Lume, que está se realizando em S. Luís do Maranhão, está conseguindo uma façanha: ter uma identidade logo em sua primeira edição, que é de uma ousadia admirável.
 
Nascido independente à força, diante da má vontade de patrocinadores e autoridades locais, o festival se realiza com garra e simpatia, essa mistura que é a própria cara de Frederico Machado, o idealizador do festival e que há anos lidera a Lume, uma das distribuidoras de DVDs mais seletas do mercado, com títulos raros, de arte, empenhados, diferenciados,que têm enriquecido como poucos o mercado nacional. Agora, felizmente, também estendendo-se à distribuição de cinema.
 
Com apenas R$ 250.000,00 – valor de um solitário prêmio de melhor filme, em festivais como Paulínia e Brasília -, e alguns benvindos apoios, Machado, sua mulher, Cláudia, e um pequeno grupo de amigos conseguiram armar a estrutura mínima para realização de um festival internacional, exibindo diariamente desde o dia 14 um programa de longas e curtas nacionais estrangeiros de dar inveja a muitas capitais.
 
Com as deficiências que seria de se esperar – como alguns problemas na projeção nos primeiros dias -, o festival parece estar cumprindo sua tarefa desbravadora, marcando um novo território cultural. A conversa do diretor filipino Brillante Mendoza com público e jornalistas no sábado foi concorrida e teve o nível de uma Leçon de Cinéma do Festival de Cannes, já que o cineasta falou de seus métodos e preferências com uma admirável disponibilidade e abertura.
 
Só dá para torcer que o festival crie raízes e continue – ainda mais porque simpatia igual à destes organizadores é raríssima de encontrar.

De repente, filas para filmes brasileiros em Paulínia

Por Neusa Barbosa em 15/07/2011
Acabou o 4º Festival de Paulínia, com a merecida consagração de A Febre do Rato, de Cláudio Assis, sobrando não menos merecidos prêmios a O Palhaço, segundo filme de Selton Mello.
 
Se há uma palavra adequada para definir esta edição do novíssimo festival é maturidade. Em apenas quatro anos, o festival, que começou sendo esnobado por alguns, visto com desconfiança por outros, consolidou-se. Exibiu uma considerável fatia do que de melhor vem sendo produzido pelo cinema nacional – que mostrou aqui uma face diversificada e rica, merecendo ser vista. Em tempo: falo dos longas de ficção. Os curtas deste ano deixaram muito a desejar, bem como os documentários, com as honrosas exceções de sempre, que vou comentar a seguir.
 
Maturidade também é o que pode ser dito de Cláudio Assis, que dá um salto de qualidade em sua dramaturgia e alcança uma poesia concreta e libertária, oswaldiana mesmo, neste seu A Febre do Rato – onde brilha o talento do roteirista Hilton Lacerda, autor dos poemas ditos no filme, e de um formidável elenco, destacando os atores Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Maria Gladys, Juliano Cazarré. A incrível fotografia em preto-e-branco de Walter Carvalho é a pele ideal desse filme absolutamente visceral.
O Palhaço marca, da mesma maneira, a maturidade de Selton Mello, como diretor e ator. Abordando um tema tão batido quanto a vida no circo, Selton consegue ir além, aproveitando a imprescindível parceria de Paulo José – que, mais que um ator, é quase uma entidade do cinema e do teatro brasileiros. Um filme absolutamente delicioso, onde se pode rir e sentir uma melancolia doce.
 
Trabalhar Cansa introduz no mundo dos longas a jovem dupla de curta-metragistas premiados, Marco Dutra e Juliana Rojas, já com uma aguda reflexão sobre as relações do poder e do trabalho. Benvindos, diretores!
 
Entre os documentários, é preciso assinalar o poderoso Uma Longa Viagem , em que Lúcia Murat desnuda sua intimidade familiar com uma emocionante elegia à irmandade, com uma oportuna inserção no contexto político da ditadura dos anos 60-80 no Brasil. O mesmo se diga de Rock Brasília, em que o veteraníssimo Vladimir Carvalho revela seu faro certeiro para um fenômeno cultural igualmente calcado na realidade política.
 
Os demais documentários, no entanto, deixaram a desejar, vendo-se alguns filmes com um marcado viés institucional ou partindo de conceitos surrados, sem nada novo a dizer. Piores ainda foram a maioria dos curtas-metragens, em que se salvou olimpicamente a originalidade solitária de A Tela, de Carlos Nader. A curadoria dos dois formatos precisa ser aperfeiçoada nas próximas edições.

Só pra não deixar de falar do público em Paulínia, ele deu o ar de sua graça em peso, provocando, pela primeira vez, filas enormes e obrigando a realização de duas sessões diárias dos longas de ficção em várias noites. Prova de que o público finalmente descobriu e entendeu a importância do pólo cinematográfico de Paulínia – que dá uma identidade única a este festival entre os muitos que existem no País