Celulóide Digital

Um fundo de apoio às diretoras

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 16/05/2018
Cannes – A marcha das 82 mulheres poderosas pelo tapete vermelho de Cannes, no sábado (12), lideradas pela presidente do júri principal, Cate Blanchett, continua repercutindo, felizmente não só com efeitos midiáticos – embora eles também sejam importantes quando se pensa na urgência de mudar mentalidades. Mas a ministra da Cultura francesa, Françoise Nyssen, deu um passo adiante, anunciando a criação de um fundo de financiamento de filmes preferencial para realizadoras – e não só francesas, atenção! – que deverá estar funcionando até setembro. Ainda não se sabe qual o montante destinado ao fundo, que virá do CNC (Centre National du Cinéma e de l’Image Animée), órgão estatal encarregado do cinema.
 
O fato é que a medida vai representar um passo importante para aumentar o espaço feminino na realização, visando a uma maior paridade. Como lembrou a ministra, nem sempre é difícil às diretoras realizarem seu primeiro e segundo filmes e sim o terceiro, o quarto... e elas costumam ter acesso a orçamentos 1/3 menores do que os colegas homens.
Enfim, no ano do #Me Too, do combate ao assédio sexual (por aqui, também houve mobilização neste sentido, com um número de telefone sendo disponibilizado para denúncias), essas medidas são mais do que importantes. Mas a igualdade, sempre é bom lembrar, é uma tarefa permanente. Não começa nem acaba aqui.
Foto: Reuters

Vida de jurada em Cannes

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 12/05/2018
Cannes – Quem nunca veio ao festival, geralmente o associa somente ao charme das estrelas e à elegância dos figurinos do tapete vermelho. Mas o cotidiano de centenas de pessoas que vivem o festival por dentro é bem outro. A rotina dos mais de 4.000 jornalistas que cobrem as inúmeras sessões, distribuídas por salas próximas, mas diferentes – geralmente, quem vem pela primeira vez, acaba se confundindo entre os nomes de lendas do cinema, como Grand Thêátre Lumière, Salle Bazin, Salle Buñuel, e também a homenagem musical da Salle Debussy.
 
Venho aqui desde 2001 e diria que esse nem é o maior problema. O desafio está em ter a credencial da cor certa, tipo “abre-alas” em qualquer entrada e prioridade em qualquer fila – o máximo é a branca (que, ironicamente, lembra a popular “chapa branca” brasileira), acessível a poucos mortais, críticos veteraníssimos (muitos franceses) e representantes dos grandes jornais do mundo (sim, por aqui, a imprensa escrita ainda manda mais).
 
Mas, logo abaixo, a rose pastille (que tem uma bolinha amarela estratégica e fundamental do lado direito), torna sua vida bem boa por aqui – este ano, eu, que tinha a rosa, ganhei a minha pastilha, junto com a credencial passe-livre de jurada FIPRESCI. Em 2018, integro o júri da Federação Internacional dos Críticos, o que é uma experiência ótima, mas também soma estresse e correria a um cotidiano que nada tem de fácil, se você leva em conta que há uma média aproximada de 20 filmes pelo menos em cada na seção (competição, Un Certain Regard, Quinzena dos Realizadores, Semana da Crítica). Por isso, o júri, é claro, tem que se subdividir. Eu fiquei na sub-seção da Quinzena e da Semana, com uma lista de novos realizadores (14).
 
Então, vida de jurada é tudo, menos fácil. Você entra na frente na sala porque tem que ver mais filmes. Ontem, sexta (11), vi cinco. E as pessoas em geral esquecem que críticos também têm que dedicar algum tempo de cada dia a escrever seus textos, em salas apinhadas de colegas na mesma situação, correndo contra o relógio e o fuso horário. Isso se não tiverem também que acompanhar coletivas, marcar entrevistas.... Ah, se sobrar uma horinha, comer alguma coisa e dormir. Cada minuto conta. Mas, no final de cada edição, o saldo é muito bom. Haverá tempo para descansar depois!