Celulóide Digital

Polanski, um premiado que não pode receber seus troféus

Por Neusa Barbosa em 20/02/2010
Está virando uma tradição: Roman Polanski mais uma vez venceu o prêmio de melhor direção, desta vez no Festival de Berlim, por O Escritor Fantasma, com estreia prometida no Brasil para 1º. de maio, e não pode ir pegar pessoalmente o prêmio. Exatamente como aconteceu em 2003, quando ganhou o Oscar de melhor diretor por O Pianista. O motivo, novamente, é o mesmo: a velha pendência, de mais de 30 anos, de um processo por estupro nos EUA, de onde o diretor polonês fugiu, e que provoca agora sua prisão domiciliar em Zurique, Suíça. Está na hora de resolver isso de uma vez por todas.
 
Em Berlim, foi consagrado o cinema turco, com o Urso de Ouro de melhor filme sendo entregue ao cineasta Semih Kaplanoglu, por Bal (“Mel”), terceira parte de uma trilogia iniciada em 2007 com Egg ("Ovo"), exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes, e seguida por Süt (“Leite”), que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em síntese, o estilo de Kaplanoglu é bem o contrário de Avatar – longos planos, contenção, problemas humanistas, beleza profunda das imagens e busca existencial, de identidade. O tipo de filmes que também precisam continuar existindo e afirmando a diversidade da arte e do pensamento.
 
Outra cinematografia consagrada em Berlim foi a romena – a grande novidade no panorama europeu nos últimos cinco anos. Desta vez, Florin Serban levou dois troféus: o Grande Prêmio do Júri (que corresponde a um “segundo lugar” em qualquer festival) e o Alfred Bauer, pelo filme que atende pelo curioso nome de If I Want to Whistle, I Whistle (“Se quero assobiar, assobio”). O melhor filme de estreia foi o sueco Sebbe, de Babak Najafi, outro país que, além de uma produção pequena, costuma passar longe das telas brasileiras, exceção feita a Ingmar Bergman.
 
O melhor roteiro foi da produção chinesa Apart Together (assinado pela dupla Wang Quan’an e Na Jin). A japonesa Shinobu Terajima ficou com o troféu de melhor atriz, por um filme descrito como muito poderoso, Caterpillar. Dois russos, por sua vez, dividiram o prêmio de melhor ator, em How I Ended this Summer.
 
Outro prêmio especial, o Berlinale Kamera, foi entregue ao veterano cineasta japonês Yoji Yamada por seu filme About her brother. Outro cineasta que, infelizmente, não frequenta muito as telas brasileiras. O último trabalho dele visto em circuito comercial foi, se não me engano, O Samurai do Entardecer (2002), que talvez não seja nem o seu melhor, mas de algum modo traduz sua postura humanista e capaz de dialogar com um público mais amplo. Nem assim os distribuidores lembram dele, e isso num país com uma imensa colônia de descendentes de japoneses. Vá entender.

A Doce Vida imortal

Por Neusa Barbosa em 07/02/2010
50 anos depois de sua estreia, em 6 de fevereiro de 1960, A Doce Vida, de Federico Fellini, permanece fiel à feliz definição do jornalista Tullio Kezich – “um filme destinado a não terminar nunca”.
 
Quando se assiste a essa obra-prima, nunca se tem a sensação de que o filme foi feito há tantos anos. Ele parece estar acontecendo ali, naquele minuto, um animal selvagem disparado no tempo, uma seta apontada para todos os futuros. Fellini sintonizou emoções e verdades que sempre se renovam, mas estão sempre aí, dentro da própria vida.
 
Tullio Kezich, grande crítico italiano, bioógrafo de Fellini e que morreu no ano passado, participou de perto da construção deste filme mítico. Em meados de 1958, tinha sido escalado para fazer uma grande reportagem sobre o estado do cinema italiano, naquele momento em que todas as preocupações se voltavam para a morte do neorrealismo.
 
Nessa pesquisa, Tullio encontrou Fellini, no auge dos seus 38 anos, em pleno processo de criação de A Doce Vida. Tornou-se um passageiro do que ele mesmo chamou de “nave felliniana”, acompanhando a cada passo o processo de criação caótico, intenso e caudaloso que culminou no grande filme - que teve seis meses de filmagem, entre março e setembro de 1959 e passou por inúmeros percalços, como a troca de produtores.
 
Esse acompanhamento da gestação da obra rendeu um excepcional e delicioso livro de Tullio Kezich, publicado na época de seu lançamento nas telas e renovado em várias edições posteriores, a última pouco antes da morte de Kezich – e que continua, infelizmente, sem tradução brasileira.
 
Quem lê italiano não deve perder a chance de importar este indispensável Noi che abbiamo fatto La Dolce Vita – que inclusive é barato (o preço de capa gira em torno de 13 euros). Estão ali as sensações palpitantes de cada etapa de nascimento do filme, as impagáveis conversas com Fellini – que na época adorava dirigir e levava como passageiros seus roteiristas, consultores e o próprio Kezich muitas vezes -, com os atores, roteiristas, técnicos. Estão lá trechos de artigos saídos na imprensa italiana quando da estreia do filme, além dos sempre espirituosos comentários de Kezich, um dos melhores críticos da história da Itália.
 
Ao ler o livro, brota uma vontade irresistível de rever cada cena de A Doce Vida. O que de melhor se pode sentir a respeito de uma obra imortal ?

A guerra de cada um

Por Neusa Barbosa em 05/02/2010

Dois filmes de uma guerra que ainda não acabou, a do Iraque, mobilizam emoções no Oscar deste ano. Um deles é o campeão de indicações Guerra do Terror, de Kathryn Bigelow – que disputa 9 estatuetas, mesmo número de Avatar, de James Cameron (aliás, outro filme de guerra, só que interplanetária).

 
O outro filme sobre o Iraque é O Mensageiro, do estreante Oren Moverman (corroteirista de Não Estou Lá), que ganhou indicações para o ator coadjuvante (Woody Harrelson) e o roteiro original (de Moverman e Alessandro Camon, que já tinha vencido um Leão de Prata no Festival de Berlim em 2009).
 
Chama a atenção – no bom sentido - que os dois filmes sobre o Iraque deixem de lado o patriotismo ufanista e exponham o lado mais obscuro do combate. Guerra ao Terror retrata os soldados norte-americanos como insanos ou perdidos numa verdadeira arapuca infernal, onde eles têm poucas opções exceto a desumanização acelerada.
 
O Mensageiro focaliza a terrível missão de dois oficiais (Woody Harrelson e Ben Foster) de dar a notícia da morte de militares em missão no Iraque para seus familiares. Difícil pensar num trabalho pior e que, além do mais, torna-os vulneráveis às compreensíveis explosões de dor e de ira de pais, mães, viúvas.
 
Cada um à sua maneira, os dois filmes colocam o dedo na ferida e induzem os americanos a pensar: “Afinal o que é que estamos fazendo naquele lugar?”. Não são os melhores filmes de guerra já feitos, nem tão originais – mas esse é o tipo do assunto que mobiliza mais os críticos. Para o público dos EUA, talvez eles estejam o mais próximo possível daquilo que Corações e Mentes (74) ou Apocalypse Now (79) representaram em relação à má consciência sobre a guerra do Vietnã. Trágico mesmo é que esta mensagem antibélica tenha que se atualizar com tanta frequência.