Celulóide Digital

Paulo José, um ator à flor da pele

Por Neusa Barbosa em 19/03/2010
Feliz o cinema que pode contar com um ator como Paulo José. Ele já foi Edu Coração de Ouro, Macunaíma. Logo vamos vê-lo (que bom!) em dose dupla, como um velho louco/sábio nos filmes Insolação e Quincas Berro d’Água, o zumbi folião de Jorge Amado. E o prazer de assisti-lo sempre se renova.
 
Os motivos são muitos mas o maior é a paixão por atuar que transpira da pele dele. E seus olhos. Ah, os olhos de Paulo José – são tudo. O filme até pode ser ruim (como Policarpo Quaresma – Herói do Brasil, O Vestido) e a gente quase esquece – porque a presença dele ilumina por si.
 
O melhor é que o tempo que passa, o envelhecimento, a fragilidade imposta pela doença – ele convive valentemente há 20 anos com o mal de Parkinson -, tudo isso se somou à figura dele de uma maneira sensível, dramática. E tudo que ele foi e é melhora o ator, se é que é possível melhorar Paulo José, um ator-ator, ator não-celebridade, ator não-vaidoso.
 
Marido de uma atriz linda e preciosa, como Dina Sfat, ele também era bonito em sua estreia em O Padre e a Moça (que estreia!), em 1966, Todas as Mulheres do Mundo (67), Edu Coração de Ouro (68), Cassy Jones – Magnífico Sedutor (72). O tempo passou, ele foi virou Macunaíma (69), atravessou o Cinema Novo, as pornochanchadas, os desastres do fim da Embrafilme, as emoções e sobressaltos da Retomada. E está aí, meio serenidade, meio turbilhão, mas sempre autêntico. Um gaúcho essencial e sem bombachas, graças a Deus.
 
Bonito e engraçado, terno e degenerado, patético ou impassível, Paulo chegou a um de seus trabalhos mais belos em Juventude (2008), de Domingos Oliveira - onde um trio de atores sessentões/setentões dão sentido ao título com toda a gana de viver que ela sintetiza.
 
Ele está filmando O Palhaço, com Selton Mello – que é outro que não gosta de dormir no berço esplêndido de se achar “galã” e “consagrado” - e não está querendo parar. Que bom. O cinema brasileiro precisa de mais e mais Paulo José. Sorte nossa. 

O que faltou no Oscar 2010

Por Neusa Barbosa em 08/03/2010
Encerrada a festa e com esse assunto já mais do que over por toda a mídia, só algumas pequenas observações do que faltou na noite da 82ª. cerimônia do Oscar:
 
- Uma menção ao grande crítico italiano Tullio Kezich entre as perdas de 2009. Era amigo e biógrafo de Federico Fellini e acompanhou de perto as filmagens de A Doce Vida (que detalhou num livrinho fabuloso e ainda não traduzido – atenção, editoras! -, Noi che abbiamo fatto La Dolce Vita). Foi lembrado Tullio Pinelli, o genial roteirista também parceiro de Fellini em filmes como o próprio A Doce Vida, além de 8 e ½ , Julieta dos Espíritos e Ginger e Fred. Mas Kezich, grande jornalista, que morreu em agosto de 2009, pouco antes do Festival de Veneza que ele tanto assessorava com seus pitacos críticos, ficou de fora. Imperdoável.
 
- Aumentar a lista dos candidatos à premiação de filme estrangeiro também para 10, como na categoria principal. É ridículo querer enfiar a cinematografia do mundo nesse apertadíssimo gueto de apenas 5. Este ano, não entrou por exemplo, o excelente filme italiano Il Divo, de Paulo Sorrentino – indicado, pasme-se, apenas no quesito maquiagem. No Brasil, o filme, que faz uma radiografia cínica da figura do ex-primeiro ministro Giulio Andreotti (interpretado pelo ótimo Toni Servillo)  passou apenas em eventos como Mostra de SP e não encontrou distribuidor para chegar aos cinemas. Outra vergonha.  
 
- Nunca é demais desejar (sonhar é sempre bom) que a Academia se torne um pouco mais rápida para absorver a sociedade ao seu redor. Prova de sua inacreditável lentidão e conservadorismo é mesmo a escassez de prêmios para as mulheres e os atores negros. Só na 82ª premiação uma mulher diretora, Kathryn Bigelow, conseguiu sua estatueta – entregue por outra, Barbra Streisand, historicamente esnobada até em indicações. E a premiação a Mo’nique, a terceira atriz coadjuvante negra a vencer nessa categoria, demorou nada menos do que 19 anos (a última vez tinha sido Whoopi Godberg, em 1991, como bem lembrou meu leitor Adriano). Ao todo, aliás, só cinco atores negros venceram em toda a história do Oscar (fora as três coadjuvantes, incluindo a pioneira Hattie McDaniel, em 1939, também Denzel Washington e Halle Berry, em 2002, estes nas categorias principais).
 
Finalmente, uma nota para elogios, justamente para as atrizes negras presentes à festa – boa parte delas, como Queen Latifah, ignora alegremente a ditadura da estética esquálida que martiriza tantas colegas. Para Latifah e companhia, a beleza está na fartura, como as musas renascentistas.

Biografia para matar a saudade de Altman

Por Neusa Barbosa em 04/03/2010
Adoro biografias. Alguns dos melhores livros que li na vida pertencem ao gênero e perfilam gente de cinema – como as de Orson Welles e Katharine Hepburn, escritas por Barbara Leaming (sem dúvida, uma especialista na área, além de uma ótima escritora), e a de Samuel Fuller, que ele escreveu em boa parte e foi terminada depois de sua morte, com a supervisão de sua mulher, A Third Face: My Tale of Writing, Fighting and Fimmaking (infelizmente, não traduzida no Brasil). As duas biografias de Leaming foram lançadas em português.
 
Há pouco descobri outra biografia em inglês, Robert Altman, assinada pelo professor de jornalismo Mitchell Zuckoff. Esta já tem um estilo bem diferente das outras que eu citei. Ao invés de um texto literário elaborado, reúne vários fragmentos de depoimentos, inclusive do próprio Altman – Zuckoff teve a felicidade de conviver muito com ele antes de sua morte, em 2006. Forma, assim, uma visão polifônica, com muitas vozes, daquele que não só foi um dos cineastas mais criativos e rebeldes de Hollywood, como um homem polêmico na vida pessoal. Não faltam em sua vida episódios de bebedeira, negligência com os filhos e até violência contra pelo menos uma de suas mulheres (Lotus Corelli). E, por essa polifonia, o livro tem tudo a ver com o estilo dos filmes do autor, sempre corais, sempre multifacetados, sintonizados na complexidade mesmo da vida.
 
É justamente essa disposição de não deixar de lado nenhum desses aspectos menos edificantes do genial criador de Nashville, O Jogador, Short Cuts, Assassinato em Gosford Park e A Última Noite, seu filme-testamento, que torna a leitura instigante. Sem ter um texto corrido, a biografia enfileira momentos, lembranças, explicações, inclusive do biografado – não raro a seguir a uma declaração que o detona. Mesmo assim, emerge das páginas um fascinante caleidoscópio, retrato de um homem que colocou o melhor de sua pulsão vital e mesmo de suas contradições a serviço das câmeras, lutando sempre contra a corrente em Hollywood.
 
Tive a sorte de conhecê-lo pessoalmente, numa entrevista, no Festival de Veneza 2000, em que ele concorria ao Leão de Ouro com a comédia Dr. T e as Mulheres. Recebendo-me junto com outros dois colegas brasileiros, aquele homem alto, forte, de cabelos brancos e olhar penetrante e caloroso, imediatamente nos pôs à vontade e começou a conversar sobre o filme. Sabíamos que ele era exigente e profissional. Tínhamos ouvido dizer que se levantara de uma mesa, horas antes, quando percebera que os jornalistas que o entrevistavam não tinham assistido ao filme – tarefa básica para quem se dispõe a entrevistar um diretor.
 
Mas nós três, felizmente, tínhamos feito a lição de casa. Lembro-me que Altman se soltou, fez brincadeiras. E, procurando provar uma posição que há pouco defendera, perguntou-me se meu ginecologista era homem ou mulher. Decepcionei-o quando disse que era mulher – ele queria provar que a maioria das mulheres preferia os homens nessa profissão. No final, rimos e nos despedimos com um forte aperto de mão. Ficou comigo a lembrança daquele olhar caloroso, de quem sempre sabia o que queria dizer, ainda que tantos estúdios, produtores e às vezes até mesmo o público não quisessem ouvir.