Celulóide Digital

Cannes 2011 - A festa promete

Por Neusa Barbosa em 17/04/2011
Cannes 2011 está parecendo uma festa aonde a gente não vê a hora de chegar. Os filmes confirmados na competição e na seção Certain Regard, em boa parte, dão água na boca! Embora esteja faltando Brasil e América Latina nessa festa, mais uma vez...
 
O Brasil está bem representado no U.C.R. com o filme de estréia da dupla paulistana Juliana Rojas e Marco Dutra, Trabalhar Cansa. Os dois já mostraram em Cannes seus curtas Um Ramo (prêmio Découverte na Semana da Crítica 2007) e Um Lençol Branco (que concorreu no Cinéfondation 2005). Tomara que confirmem as expectativas, que são muitas, porque os dois até aqui mostraram estilo e personalidade. E, nesta importante seção do festival, eles têm pela frente nomes respeitabilíssimos, como o francês Robert Guédiguian, o coreano Kim Ki-duk e o francês Bruno Dumont.
 
Que a sorte acompanhe o curta carioca de Alice Furtado, Duelo Antes da Noite, que concorre no Cinéfondation, espaço reservado aos filmes de conclusão de curso de cinema. Que esse sangue novo do Brasil faça bonito e comprove que do lado de cá se anda fazendo cinema de qualidade, que deveria estar mais representado em Cannes, Veneza e outros festivais internacionais.
 
Passado o desabafo patriótico (e legítimo), a boa notícia é que Cannes este ano, se vem com a sua habitual esquadra eurocentrista, parece ter colhido os melhores de muitos países do continente, alguns com carteirinha muitas vezes carimbada na Croisettte:
 
Da Bélgica, os irmãos Dardenne (Le Gamin au Vélo), bicampeões de Palma de Ouro, tentando a terceira com mais um drama com foco nos conflitos da paternidade;
 
Da Espanha, Pedro Almodóvar, com La Piel que Habito, em que Antonio Banderas tenta (e deve conseguir) voltar ao seu melhor num drama tenso, que gira em torno da vingança de um cirurgião plástico, inspirado num livro do francês Thierry Jonquet. Pela primeira vez, Don Almodóvar dará a Cannes a honra de uma première mundial (seus filmes anteriores que concorreram por lá sempre tinham estreado há pouco na Espanha);
 
Da Itália, vem uma dupla talvez dos seus dois melhores diretores: Nanni Moretti, que já venceu a Palma em 2001 com O Quarto do Filho e agora vem de Habemus Papam – em que ele mesmo contracena com Michel Piccoli, o Papa, interpretando seu terapeuta; e Paolo Sorrentino (o diretor do excelente Il Divo, que ficou sem distribuidor no Brasil), agora atacando com um filme americano, This Must Be the Place (foto), em que Sean Penn é um astro de rock decadente e que aparece de cabelão e batom;
 
Da França, o trio é o mais divergente possível: o veteraníssimo do circuito de arte, Alain Cavalier – que foi homenageado ano passado com uma retrospectiva no É Tudo Verdade – com Pater, outra produção mega-intimista em que ele contracena com Vincent Lindon (conhecido por Bem-Vindo); o alternativo Bertrand Bonello (Tirésia), com o drama ambientado numo bordel, no início do século XX, L’Apollonide – Souvenirs de La Maison Close; e Maiwenn,uma das três mulheres competindo pela Palma 2011, com a sátira social Polisse, em que ela (irmã da atriz Isilde Besco) também atua;
 
Da Dinamarca,outros dois com retrospectos distintos: o homem-show Lars Von Trier, que já venceu Palma com Dançando no Escuro (2000), sacudiu Cannes estes anos todos com Dogville, Manderlay, ano passado com Anticristo (que levou prêmio de atriz para Charlotte Gainsbourgh), e agora tematiza o fim do mundo em Melancolia, com Kirsten Dunst e Charlotte, de novo. Emoção garantida, gostando ou não; com perfil mais discreto, seu compatriota Nicolas Winding Refn apresenta uma produção americana, Drive, baseada em livro de James Sallis, acompanhando a vida perigosa de um motorista/dublê que faz bicos para assaltantes;
 
Ainda na ala nórdica, da Finlândia volta Aki Kaurismaki (duplamente premiado em Cannes por seu Homem sem Passado em 2002), agora mostrando Le Havre, onde o tema da imigração bate forte;
 
Da Turquia, outro habituê premiado de Cannes, Nuri Bilge Ceylan (Uzak/Distante, Three Monkeys, Climas), mais uma vez concorrendo com Once Upon a Time in Anatolia;
 
Da Escócia, vem a segunda mulher da competição, a muita apreciada Lynne Ramsay, que concorreu em Cannes em 1999 com Ratcatcher e retorna com um drama, baseado em livro de Lionel Shriver, We Need to Talk about Kevin – que trata de um tema candente agora no Brasil, um massacre numa escola. No elenco, Tilda Swinton e John C. Reilly;
 
Da Áustria, um estreante, Markus Schleizer (diretor de elenco de vários filmes de Michael Haneke, incluindo A Fita Branca), traz o drama Michael;
 
Da Romênia, chega o Radu Mihaileanu que se tornou conhecido e premiado, merecidamente, com seu Trem da Vida (98), mas que depois disso teve trajetória bem irregular, incluído aí seu recente O Concerto; em Cannes, ele mostra uma comédia, La Source des Femmes.
 
Finda esta longa seleção européia, que parece muito promissora (a safra parece de alto nível, ao contrário do mediano 2010 em Cannes), os outros continentes contribuem com outros concorrentes que dão muita vontade de conferir:
 
Dos EUA, o longamente esperado A Árvore da Vida (com estréia brasileira marcada para junho), de Terrence Malick, que tematiza o sentido da vida e a paternidade, juntando pela primeira vez os talentosos Sean Penn e Brad Pitt;
 
Do Japão, uma dupla de estilos opostos: a suave e intimista Naomi Kawase (terceira mulher da competição do ano), que já foi vencedora de um prêmio do júri em Cannes pelo belo A Floresta dos Lamentos (2007), agora embalando um misterioso filme de época, ambientado no ano 500, Hanezu no Tsuki; e o adrenalínico Takashi Miike, com mais um filme no universo dos samurais, Ichimei – que será o primeiro filme em 3D a competir em Cannes.
 
Da Austrália, a segunda estreante da competição, Julia Leigh e seu certamente inquietante Sleeping Beauty, onde ela adapta o próprio livro e acompanha a jornada de uma jovem universitária (Emily Browning, de Sucker Punch) coagida à prostituição;
 
De Israel, vem outra drama explorando conflitos da paternidade, Footnote, de Joseph Cedars, uma sequência de Beaufort, seu filme de guerra indicado ao Oscar 2007.
 
Enfim, o filé parece estar por aí – se bem que seleções alternativas, como a Semana da Crítica e a Quinzena dos Realizadores sempre abram espaço para boas descobertas (as listas devem ser divulgadas nos próximos dias).
 
Fora da competição, todo mundo (eu também) gostaria de conferir o Piratas do Caribe 4 – mas vai ser daquelas sessões em que sua integridade física literalmente corre risco. Com mais de 4.000 jornalistas credenciados a cada ano, alguns deles particularmente afoitos e brutões, melhor não arriscar... Anos atrás, um amigo meu perdeu a unha do dedão (literalmente) com o pisão de um “colega” na fila de uma sessão dessas, acho que de Indiana Jones – A Caveira de Cristal...

Um dia com Marina Goldovskaya

Por Neusa Barbosa em 11/04/2011
“Que lindo brinco! Que pedra é esta?”
 
Quando alguém que repara no seu brinco é Marina Goldovskaya, a sensação é de total surpresa. Porque, por aquele olhar atento da documentarista mais famosa da Rússia – que descubro que é também uma mulher vaidosa - passaram acontecimentos cruciais da antiga URSS ditatorial e burocrática, depois, os ventos da liberdade da era Gorbachev e, finalmente, a decepção e desesperança do novo autoritarismo dos anos Putin/Medvedev. Um olhar que não perde um detalhe e confere novo sentido a tudo.
 
Tive o privilégio de passar um dia com ela, o domingo (10-4), quando mediei um encontro da cineasta com o público no Instituto Moreira Salles, que encerrou o Festival É Tudo Verdade no Rio. Marina, que foi homenageada com uma retrospectiva de 9 filmes, lançando em première mundial aqui O Gosto Amargo da Liberdade, foi a convidada de honra do festival.
 
Enérgica e doce ao mesmo tempo, ela é a combinação ideal de um ser humano. Mais uma vez, no IMS-RJ, ela exerceu sua inteligência clara e persistente, sua cultura sem artifícios, adquirida ao longo de décadas de prática de seu ofício.
 
Mulher pioneira, ela tornou-se uma das primeiras câmeras e diretoras na URSS dos anos 60, driblando o machismo nada velado de seu tempo (vigente não só em seu país). Sem choro nem vela, mostrou ao que veio e calou os preconceituosos. Hoje é uma documentarista não só premiada, mas que tem a seu crédito uma obra que tomou o pulso de sua época e de sua pátria, além de transformar sua própria vida pessoal em matéria-prima de seus filmes – que, por isso, aderem à memória com a cola da autenticidade.
 
Marina repetiu no IMS uma colocação que consta de sua inestimável autobiografia (Woman with a Movie Camera, lançada pela Universidade do Texas e não disponível em português): “Através de meus filmes, consegui não mentir”.
 
E não mentiu também sobre suas próprias fragilidades como profissional no início da carreira, que foram se desvanecendo ao longo de seu incansável processo de aprendizado e amadurecimento.
 
Marina deu uma amostra de seu certeiro humor quando comentou seu abandono do Cinema Direto – que ela experimentou intuitivamente no começo da carreira, numa URSS praticamente isolada de influências externas, nos anos 60 -, deixando para trás a tentativa de invisibilidade do estilo que se identifica como “fly on the wall” (mosca na parede) em favor de uma colocação cada vez mais pessoal, em O Espelho Estilhaçado, A Sorte de Nascer na Rússia e O Gosto Amargo da Liberdade. Jocosamente, ela descreveu suas razões: “Foi simples. Não sou uma mosca, estou aqui com as pessoas”.
 
E as pessoas, os seus personagens, ela ama acima de tudo.
 
E em ninguém mais ela amou o humano do que no retrato da lutadora jornalista Anna Politikovskaya, assassinada em 2006, que emerge do díptico Um Gosto de Liberdade e O Gosto Amargo da Liberdade.
 
Se hoje Marina não nega que os russos vivam melhor do que nos tempos da URSS, ela também não se esquiva de lamentar o assustador resultado de uma pesquisa, apontando Josef Stálin como a figura política mais popular da nação. Por conta disso, filmes dela, como Anatoly Rybakov – A História Russa – escritor que fez uma severa crítica do stalinismo que o perseguiu, como a tantos outros -, não encontram espaço para exibição na Rússia, mesmo na TV.
 
Com a morte de Anna Politkovskaya, Marina tornou-se, à sua revelia até, mais do que nunca uma voz essencial de denúncia dessa nova Idade das Trevas política da pátria de Dostoiévsky, Tolstoi, Stravinsky, Rachmaninov, Tchecov...
 
Longa vida e muita saúde, doce Marina, de quem sempre me lembrarei na tarde ensolarada do Rio em que compartilhamos uma sobremesa e uma paisagem idílica, no forte de Copacabana. Marina passou o dia lamentando não ter trazido sua câmera para gravar esse momento, assim como os rostos tão múltiplos, de cariocas e turistas, que passavam por nós. Eu também lamento que o Brasil não tenha entrado ainda para as imagens especiais de Marina...
 
Volte logo, Marina! E traga seus colares vermelhos e seu perfume (que eu não conto qual é), para a gente comentar de novo também...