Celulóide Digital

Saudades de Saramago

Por Neusa Barbosa em 21/06/2010

Descobri os livros de José Saramago aos poucos. A literatura que ele fazia não era fácil. Um de seus primeiros livros a me cair nas mãos foi Levantado do Chão que, confesso, abandonei. Ainda não tinha me encantado por aquela prosa densa e hipnótica, capaz de carregar o leitor no fluxo de um discurso sem pontos, com vírgulas escassas, em que os pontos de exclamação ficavam implícitos no volume humano do que ele dizia.

 
Felizmente, não desisti de Saramago e me apaixonei por Memorial do Convento, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Caim. Ainda não li toda a obra dessa monumental catedral que ele construiu na língua portuguesa. Espero fazer isso. Será o consolo por sua partida, que inicia o período das saudades eternas.
 
Talvez através dele eu tenha podido compreender melhor a lusitanidade que é uma espécie de segunda natureza minha, que está na minha origem familiar, mas que nem sempre é fácil de decifrar, sendo brasileira e tendo vivido toda a minha vida aqui. A dele era uma lusitanidade forte e questionadora, que não procurava agradar a ninguém e não se esquivava das palavras fortes. Aliás, Saramago não temia palavra alguma e era por isso capaz de usar todas elas muito bem.
 
O cinema não lhe esteve muito próximo, porque ele assim o quis, não permitindo muitas adaptações. Mas sobraram de suas obras pelo menos dois filmes, que considero à altura de suas páginas: Jangada de Pedra, de George Sluizer, e Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles. No mais, as imagens que ele deixa para trás são os sonhos que ele conseguiu sempre evocar no nosso espírito por sua imensa literatura. Que fica entre nós como semente.