Celulóide Digital

Tarantino: o incansável menino mimado de Hollywood

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 23/05/2014
Cannes – Vinte anos depois da Palma de Ouro para Pulp Fiction, Quentin Tarantino está de volta a Cannes, para apresentar a que dever ser uma concorrida sessão do filme na praia, nesta noite de sexta (23) – esperemos que o vento e a chuva desta temperamental primavera da Riviera deem uma trégua.
 
Quem te viu, quem te vê. Vinte anos atrás, Tarantino era um novato em busca de um lugar ao sol. Hoje, é um astro poderoso que não se abala com provocações, como a que lhe fez um jornalista, que lhe pediu comentário sobre uma frase atribuída a Jean-Luc Godard, que teria dito que Tarantino “não é ninguém”. “Não acredito que ele tenha dito isso, a não ser que você possa me provar. Do contrário, vou assumir que você está exagerando”. Isso tudo sem perder o sorriso e o bom humor.
 
Melhor ainda, Tarantino não perdeu o tesão pelo cinema, especialmente o seu próprio. Diz alegremente que vê e revê seus filmes – “tenho pena dos diretores que dizem que não fazem isso”. Mas claro que não se limita a eles. O ex-funcionário de locadora tem uma coleção de filmes 35mm e 16 mm, que assiste sem parar. O que não quer dizer, evidentemente, que não seja um homem do digital – que, para ele, democratiza o acesso da profissão aos novos diretores.
 
“Quando eu comecei, você tinha que ter no mínimo um filme 16 mm”, pontifica, com a sabedoria de um veterano.  Ele recorda, também, que no seu início, nos anos 1980, a tradição de Hollywood com a qual ele e outros novatos tinham que se confrontar era intimidante. “Havia um mantra de como os personagens deviam ser. Mesmo os maiores canalhas tinham que se redimir, nem que fosse nos últimos minutos. Eu odiava isso. Meu cinema foi uma reação a esse tipo de opressão”.
 
Como se vê, modéstia não pertence ao seu mundo. Auto-referente, ele diz que seu “corte do diretor é o primeiro corte” e que, mesmo revendo-os, não tem sonhos de remontar seus filmes. No máximo, sonhou lançar Kill Bill em quatro capítulos, como uma minissérie, aproveitando todo o material dele.
 
Sobre seu projeto de faroeste, The Hateful Eight, cujo vazamento paralisou a produção, diz que ainda não decidiu o que fazer. Está terminando um segundo esboço do roteiro, quer fazer um terceiro. Não sabe ainda se vai fazer mesmo um filme, ou uma peça de teatro, ou lançar em livro. “Quem sabe os três”. Guloso.

Uma noite com Sophia Loren

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 21/05/2014
Cannes – Mesmo o 67º festival não tendo apresentado até agora nenhuma epifania, ver de perto a estrela italiana Sophia Loren, ontem à noite, foi um dos meus prazeres secretos.
 
Perto dos 80 anos, ela comtinua classuda, elegante, carismática, embora a idade, como acontece até mesmo às divas, cobre seu preço. Mas ela estava lá, radiante num vestido amarelo brilhante como o sol, na lotada sala Soixantième, de braço dado com o filho Edoardo Ponti, para apresentar a première de um curta dirigido por ele, La Voce Umana, em que ela volta a atuar, abrindo a reapresentação, numa esplêndida cópia restaurada, da comédia Matrimônio à Italiana (64), de Vittorio de Sica, parte da seção Cannes Classics.
 
Se alguém achou que ali estava uma velhinha aposentada, perdeu essa ilusão na própria apresentação – quando Sophia desautorizou a instrução do diretor artístico de Cannes, Thierry Frémaux, de que ela falasse italiano, para que ficasse mais à vontade, e que o filho, Edoardo, a traduzisse em francês. “Ma perchè, se posso parlare francese?”, protestou ela suavemente. Todos riram. Mas o fato é que ela começou a falar italiano, mas rapidamente fez o que bem entendeu, passando ao francês. Em sessão de diva, manda a diva, especialmente se é uma mamma napolitana.
 
Rever Sophia na tela foi uma dessas coisas que restauram nossa fé no cinema – ainda mais numa tarde em que eu tinha assistido há pouco o desastre da estreia de Ryan Gosling como diretor, Lost River. No curta La Voce Umana, inspirado em Jean Cocteau, Sophia vive uma velha amante abandonada, que fala sem parar por telefone com este homem que tanto a tem consumido, mas ao qual ela se sente implacavelmente ligada. Mostrando sem medo os efeitos da idade no seu belo rosto, ela mostrou que seu talento continua em forma.
 
Depois, revê-la no auge de seus 30 anos como a maravilhosamente humana Filumena Marturano na comédia de De Sica, baseada na peça de Eduardo Di Filippo, ao lado de seu maior companheiro na tela, Marcello Mastroianni – cujo olhar ilustra o belíssimo cartaz do festival deste ano – fechou a melhor das noites. Não há como não sair em estado de graça de uma sessão assim.

Os hermanos em Cannes 2014

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 19/05/2014
Cannes - A presença argentina em Cannes 2014 está sendo interessante., com filmes inteiramente diferentes.
 
Na competição, Relatos Salvajes, de Damián Szifron – que, como ele disse na coletiva, poderia ter sido brasileiro, caso seus ancestrais poloneses tivessem conseguido desembarcar aqui antes daquele país – agradou pelo seu humor feroz, com um toque de crítica social.
 
No Un Certain Regard, Lisandro Alonso afirmou o poder da fantasia e da imaginação em Jauja, uma espécie de fábula política.
 
Fora da competição, também embarcou numa fantasia com muitas raízes políticas El Ardor, de Pablo Fendrik – aliás, é uma coprodução brasileira, com dois ótimos atores nossos, Chico Díaz e Alice Braga, ao lado do mexicano Gael García Bernal.
 
Tem muita gente por aí, jornalistas inclusive, com dor de cotovelo desta participação argentina, que inclui outros filmes que não vi. Eu não. Acho bacana esta presença deles, da América do Sul, num festival que é tão eurocêntrico, e cada vez mais, ninguém se iluda. Esta praia não é e nunca será nossa.
 
Acho que a explicação para esta presença argentina tem a ver com o poder de produtores e coproduções – os argentinos, desta vez, se deram melhor. Mas isto é cíclico.
 
Este ano, temos mais o que pensar. Viggo Mortensen, ator de Jauja, que é norte-americano mas viveu na Argentina e torce pelo San Lorenzo – time do papa Francisco – veio à sessão oficial do filme trazendo um pequeno cartaz, feito à mão, onde se lia: “Queremos a Copa”. Eu digo: “Fica querendo, Viggo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”.

Em memória de um baiano essencial, meu amigo João Sampaio

Por Neusa Barbosa em 02/05/2014
Pois é – o muito querido João Sampaio deu zignáu.
 
Esse crítico que era pura inteligência e intuição, esse amigo que era sorriso sem vacilação, esse baiano retado longe dos clichês que simbolizava como ninguém a Bahia de raiz, a Bahia do Recôncavo.
 
O João que inventava ou divulgava gírias que ninguém sabia de onde tirava – como o “dar zignáu”, ou seja, sumir de cena.
 
Não era para fazer isso com a gente não, João!!!
 
Quem dera, pedindo licença a Jorge Amado, você pudesse dar uma de Quincas Berro d’Água e percorrer de novo as ladeiras de Salvador com a gente. Vivo, bem vivo, embalado no teu sorriso.
 
Quem dera.
 
Saudade é demais, meu amigo.
 
Mas, para fazer jus à tua incondicional alegria, não vou preservar a tristeza dessa tua partida muito brusca, muito precoce, muito absurda.
 
Em homenagem a você, ao teu imortal espírito brejeiro, vou manter o coração aberto às alegrias que virão, ou que a gente vai extrair, ou vai fabricar. Porque alegria também se inventa e precisa inventar, porque a criação é a marca humana sobre a terra.
 
E que sobre a terra do Brasil, que a tua presença iluminou por 44 anos, que o teu espírito cordial frutifique – porque era você o verdadeiro homem cordial brasileiro. Que a gente possa instaurar essa tua disposição de ser sempre gentil mesmo discordando até a última palavra do teu interlocutor. Tudo isso está faltando demais hoje neste país, que você deixa nas nossas mãos, e que a gente, tua legião imensa de amigos por esse mundão, precisa preservar da maré de baixo astral.Que fique com a gente teu espírito imortalmente belo e gentil.
 
Vou começar por aqui: mesmo sendo corintiana até a alma, puxo um viva ao teu Vitória hoje, em tua homenagem.