Celulóide Digital

O eterno charme de Alain Delon

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 26/05/2013
Cannes – Há coisas que certos atores têm, mas muito poucos. Não só a beleza, como o carisma. É o caso de um dos homenageados desta edição de Cannes, Alain Delon, prestigiando uma sessão da cópia restaurada de O Sol por Testemunha (1960), de René Clément.
 
Aos 77 anos, o homem continua carismático e com senso de espetáculo. Com ar sedutor, subiu o tapete vermelho de mãos dadas com a ministra da Cultura e da Comunicação, Aurélie Filippetti – que virou um verdadeiro arroz de festa por aqui, num esforço concentrado de relações públicas a favor da combalida imagem do governo François Hollande, detonado pelas dificuldades econômicas e por pressões de setores reacionários contra o casamento gay.
 
Dentro da enorme sala Debussy, lotada para vê-lo (inclusive com várias pessoas que compraram ingresso para isso), Delon subiu ao palco e lembrou que o filme de Clément foi que o lançou, há 54 anos atrás. “Eu não era ninguém até fazer este filme”. Vendo-o aqui, Luchino Visconti decidiu chamá-lo para protagonizar Rocco e seus Irmãos. “Achei meu italiano do sul”, teria dito Visconti ao ver Delon em O Sol por Testemunha.
 
Fora os aplausos, o que emocionava mesmo Delon era a falta dos amigos que já morreram, como Maurice Ronet, seu colega em cena em O Sol por Testemunha, morto aos 55 anos, em 1983. “Apesar de sermos os melhores amigos, nos filmes eu sempre tinha que matá-lo, o que nos fazia rir muito”.
 
Restaurado com perfeição, o filme trouxe de volta um Delon muito jovem, que fazia todo mundo perder o fôlego. Os belos olhos azuis, porém, não perderam o brilho. Continuam impecáveis. 

Uma edição de clima temperamental em Cannes

Por Neusa Barbosa, de Cannes em 24/05/2013
 Cannes – Parece até ironia fazer este comentário num dia como esta última sexta do 66º festival (24-5), em que brilha o sol, apesar de um ventinho gelado. Mas, já em clima de balanço, dá para dizer: este foi o ano do pior clima em Cannes. Faz 13 anos que venho aqui – e há colegas jornalistas que vêm há 20 e me dão razão. A meteorologia também: foi a primavera mais fria da França desde 1987. Com todo o frio, toda a chuva, tornou-se um inferno encarar as demoradas filas obrigatórias para as várias sessões de uma programação verdadeiramente insana, em que se manifestou o domínio massacrante do digital.
 
Dos 80 filmes da seleção oficial (número que inclui curtas e longas mas não as sessões do mercado nem as paralelas), apenas dois títulos foram 35 mm – um deles, a cópia restaurada do clássico A Comilança, de Marco Ferreri. O resto foi tudo DCP que, felizmente, este ano funcionou quase à perfeição, sem cancelamento de sessões ou grandes atrasos. No ano que vem, estima-se que o domínio do digital será absoluto.
 
Na Oscar Freire local, a rue d’Antibes, há poucas mas preciosas novidades – como a nova loja da sofisticada LaDurée, o que aumenta a oferta de macarons e chocolates maravilhosos e ajuda a ir para o espaço qualquer intenção de manter uma dieta.  Ainda mais tendo tão perto do Palais des Festivals atrações gastronômicas como o imperdível risoto com lascas de queijo de cabra e foie gras do Cirò, um dos bons recantos italianos locais, tocado pela simpática italiana Linda.
 
Quem lê essas coisas, até acha que os jornalistas que vêm aqui têm muito tempo para comer. Não têm. Almoço é coisa que some da agenda diária, com um horário engolido pela corrida aos filmes, coletivas, junkets e escrever matérias – coisa que poucos lembram que a gente tem que fazer em alguma hora do dia.
 
Outra novidade na paisagem, esta de indiscutível inspiração cinematográfica, é a invasão de cachorrinhos raça Jack Russell Terrier, primo-irmãos de Uggie, o adorável mascote de O Artista – que ameaçam desbancar o reinado dos até agora inevitáveis poodles, xodós dos velhinhos que compõem parcela considerável da conservadora população do balneário da Côte d’Azur.