Celulóide Digital

As estrelas que amamos: Liz Taylor e outras

Por Neusa Barbosa em 25/03/2011
Nunca houve uma estrela como Liz Taylor, que perdemos nesta semana. Beleza, garra, um gênio forte e uma grande coragem fizeram dela uma personagem única e inesquecível.
 
Estrelas, em sua época, como hoje, sempre existiram muitas. E Liz tinha semelhanças com algumas – o fato de ter sido atriz infantil e uma coleção de problemas de saúde, como Judy Garland; e uma sexualidade marcante, como a loira Marilyn Monroe.
 
Mas a morena Liz nunca foi triste como nenhuma das duas, embora tragédias não lhe tenham faltado na vida – ou escândalos. A mídia de celebridades deliciou-se com seus diversos casamentos - várias vezes rompendo matrimônios, seus e dos futuros parceiros -, com suas bebedeiras, problemas com drogas e particularmente com a tempestuosa relação com o duas vezes marido Richard Burton. Não raro com reconciliações emolduradas por diamantes, os melhores amigos de Liz.
 
Liz nunca foi santa nem pretendeu ser – ponto pra ela. Não deu bola para a mídia – que ela manobrou muito bem -, nem pro Vaticano (por que é que eles têm que se meter com essas coisas?), nem pra ninguém. Virou dona de seu próprio nariz muito cedo, aos 18 anos, casando-se com o herdeiro da cadeia de hoteis Hilton, para livrar-se da mãe dominadora e dos executivos do estúdio Metro. Quando o marido começou a bater nela, livrou-se dele também, com apenas seis meses de união.
 
A menininha frágil, sempre encantadoramente linda, pele impecável, rosto simétrico, nariz empinado e um arco de sobrancelhas que delimitava o horizonte irresistível de seus olhos violeta, tornou-se uma mulher dona de sua vida – capaz de impor o primeiro cachê de US$ 1 milhão pago a uma atriz, ainda com direito à escolha de diretor de sua confiança (Joseph L. Mankiewicz) para o filme Cleópatra (1963) – que ela nem queria fazer, não foi bem de bilheteria, mas serviu para mostrar com quem é que os estúdios estavam falando. De quebra, foi aí que ela conheceu Burton...
 
De nada serviria esse topete se não houvesse por trás dele também uma atriz incrível – e é por isso que ela merece ser lembrada, como uma das grandes. Seus filmes como Um lugar ao sol (1951), Assim caminha a humanidade (1956), Gata em teto de zinco quente (1958), De repente, no último verão (1959), Quem tem medo de Virginia Woolf ? (1958, que lhe deu seu segundo Oscar), O pecado de todos nós (1967), sem querer esgotar o assunto, bastam para comprovar, com sobras.
 
Hoje, estrelas, como Angelina Jolie, adotam crianças de países pobres, aderem a causas ecológicas. Liz, por sua vez, liderou a campanha para o combate à AIDs, não tendo medo de ligar seu nome a uma doença na época maldita, combatendo não só o preconceito contra o mal, como contra o homossexualismo – que amigos seus, queridos, como Rock Hudson e Montgomery Clift não puderam assumir, na Hollywood travada de sua época.
Liz não temia a companhia dos malditos como, num certo momento, a mídia transformou Michael Jackson – que ela nunca abandonou diante de qualquer acusação. Os dois, provavelmente, tinham muito em comum, a partir da infância sacrificada pela carreira do show business. Mas Liz sabia que podia ser a leoa sempre, a quem ninguém podia domar. E usou sempre isso muito bem.
 
Hoje continuamos tendo estrelas dignas desse nome, sim – como Juliette Binoche que, além da beleza única (que amadurece tão bem junto com seu talento) também exerce, delicadamente, mas com firmeza, suas posições quando é preciso. Como quando ela derramou uma lágrima pela prisão do cineasta iraniano Jafar Panahi, no ano passado, em Cannes, ou quando usou um chador num filme de Abbas Kiarostami, inédito no Brasil, Shirin (2008) – o que lhe valeu uma polêmica considerável na França, onde o uso desse tipo de adereço religioso (para qualquer religião) foi banido das escolas.
 
É de estrelas assim que a gente precisa.

Visconti na veia

Por Neusa Barbosa em 12/03/2011
O diretor italiano Luchino Visconti (1906-1976) era a mais improvável das misturas – um aristocrata rico e bem-nascido, conde de Modrone, homossexual, dono de uma rica cultura e que acabou tornando-se comunista, embora sem abrir mão de acreditar em Deus, ainda que não necessariamente pela via do catolicismo.
 
Essa mescla original de um aristocrata educado, por incrível que pareça, a não esperar benesses apenas por conta de seu privilegiado nascimento – um ensinamento repetido por seu próprio pai, o conde Giuseppe – originou um cineasta requintado, original, capaz de enobrecer o cinema italiano e mundial com títulos como Rocco e seus irmãos, O Leopardo, Os deuses malditos, Morte em Veneza, Ludwig (cuja versão original, de três horas, só foi resgatada por seus amigos depois de sua morte), e este Violência e Paixão que voltou, muito oportunamente ao cartaz, no CineSesc paulistano, onde, não raro, tem suas sessões lotadas.
 
Rever o filme de 1974, um enorme prazer, me levantou algumas dúvidas. Será que as plateias modernas –de qualquer idade – ainda dão conta de perceber todas as ricas nuances deste original enfrentamento entre quatro paredes, entre pessoas que, com uma exceção, não são parentes mas formam, a seu modo, uma família excêntrica ?
 
Esta dúvida foi suscitada por algumas reações esdrúxulas na sessão que presenciei – como gargalhadas fora de propósito e um comentário, ao final da sessão, de um homem, entrado nos seus 40 anos, que dizia ter pensado, antes de vir, que se tratava de uma comédia. Creio que o título brasileiro, que é meio genérico e bem inferior ao original (Gruppo di famiglia in un interno), não pode ser responsabilizado por esse equívoco. Aliás, que eu saiba, Visconti nunca fez comédias.
 
Esse tipo de reações me fazem sentir o quanto é importante que este tipo de filme volte sempre ao cartaz, em tela grande, em cópia restaurada, quando possível, para que o público se reconecte com a própria inteligência, com a própria sensibilidade, com a própria disposição de descobrir e acompanhar uma história que não é óbvia, nem esquemática – e sua própria estranheza, as lacunas que deixa, é que a tornam tão fascinante.
 
Que estes e outros filmes instigantes produzam este efeito recivilizador, aliás, é nossa última esperança. Senão, daqui a pouco, teremos que fazer como na Espanha do começo do século XX – quando as plateias, ainda incapazes de absorver a novíssima linguagem do cinema, contavam com a ajuda de um explicador para entender os filmes.