Celulóide Digital

Depois de Cannes, nas férias, três filmes magníficos

Por Neusa Barbosa em 08/06/2011

Depois do ótimo Festival de Cannes este ano (magnífica seleção!), tirei férias. Conheci Berlim, uma cidade linda, cenário de um dos filmes da minha vida – Asas do Desejo, de Wim Wenders. Mas a Berlim unificada, moderna, ensolarada e cheia de obras de melhoria é muito diferente daquela do filme de 1987. Mas ambos são lindos, cada um a seu modo.

Passei por Paris, também, e, para não perder o costume, fui ao cinema três vezes. Vi o novo e belíssimo filme de Wim Wenders, Pina (foto), em que, delicada mas incisivamente, ele reverte vários conceitos estabelecidos sobre documentário e demonstra que o 3D serve também para iluminar filmes como este.
 
Há muitas coisas não-ditas em Pina, um documentário sobre a ausência de Pina Bausch, que morreu há exatamente dois anos, e sua presença continuada, nas coreografias incríveis que criou – como Café Müller e Água – e que seus bailarinos seguem encenando pelos teatros e ruas do mundo, como se vê no filme.
 
Pina tematiza a orfandade destes bailarinos, alguns dos quais preferem permanecer em silêncio, olhando a câmera, a falar de sua mestra – um silêncio que é tão eloquente quanto as palavras de todos os outros e os magníficos movimentos de dança que executam com um misto de emoção e perfeição técnica.
 
Assisti também a uma comédia romântica argentina, Medianeras, de Gustavo Taretto – que descobri que, felizmente, tem distribuidor garantido no Brasil, tanto quanto Pina. Taretto consegue inovar neste gênero tão batido e maltratado pelos clichês, tematizando a solidão das grandes cidades, como Buenos Aires, em que a arquitetura do amontoamento sufoca sistematicamente as pessoas em espaços cada vez menores. Uma situação com que qualquer paulistano pode identificar-se prontamente.
 
A boa notícia é que Medianeras transforma este contexto arquitetônico em personagem, mas não esquece de acrescentar outros – dois ternos fóbicos, o webdesigner Martin (Javier Drolas) e a vitrinista Mariana (Pilar López de Ayala, de Lope). Tematizando também a tecnologia virtual que tanto aproxima quanto distancia as pessoas neste ambiente urbano, o filme constrói com ironia, inteligência e delicadeza esta deliciosa possibilidade de romance.
 
Também em cartaz em Paris estava a comédia Gianni e Le Donne (Gianni e as Mulheres), em que o impagável Gianni Di Gregorio (ator, roteirista e diretor do premiado Almoço em Agosto) volta a atuar ao lado de sua incrível mãe (Valeria Di Franciscis).
 
A mãe sem noção, viciada em jogo e gastando mais do que tem, é uma dessas mulheres que percorrem a vida de Gianni, um aposentado cujo tempo e energia são disputados também pela mulher, a filha, a jovem e bela vizinha. Aprisionado numa espécie de bondade serviçal, o homem madurão está em conflito com seus desejos, que também envolvem mulheres, outras mulheres, sua própria falta de coragem e empenho.
 
Dando uma de Woody Allen latino, o diretor encontra um jeito de também comentar a Itália contemporânea, a insípida e vulgar era Berlusconi, através dos dilemas de seu protagonista, aposentado contra a sua vontade, e do namorado de sua filha, um jovem estudante para quem também não há emprego. Que país é este? Que mundo é este?
 
Tomara que Gianni e Le Donne encontre rapidinho também um distribuidor no Brasil. É um desses filmes que começam devagarinho a falar sobre pequenas coisas e acabam falando sobre quase tudo.