Celulóide Digital

Agora, sem Rivette

Por Neusa Barbosa em 30/01/2016
2016 tá bravo! Primeiro Scola, agora o Jacques Rivette se vai.
 
Era um dos mais elegantes membros da Nouvelle Vague, aquela geração que passou da crítica à direção, calando a boca dos que repetem aquela velhíssima bobagem – que críticos são cineastas frustrados; Quase nunca são. Rivette, Truffaut, Chabrol, Rohmer e Godard, o último deles, não mesmo.
 
Para mim, a característica mais marcante de Rivette era a forma finíssima com que conseguia intercalar as artes na tela. A mais eloquente manifestação desse talento pertenceu a A Bela Intrigante (91), um magnífico e denso diálogo entre a literatura (o enredo se inspira em Balzac), pintura e o cinema, equilibrado ao longo de quatro horas que nunca são maçantes, em torno de um velho pintor (Michel Piccoli), sua mulher (Jane Birkin) e uma nova e sensual musa que posa com toda a sua carnalidade para ele (Emmanuelle Béart).
 
Um dos meus preferidos é Quem Sabe? (2003), em que a trama brinca sobre as relações entre o teatro e um homem e uma mulher (Sergio Castellito e Jeanne Balibar). Seu último filme, inédito aqui comercialmente, 36 Vues du Pic Saint Loup (2009), igualmente adorável, flerta com o cinema e o circo, e escalava novamente Jane Birkin e Sergio Castellito.
 
Saudade. Mas quero crer que os cineastas sublimes são eternos.

Saudade de Ettore Scola

Por Neusa Barbosa em 20/01/2016
Tive a honra de conhecer Ettore Scola pessoalmente, numa noite, creio que em 2000, quando cobria o Festival de Veneza e, junto com amigos críticos, o descobrimos jantando no mesmo restaurante que nós. Conversamos com ele – era irresistível tentar – e ele, gentilmente, tirou uma foto conosco (essa aí ao lado), que guardo até hoje como um troféu desta minha profissão, tantas vezes ingrata e incerta, mas capaz de proporcionar esses momentos mágicos.
 
Hoje, tanto o L”Artigliere, o ótimo restaurante do Lido e seu terraço coberto de plantas, quanto Scola, são memória. Uma memória, no caso do magnífico diretor, iluminada por filmes que me formaram, nutriram e continuarão a fazê-lo pelos anos futuros.
 
Ficam marcados no meu DNA obras tão variadas, e densas e engraçadas, pulando de um gênero a outro com a liberdade e perícia de um mestre: Nós que nos amávamos tanto (74), Feios, Sujos e Malvados (76), Um dia muito especial (77), O Terraço (81), Casanova e a Revolução (82), O Baile (83), A família (87), A viagem do capitão Tornado (90), O Jantar (98), Concorrência desleal (2001), até o último, Que estranho chamar-se Federico (2013) - em que ele faz uma delicada e divertida homenagem ao amigo Federico Fellini, protagonizando, na coletiva de lançamento do filme, em Veneza, um dos mais altos momentos daquele festival, pela inteligência e qualidade de suas lembranças. (Clique aqui para ler o texto que escrevi na ocasião)
 
Não há muito o que dizer da partida de um dos grandes de uma magnífica geração italiana, a não ser que é preciso ver e rever seus filmes para sempre. Em alguns, dá vontade de morar neles, como num sonho.