Celulóide Digital

Um galã do tempo da delicadeza: John Herbert

Por Neusa Barbosa em 27/01/2011
Tive o privilégio de conhecer John Herbert em meados de 2004, quando recebi a incumbência de fazer um livro sobre ele, que aceitei com o maior prazer. Ele era uma dessas caras conhecidas, desses atores que você cresce vendo na TV, no cinema, mas nunca pára para pensar no quanto realmente ele vale, que espaço ele ocupa. Ou deveria ocupar.
 
Herbert foi vítima de uma dessas lamentáveis pechas que os jornalistas tantas vezes colocam, em sua mania de classificação – tarefa que são insistentemente cobrados a exercer, é bom que se diga. Assim, ele era “o galã”, ou “galãzinho” e ninguém discutia muito se ele era bom. E era.
 
Johnny  teve a sorte de começar a carreira numa época em que tudo parecia começar também no Brasil – a TV (onde Johnny estrelou com a então mulher, Eva Wilma, a primeira sitcom brasileira, Alô Doçura), o Teatro de Arena de São Paulo (onde ele foi ator do grupo inaugural), o cinema de estúdios como Vera Cruz, Maristela, Multifilmes (aí foi onde ele firmou a imagem de galã).
 
Ele era galã, sim, mas não era só isso. Herbert foi um desses atores sutis, a quem cai bem a comédia fina e delicada, a ironia. Ele era de um tempo de delicadeza, que talvez uma parte do público contemporâneo nem saiba compreender mais, mergulhado que está na escatologia e no mau gosto do humor escrachado que predomina hoje.
 
Mas ele não foi só isso – como se fosse pouco! Muita gente esquece que foi também um ator versátil, capaz de estrelar um drama da potência de O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sérgio Person, no papel do advogado dos injustiçados protagonistas. E que fez até filmes de cangaço, como O Cangaceiro Sanguinário, em que saiu no braço em cena com o fortão Maurício do Vale, numa luta de faca em que os dois acabaram se machucando - não com a faca, mas porque rolaram nas pedras, no chão.
 
Muitos não sabem também que ele foi um refinado produtor teatral, produzindo peças ao lado de Antunes Filho, e que enfrentou a estupidez e a brutalidade da censura em 1971, plena ditadura, governo Médici, para liberar Os Rapazes da Banda – o que o levou a ter que vender uma casa para pagar dívidas.
 
Talvez nunca se faça justiça a Johnny, que nos deixou neste quente final de janeiro. Faço a minha parte para que pelo menos nunca se esqueça que ele era um gentleman, o nosso Cary Grant.