Celulóide Digital

Ecos de Paulínia

Por Neusa Barbosa em 25/07/2010
A terceira edição do Festival de Paulínia, encerrado na quinta (22), acabou como devia – com um saldo bem positivo. O festival resistiu bem a dois filmes de ficção muito abaixo do esperado, que foram amplamente superados por quatro outros com realização de boa para ótima e, o que é melhor, com potencial de público.  
 
Os debates dos filmes foram, quase sempre, enriquecedores – a exceção foi o de As 12 Estrelas, de Luiz Alberto Pereira, que não passou de uma apresentação auto-indulgente de elenco e equipe, sem dar tempo para perguntas e discussão real do filme. Mesmo o filme mais criticado pelos jornalistas presentes, Dores & Amores, de Ricardo Pinto e Silva, acabou rendendo o debate mais tenso, acalorado e talvez mais produtivo também. Isto apesar da visível (talvez compreensível) tentativa de uma claque a favor do diretor de criticar os críticos de maneira leviana, como quando um deles afirmou que críticos de cinema são sempre “cineastas frustrados” - uma afirmação que a história do cinema desmente por si, com os exemplos de toda a Nouvelle Vague, sem contar o próprio Glauber Rocha e diretores que participaram desta edição do festival de Paulínia, como Flávio Tambellini (do poético e excelente romance Malu de Bicicleta) e Ricardo Calil (codiretor do ótimo documentário Uma Noite em 67). Enfim, bobagens desmoronam por si mesmas.
 
Dois filmes, os mais premiados – 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, direção coletiva de 7 promissores jovens cineastas, e Bróder, estreia pulsante em longas do paulista Jefferson De – trouxeram para a tela de Paulínia a dureza social do País, retratado em todos os seus matizes, da crueldade à ternura, passando pelo humor. O Brasil de verdade, em todas as suas cores, respirou nestes excelentes filmes. Único representante do cinema adolescente, que agora finalmente desponta nas novas produções, Desenrola, de Rosane Svartman, não fez feio – embora pudesse ter sido um pouco menos tímido em questões como o aborto, o que não fez com medo de aumentar sua censura.
 
Malu de Bicicleta, de Flávio Tambellini, baseado em livro e roteiro de Marcelo Rubens Paiva, restabeleceu ao amor um território que é dele, pontuado pela paixão, o sexo, o humor, a dúvida e todas as suas incertezas, num plano jovem e adulto. Um amor que foi maltratado nos decepcionantes As 12 Estrelas e Dores & Amores, que escorregaram num humor grosso, cafajeste, e numa realização precária, dramática e cinematograficamente. Pode ser que dialoguem com um público mais amplo – mas até disso eu duvido.
 
Sem nenhuma grande discrepância, os documentários foram de bom nível. Leite e Ferro, de Claudia Priscila, mostrando o universo de detentas que cuidam dos filhos numa unidade provisória, e Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, retratando o encontro inusitado entre o artista plástico Vik Muniz e os catadores do lixão de Gramacho, no Rio, carregaram todos os prêmios, mas não foram unanimidade fora do júri. Devia ter sobrado um prêmio para Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil.
 
Apesar de algumas análises apressadas e críticas infundadas, o pólo de cinema de Paulínia mostra força e maturidade. Nem tudo o que se produziu lá até hoje foi um acerto, mas não há pólo de produção no mundo que não tenha seus equívocos, independentemente da comissão de seleção que se reúna. Pode-se criticar uma ou outra produção individualmente, mas não é correto questionar a existência do pólo. É uma das melhores experiências de todos os tempos no cinema brasileiro. Por isso, críticas são bem-vindas – desde que não irresponsáveis -, visando seu aperfeiçoamento.

O temporário e o permanente em "O beijo da mulher aranha"

Por Neusa Barbosa em 16/07/2010
É curioso o percurso de um filme, bem como o de um diretor e uma carreira. Falo de O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, que, 25 anos depois de seu lançamento, volta a circular em cópia restaurada.
 
A revisão do filme leva a emoções diferentes sobre o que está ou não datado na obra e no cineasta – no caso de Babenco, menos por esta obra, que mantém muito de sua força, e mais pelo trabalho que ele realizou depois dos anos 90, que não retém a mesma contundência.
 
O argentino-brasileiro Babenco – é imprescindível assinalar as duas nacionalidades, dada a natureza sempre ambígua e bipolar do diretor – é autor de pelo menos cinco obras-primas do cinema nacional, entre as quais se inclui naturalmente este O Beijo da Mulher Aranha e não apenas porque o filme teve 4 indicações ao Oscar.
 
Menos impecável do que se poderia desejar, com riscos e manchas, a cópia restaurada de O Beijo da Mulher Aranha assinala também, até por essas cicatrizes inevitáveis do celuloide, a implacável passagem do tempo, incorporando-o.
 
O filme envelheceu um pouco, é verdade, até porque estão bem longe da América Latina de hoje, felizmente, questões da época, como a tortura política, que formam o âmago da história dos prisioneiros Valentin (Raul Julia) e Molina (William Hurt).
 
Por outro lado, mantém sua vitalidade intocada a essência dos sentimentos contraditórios que terminam por unir dois homens tão diferentes no cárcere. O filme de Babenco, baseado em Manuel Puig, traduz muito bem essa visceralidade da paixão que se impõe mais pelas circunstâncias do que pelas conveniências ou credos pessoais ou políticos. E também a misteriosa energia encantatória da narrativa, espécie de metalinguagem do próprio filme que se realiza em cima dos relatos de Molina sobre os filmes de sua vida.
 
Nem sempre os espectadores de hoje – e, de resto, os de qualquer época, me parece – tem a percepção da ironia que se infiltra nesse filme da imaginação de Molina que conduz parte da história. Ao meu lado no Teatro de Paulínia, na exibição que abriu o 3º festival da cidade, dois jovens jornalistas, uma moça e um rapaz, demonstraram por suas declarações e gargalhadas, que não pude deixar de ouvir, não ter entendido a ironia proposital da interpretação farsesca e caricatural de Sonia Braga e dos demais atores do filme narrado por Molina. “Ela está muito canastrona”, criticava revoltada a minha jovem colega. Tive esperanças de que, com o decorrer do filme, ela e seu acompanhante percebessem que o tom era intencional e tinha função na narrativa. Em vão.
 
Isto não é para dizer que hoje as platéias são menos inteligentes para entender esses subtons e sutilezas. Na época do lançamento do filme, acho que muita gente pode igualmente não ter entendido, o que não impediu que o filme alcançasse cerca de 800.000 espectadores, se não me engano. Mas acho que hoje é, sem dúvida, mais disseminado um tipo de espectador muito viciado no pseudo-realismo extremo imposto pela massiva produção de Hollywood, bem como pelas novelas de TV. Não é inofensivo você crescer alimentado por um cardápio cultural desses. Meus dois coleguinhas devem ser vítimas dessa lamentável síndrome.
 
Mas, voltando ao Babenco, tomara que ele vença esse seu mau humor e má vontade crônicos e resolva, finalmente, as pendências que impedem que sua obra circule em DVD como deve. Aí sim as pessoas poderão conhecer ou reconhecer filmes como O Beijo da Mulher Aranha e as outras, para mim, quatro obras-primas dele: Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia (77), Pixote – A lei do mais fraco (81), Ironweed (87) e Brincando nos campos do senhor (91). Acho que, depois disso, ele não fez nada igual, o que não significa que não poderá fazer, se um dia tiver meios e energia para isso. De todo modo, é uma obra de respeito.